Der alte Boa Morte zieht durch die Gassen Lissabons, findet Obdach in verborgenen Winkeln, lauscht dem Gebimmel erzürnter Straßenbahnen und dem Gesang der Betrunkenen. Früher hat er in der Kolonialarmee gegen die Unabhängigkeit seiner Landsleute gekämpft, heute verdient er sich als Parkplatzeinweiser ein paar Münzen für die nächste Mahlzeit. Zusammen mit seiner Freundin Fatinha erhascht er Momente der Zufriedenheit, wenn abends zu ihren Füßen die Lichter des Viertels aufleuchten. Doch seine Erinnerungen fordern ihren Tribut, und die dunklen Bilder seiner Vergangenheit hüllen die Farben der Stadt in einen grauen Schleier. Ohne zu urteilen, erzählt Almeida von einem Gestrandeten, den die Geschichte vergessen will, der selbst jedoch seine Geschichte nicht vergessen kann.
DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA nasceu em Luanda em 1982. É licenciada em Estudos Portugueses, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e Mestre em Teoria da Literatura (2006) e Doutorada em Estudos Literários (Teoria da Literatura) (2012), pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 2013, foi uma das vencedoras do Prémio de Ensaísmo serrote atribuído no Brasil pela revista serrote, do Instituto Moreira Salles. Fundou e dirige a Forma de Vida (www.formadevida.org). Trabalha na Fundação para a Ciência e a Tecnologia e é, desde março de 2021, consultora da Casa Civil do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
“Que esta água me lavasse até ao tutano, Aurora. (…) Que me corresse mar nas veias em vez desse sangue doente. Animal com veias de água, ribeiros em vez de artérias, em vez de coração, canhão de ondas. (…) A caneta foge-me dos dedos. Borro as folhas, as mãos, rasgo a página, mas meu coração não rasga. Queria chorar feito rio, mas sou homem seco.”
Chama-se Aurora, vive algures em Bissau e é a destinatária de uma longa carta, texto confessional assinado pelo seu pai, “Boa Morte da Silva, oriundo da província do Cunene, Sul de Angola, nascido em 1938, filho de Maria da Silva e pai desconhecido.” Nela, o homem fala do que é ser velho e preto, subir e descer vezes sem conta uma rua de vivos e mortos a arrumar carros, viver da caridade dos outros a guardar o que não está em perigo. Por companhia tem uma hérnia a querer rebentar-lhe no umbigo, um cão de nome Jardel por companheiro e, por vezes, Fatinha, uma jovem sem-abrigo que não diz coisa com coisa. Nas horas felizes, sobem ao Miradouro de Santa Catarina, vêem-se ao longe os navios no rio, comem uma boa merenda de pão com queijo e fiambre, enquanto crescem na boca os sorrisos com as cabriolices do Jardel. Nos outros, que são quase todos, é voltar a ser um espírito que habita as ruas, que anda com os pés e as pernas, que fala e respira, mas por quem as pessoas passam, circulam e nada vêem.
Rua acima, rua abaixo, Boa Morte sorve o aroma a castanhas assadas que se espalha no ar e envelhece de mãos vazias. Passa muito tempo sem haver carro que dê moeda. No dia seguinte não haverá dinheiro para a camioneta… É aqui que paro para pensar, para reflectir na minha atitude de, tomando a parte pelo todo, raramente dar uns trocos a quem me estende a mão. São actos de puro egoísmo que, bem vistas as coisas, é a mim que magoam. “Quem sabe se notavam que mudávamos de passeio para os evitar, mudar de passeio no qual ia a nossa morte e não a sua.” Também eu vejo essas pobres almas, eles sempre de manga curta, parece que nunca têm frio, elas andrajosas, vestindo longas saias, camisolas negras e rasgadas. Fazem-se rodear dos seus sacos e plástico cheios de coisas sem valor, tapam-se com caixotes, dormem ao frio e à chuva, nas entradas de prédios ou, quando a caridade toca a “gente grada”, nas paragens de metro, no coração da terra. Também eu não faço nada.
