#emsetembrolemosBrasil
3,5*
Gosto de diários, preferencialmente publicados em vida ou ficcionados, quer relatem acontecimentos e observações, quer meditem sobre a vida ou falem de minudências. “Memorial de Aires” tem todas essas componentes.
Deixei-me ficar a condenar o meu pobre jantar, que foi ruim, só o frango prestou e a fruta, menos as peras...
Que pode valer a loja de um barbeiro que eu via por esse tempo, com sanguessugas à porta, dentro de um grosso frasco de vidro com água e não sei que massa? Há muito que se não deitam bichas a doentes; elas, porém, cá estão no meu cérebro, abaixo e acima, como nos vidros. Era negócio dos barbeiros e dos farmacêuticos, creio; a sangria é que era só dos barbeiros. Também já se não sangra pessoa nenhuma. Costumes e instituições, tudo perece.
Este diarista, porém, não é totalmente sincero e confessa-o:
Fique isto confiado a ti somente, papel amigo, a quem digo tudo o que penso e tudo o que não penso.
Na verdade, não simpatizei com este Conselheiro Aires. Achei-o um pouco frio, dissimulado e até malicioso. Partindo de uma aposta que fez com a irmã Rita em relação ao possível casamento de uma viúva muito bela que vêem no cemitério e que faz parte do seu círculo de amizades, não me parece que os seus comentários sejam os mais graciosos ou generosos.
Quem sabe se aquela afeição de Dona Carmo, tão meticulosa e tão serviçal, não acabará fazendo dano à bela Fidélia? A carreira desta, apesar de viúva, é o casamento. (...) Ela entregue a si mesma, poderia acabar de receber o noivo, e iriam ambos para o altar; mas entregue a Dona Carmo, amigas uma da outra, não dará pelo pretendente, e lá se vai embora o destino. Em vez de mãe de família, ficará viúva solitária, porque a amiga velha há-de-morrer.
Importante notar que Dona Carmo tem 50 anos e, mesmo sabendo que a esperança de vida no século XIX não era a mesma de hoje, muita impressão me causou que Aires se referisse a ela sempre como a velha, a boa velha, aquela que não pode viajar porque está muito velha. Se ele próprio tem 60 e muitos e Fidélia 30 e tal, não compreendo este epíteto. Além de velhinha caquética, Carmo Aguiar é uma senhora cheia de qualidades cujo maior desgosto é não ter sido mãe e que transfere o seu afecto e instinto maternal para dois “filhos postiços”: a bela viúva Fidélia e o jovem Tristão que em pequeno partiu para a Europa com os verdadeiros pais. Aliás, todas as personagens femininas são descritas de forma tão benévola que se tornam unidimensionais e parecem uma só pessoa. Não é por isso de estranhar que muitos críticos vejam Rita, Carmo e Fidélia como versões da mesma pessoa, a mulher de Machado de Assis, Carolina, que havia morrido poucos anos antes. Também ela nunca teve filhos, mas foi dona de um cãozinho que muito estimava, como se conta acerca da senhora Aguiar nesta obra.
A única mulher que destoa das restantes em “Memorial de Aires” é a Dona Cesária, que anima um pouco os serões.
As duas senhoras não sofrem comparação entre si, e para conversar Dona Cesária basta e sobra. Eu conheci na vida algumas dessas pessoas capazes de dar interesse a um tédio e movimento a um defunto; enchem tudo consigo.
Tendo lido somente contos e novelas de Machado de Assis de que muito gostei, confesso que esta obra não ficou entre as minhas preferidas. Arrasta-se um pouco no convívio típico de serões, jantares e almoços, e o pouco enredo, aquele que previa praticamente desde o início, só se desenvolve mais para o final e, ainda assim, de forma muito suave, havendo entretanto, e compreensivelmente, muitas referências a mortes, viúvos, cemitérios e velhice.
Nada há pior do que gente vadia – ou aposentada, que é a mesma coisa; o tempo cresce e sobra, e se a pessoa pega a escrever, não há papel que baste.