José Lins, formado em direito, optou pela carreira literária, produzindo obras marcantes. "Doidinho" segue a história de Carlinhos, que, após a morte trágica de sua mãe, é levado para viver com seu avô em um engenho no interior do Brasil. A narrativa explora a infância de Carlinhos, marcada por alegrias e tristezas, incluindo a saudade da mãe e a ausência do pai, internado em um asilo. O ambiente do engenho é descrito como repleto de natureza e convivência com outras crianças, mas também reflete a realidade social da época, onde muitos trabalhadores viviam em condições de semi-escravidão.
À medida que a história avança, Carlinhos é enviado para um colégio interno, onde enfrenta uma nova e dura realidade. A mudança de nome para Carlos de Melo simboliza a perda de sua infância e a imposição de uma nova identidade. O colégio, com sua pedagogia violenta e repressiva, apresenta desafios que Carlinhos não está preparado para enfrentar. Ele e os outros alunos, sem a proteção familiar, lidam com a descoberta da sexualidade e a doutrinação religiosa, levando Carlinhos a sentir culpa e confusão sobre sua identidade. A narrativa de José Lins do Rego aproxima o leitor do sofrimento e das angústias de Carlinhos, criando uma conexão emocional intensa com o personagem.
Carlinhos, agora conhecido como Carlos de Melo, enfrenta a solidão e o abandono em sua nova realidade escolar, onde é apelidado de "doidinho" devido ao seu comportamento diferente e à sua reclusão. A crueldade dos colegas se intensifica quando descobrem que seu pai está internado em um asilo por problemas mentais, levando a humilhações que aprofundam seu sofrimento. A falta de comunicação com a família, restrita a cartas que não podem ser enviadas, intensifica sua angústia.
À medida que a narrativa avança, Carlinhos começa a perceber as mudanças ao seu redor, não apenas no ambiente escolar, mas também nas transformações sociais que afetam a vida no engenho de seu avô. Durante uma visita ao avô, ele se depara com a dura realidade dos meninos que trabalham no engenho, percebendo a diferença entre sua vida e a deles. Essa nova perspectiva o faz refletir sobre a pobreza e as dificuldades enfrentadas por seus colegas, que antes ele via com inveja.
A obra de José Lins do Rego retrata um Brasil em transição, onde a queda do patriarcado e a chegada das usinas de açúcar marcam uma nova era. O autor utiliza uma linguagem envolvente e memorialista, refletindo suas próprias experiências de vida, como a perda da mãe e a criação pelo avô em um ambiente semelhante. Essa conexão entre a vida do autor e a de Carlinhos enriquece a narrativa, proporcionando uma visão profunda das transformações sociais e emocionais que permeiam a história.