Com este seu “Maremoto”, Djaimilia Pereira de Almeida volta a segurar-nos pelos ombros e a abanar-nos repetidamente a ver se despertamos da nossa insensibilidade. Como uma onda que avança e tudo cobre à sua passagem, a narrativa obriga-nos a olhar Boa Morte e Fatinha como gente igual a nós, gente que sente e sofre, gente cujo único pecado foi ter nascido do lado errado da noite. No grande teatro da vida, com anjinhos a voar num céu pintado de azul e nuvens, Boa Morte, Fatinha e tantos iguais a eles são actores ante uma plateia vazia. Por muito nobre que seja o carácter de uns, por muito belos e inocentes que sejam os gestos de outros, ninguém paga para entrar, todos preferem continuar a viver a sua vida de mentira, dentro de muros cada vez mais altos, fazendo rolar por baixo da porta um ou dois euros “só para não ter chatices”. Numa escrita delicada, a autora pinta quadros belos na sua crueza, obrigando-nos a olhá-los de frente e a perceber que custa tão pouco trazer um pouco de conforto e de felicidade a quem nada tem. Um livro (mais um) memorável, de uma das mais significativas e marcantes vozes da literatura portuguesa contemporânea.
É a minha estreia na obra da Djaimilia e tenho uma pergunta: por que motivo não andamos a falar mais sobre ela?
Gostei muito da escrita e da forma como a história é narrada e tamanha beleza na escrita só podia vir de uma história triste, que me faz olhar para mim mesma e questionar com quantos Boa Mortes me cruzei na vida, até naquelas mesmas ruas de Lisboa, e para quantos não terei olhado.
Custou-me muito ler este livro. É duro, muito duro. Uma ode aos invisíveis. No fundo, todos o somos. É, também, um livro muito actual, um alerta para a crise na habitação e um abanão para quem pensa que a desgraça só acontece aos fracos. E a cidadania portuguesa, o que é, afinal? A escrita, em si, não me cativou particularmente. Mas dei por mim a desviar a atenção, a não querer ver porque, na verdade, não queremos ver aquilo que nos dói, não queremos ver quem somos, não queremos que nos lembrem a nossa fragilidade, não queremos lembrar-nos que nenhum de nós conhece o seu destino. Teria gostado de conhecer algo mais da vida de Boa Morte, o seu passado africano, antes da guerra. Creio que lhe teria dado mais corpo, que poderíamos tê-lo visto mais completo, não apenas o fruto do seu infortúnio, da sua invisibilidade e do desprezo do Estado Português. Quem foi este homem, afinal? Que menino foi, quem era a sua mãe, a sua família? Que cheiros e cores foram os da sua infância? Um homem não é apenas o seu presente. Ou talvez ele já se tivesse esquecido de quem foi. Talvez a culpa e o hábito apaguem a memória
Há muito que não me ligava a um livro desta forma. Na escrita de Djaimilia parece que escorre uma veia poética por desvendar: uma escrita crua que nos dá a ver de forma por vezes bonita, por vezes demasiado real, as vidas de quem olhamos de lado diariamente. As pessoas em situação de sem-abrigo, fragilizadas, têm também uma história por contar e por escrever. Uma história de arrependimentos, insucessos, pequenas vitórias e sonhos por concretizar.
Djaimilia desarma o leitor com a empatia que lhe é característica e um olhar único sobre quem não é visto e sobre o passado que nos faz pressão sobre os ombros, como se não chegasse estar no chão.
“Terra dum homem é a terra que ele cava, terra pela qual um homem mata, e eu matei por Portugal antes de conhecer as ruas de Lisboa.”
Que livro triste e genial.
Excelente construção narrativa e emocional, enleada em tanto delírio, melancolia e fragmentação. Tudo o que é escrito para Aurora é desolador, especialmente por causa da ambiguidade moral tão evidente; a primeira e a última carta literalmente cortaram-me o fôlego (entre muitas, muitas outras). Vou definitivamente precisar de reler.
E é impressionante como Lisboa se torna numa entidade quase ambulante na qual Boa Morte espelha a sua alienação. Tão bem escrito.
A Elga Fontes [@quemmelera] recuperou o projeto «Ler a Diferença» e, para junho, propôs o tema «além do amor romântico». Uma vez que pretendia regressar a Djaimilia Pereira de Almeida, achei que esta obra se enquadrava e não me enganei.
Para mim, a amizade é um dos elos mais puros do amor e, neste enredo, assistimos a uma demonstração plena disso, porque, apesar de todas as condicionantes, apesar de todas as micro catástrofes que pautam o caminho dos protagonistas, há um cuidado que nunca é descurado. Em simultâneo, temos um pai a escrever para uma filha que não conhece, mas que inclui em várias circunstâncias do seu quotidiano, amando-a como se fossem próximos. Portanto, neste jogo de contrastes, seguimos as pegadas de um dos melhores narradores com que me cruzei: Boa Morte.
Nesta história, marcada por uma escrita com uma certa musicalidade, somos confrontados com vidas complexas, com solidão, com a sensação de invisibilidade, com o impacto da marginalização. Mas, ainda assim, descobrimos amor nos gestos/momentos mais subtis.
