#lerosclássicos2021
Demasiado excitada para me contentar com o que me oferecia a vida real, demasiado ousada ou demasiado lúcida para me render ao encanto das crenças supersticiosas, debatia-se dolorosamente. Eu agia em conformidade com as ilusões do meu cérebro, com os impulsos do meu coração.
Sinto sempre alguma reserva ao pegar em correspondência e diários publicados depois da morte dos seus autores, e no caso do “Diário Íntimo” de George Sand, essa reserva estende-se a uma classificação com estrelas. Não sinto que seja justo avaliar uma obra que não estava destinada à publicação, mas que se trata somente um desabafo e um apanhado de apontamentos pessoais. Tentarei, por isso, não ser muito crítica em relação ao conteúdo, focando-me mais no estilo que é típico do Romantismo, desde as referências empoladas à Natureza até à invocação constante de Deus e Jesus Cristo, passando, obviamente, pelas paixões assolapadas que levam à prostração e ao desejo de morrer.
Que fogo é estre que me devora as entranhas? Parece-me existir um vulcão em actividade dentro de mim; a qualquer momento expelirei lava como uma cratera. Ó Deus, tende piedade deste ser que tanto sofre! Por que morrem os outros? Por que não sucumbo eu sob o peso das minhas penas?
Apesar de toda esta dor exacerbada e ânsia amorosa, a verdade é que George Sand viveu até aos 72 anos, teve dois filhos, vários netos, publicou inúmeras obras, todas elas registadas no Índice Expurgatório do Santo Ofício e passou por vários relacionamentos duradouros.
Em relação à estrutura do livro, custa-me dizer que só gostei de uma adenda da autora 19 anos depois de ter iniciado o seu diário...
Estava apaixonada por este livro, queria escrever coisas bonitas. E só escrevi disparates. Hoje em dia, parece-me tudo demasiado enfático. (...) Parece-me que todos os dias mudamos um pouco, e de repente, ao fim de alguns anos, transformamo-nos num novo ser.
...e da parte da cronologia que, evidentemente, não é da sua autoria, visto que George Sand teve uma vida verdadeiramente fascinante, tendo privado com figuras como Chopin, Liszt, Turgueniev e Flaubert, e tendo um privilégio raro na altura, o de ter a independência financeira que lhe permitiu deixar o marido e ter os homens que bem entendeu.