Acabei. ACABEI! Demorou dois meses, mas acabei! E agora tenho um vazio na minha vida...
O que dizer sobre esta besta de livro? Este gigante épico, assustador, palavroso, triste, esmagador, poético e brilhante?
Comecemos pelo princípio. Em primeiro lugar, Os Miseráveis é a história de Jean Valjean, um ex-presidiário cujo único crime foi ter roubado um pão porque tinha fome e que, por isso, foi condenado a anos sem fim nas galés. Depois de várias tentativas de fuga, voltou a ser preso, apenas para continuar a ser humilhado pela sociedade quando finalmente saiu. Foi salvo por alguém bom, num momento em que se preparava para cair na mais obscura decadência. Trazido de volta à luz, Valjean decide que, daí para a frente, apenas praticará o bem, apesar de viver perseguido pela justiça, personificada pela sinistra figura do implacável Javert, que não desiste enquanto não voltar a enviá-lo para a prisão.
No meio da sua épica saga, Valjean mistura-se com outras personagens grandiosas. Com a desgraçada Fantine, a meiga e doce Cosette, os horrendos Thénardier, o sonhador Marius (oh, Marius...), a brava Éponine, o corajoso Gavroche e os heróicos amigos do ABC... Há drama, há sangue, há muita infelicidade, muita miséria, mas também há descrições sublimes do amor nas suas mais diversas formas, do bem puro e desinteressado, que só podiam vir de um homem que amou e admirou o bem apaixonadamente, como Victor Hugo. E, sobretudo, como em qualquer bom épico, também se encontra nele tudo o que há de melhor e de pior na natureza humana, esses grandes combates da alma que Hugo reconhece serem, muitas vezes, tão ferozes e cruéis como as mais violentas guerras.
Dito assim, este livro até parece simples, mas desengane-se o leitor que pegar nele a pensar que vai ser fácil. Não é que seja um monstro horrendo de se ler, mas é desafiante para os mais impacientes. É que além da história de Valjean e das restantes personagens maravilhosas que o acompanham, os Miseráveis é uma dissertação imensa sobre vários dos temas mais prementes do tempo de Victor Hugo. Esta é a obra de uma vida e de um século. Um grito de revolta de um homem à frente do seu tempo, um homem que quis pôr o dedo nas feridas da sociedade, expor a miséria humana, denunciá-la, dar voz ao povo injustiçado, aos órfãos, aos sem-abrigo, aos gatunos, aos prisioneiros, aos trabalhadores revoltados, às prostitutas, àqueles que a sociedade despreza. Todo os principais conflitos sociais desse longo e turbulento século XIX estão nele contidos...
Nas suas mais de 2000 páginas (no manuscrito original) quase mil não dizem respeito, directamente, ao enredo. Metade do livro podia ser cortada sem afectar, em demasia, a história principal. E essa, (além de alguma eventual acusação de pieguice à qual eu responderei "O QUE É ÉPICO É PARA SER ÉPICO E EU NÃO QUERO SABER"), é a principal razão para este livro acabar por desapontar muitos leitores entusiasmados. Entre todos as divagações com que entrecorta o seu enredo, Victor Hugo defende a Revolução Francesa, descreve ao pormenor a batalha de Waterloo e os seus efeitos na Europa, tece várias considerações sobre a pertinência dos conventos, insurge-se contra a tirania, lembra a Paris anterior a Napoleão III (que tanto a modificou, para tristeza de Hugo), condena a burguesia e Luís Filipe, apresenta ladrões que podiam perfeitamente ter ficado sem nome, perde pelo menos dois capítulos a estudar o calão, DÁ-NOS A HISTÓRIA E DESCRIÇÃO COMPLETA DOS ESGOTOS DE PARIS... Confesso que saltei várias das divagações ou, no máximo, as li bastante por alto. E, no entanto, este livro sem elas não ficaria completo.
Estas reflexões oferecem-nos imenso sobre Victor Hugo e o seu tempo, e são necessárias para entendermos as próprias intenções dele ao escrevê-lo. Afinal, Victor Hugo demorou mais de uma década a acabar esta obra, porque ele próprio reconhecia que havia mudanças que tinha de fazer em si próprio para se sentir digno dela, para lhe ser verdadeiro. Lidas a seco, sem a pressa de chegar ao fim ou ver o que vai acontecer, até são bastante simples de ler e fazem-nos pensar, fazem-nos simpatizar com o próprio autor. E a escrita de Victor Hugo é boa, é bela, é irónica até e, às vezes, apanha-nos desprevenidos com tiradas acutilantes cheias de humor. O problema é que às vezes nós queremos saber o que vai acontecer a seguir e não estamos para perder 50 páginas numa admiração pela clausura feminina ou numa comparação entre as barricadas de 1832 e as revoltas de 1848. Além de que muitos leitores provavelmente não terão as referências históricas para perceber essas alusões todas, ao contrário dos leitores do século XIX, o que acabará por os desencorajar sobretudo quando, como eu, não gostam de saltar páginas.
Um livro assim não pode ser tratado de forma indiferente. Há uma razão para ele ser um clássico e um clássico nunca pode ser lido sem o seu contexto, sem o seu tempo. Este livro foi considerado imoral, no seu tempo. Victor Hugo tornou-se tão amado pelo povo que os mais pobres faziam vaquinhas para comprar os seus cinco volumes em conjunto, para depois os ostentarem orgulhosamente em casa. Tal como Notre-Dame de Paris é um hino à célebre catedral parisiense (e em grande parte a razão da sua fama ainda hoje), os Miseráveis é um hino ao povo francês, personificado, na sua diversidade de misérias, numa série de personagens grandiosas. É, também, um hino ao amor. Ao amor pelo próximo. Ao bem.
Por isso o que digo ao leitor com medo é que o leia, que salte para dentro dele. E que não tenha medo de saltar as partes em que ele desliga completamente do enredo, mas que retome o fio à meada e, se puder, no final, volte atrás e leia algumas das considerações solitárias. Porque vale a pena retomá-las, uma vez passado o entusiasmo do livro. E se não tiver, de todo, paciência, bem, compre uma versão mais curta ou veja o musical. Devo dizer que continua a ser uma excelente adaptação, embora, agora que li o livro, reconheça que tem falhas nalguns pormenores que poderiam ter ficado um pouco mais claros e que até melhoravam a história.