Ler este livro em voz alta é deixar-nos encantar pelo ritmo e musicalidade das suas palavras. É uma carta de Boa Morte à sua filha Aurora. As palavras de um homem que vive do que a rua lhe dá: os trocos de arrumador de carro, cruzar-se com pessoas com vidas difíceis, a sua Fatinha, os vislumbres públicos da vida alheia, o cão Jardel, … e Lisboa e seu Tejo. Boa Morte tem um olhar doce e preocupado para com os outros. É um livro bonito, com verdades duras que nos faz refletir.
“A rua e os filhos da rua mantinham-na viva. Por dentro, extraviara-se.” “De fome não morreram naqueles anos, estivessem eles vivos.”
(PT) Boa Morte e Fatinha são dois vagabundos solitários em Lisboa. Um "mora" na paragem do elétrico 28, outro arruma carros na rua António Maria Cardoso, perto da sede da antiga Pide. Um e outro encontram-se, cada um com os seus fantasmas. Um avô, que sonha em escrever para a sua filha Aurora - se é que ainda existe, pois não sabe nada dela há anos, em Bissau - e uma mulher, mais nova, que não se sabe bem onde está, graças à sua esquizofrenia. Solitários, quando se cruzam, fazem companhia, como se fossem avô e neta.
Um retrato pequeno, cruel e contemporâneo, "Maremoto" mostra a solidão e a pobreza numa grande cidade, entre as ruas cheias de vida, mas na realidade, não passam de selvas de pedra, onde as pessoas reparam, mas não olham, entre a indiferença e o medo. Neste relato pequeno estão aspirações, sonhos, motivos para viver, sempre contados na pessoa de Boa Morte da Silva, que escreve para alguém que acredita que existe para não se sentir tão só na velhice.
E ao ler aquelas linhas, é dos relatos dos quais ninguém se sente indiferente.
Este livro conta a história de Boa Morte da Silva, nativo de Bissau, residente em Lisboa e as suas amizades, principalmente com uma mulher sem abrigo que se chama Fatinha. Há capítulos narrados na terceira pessoa mas a maioria na primeira, como se o protagonista estivesse a falar à sua filha que ainda mora em Bissau e que mal conhece (nem sequer sabe se ou não ela está viva) É muito bem escrito, até eu sou capaz de apreciar a confiança com a qual ela esboça as personagens e as cenas nas quais eles se encontram. Como muitos livros portugueses, custou-me julgar o “tom” da história. Na maior parte, havia um sentido de ternura em relação às personagens, sobretudo na amizade entre Boa Morte e a Fatinha mas também há momentos de humor.
Ela e ele. Uma jovem e um velho. Neta e avó em potência e depois em relação. Ela vive na paragem 28 da Rua Loreto. Ele estaciona carros duas ruas abaixo na António Maria Cardoso. Lisboa. Bissau. Conflitos. Relações cortadas. Uma filha que ele deixou para trás e escreve cartas que nunca envia. Um livro sobre a relação e a amizade entre duas pessoas que não podiam ser mais diferentes, mas que vivem as mesmas amarguras de uma vida cruel e solitária.
Este livro é como ver Lisboa pelos olhos de alguém que, depois de atravessar a dor, consegue perceber a beleza e a delicadeza das subtilezas da vida.
É um livro para caminhar pelas ruas de Lisboa e habitar as memórias africanas de Bissau, para experimentar o amor de outras formas — o amor imaginário, o amor animal, o amor da amizade.
É pura beleza e dor — mas uma dor com os olhos de quem a transforma em beleza.
Que maravilha de livro, que prazer de leitura. 100 páginas de uma sensibilidade descritiva extraordinária. Não tem início-meio-fim, é uma leitura lenta (quase que pede um chocolate quente numa tarde de inverno), mas não menos envolvente por isso. Especialmente porque percorre uma Lisboa que me é bem conhecida. Dos melhores que li este ano!
"Fatinha não vivia da vida que roubava aos outros, mas aprendera a chegar tão perto que apanhava a vida que desperdiçavam nos seus gestos. Não se aproximava de ninguém, porque lhe tinham nojo, mas a rua, o frio, a chuva tinham queimado a tela que a separava do seu calor, que a aquecia. A rua e os filhos da rua mantinham-na viva. Por dentro, extraviara-se."
a escrita é lindíssima, é poesia em prosa. os diversos temas que surgem no livro são apresentados de uma forma tão bonita e humana, ilustrando a vulnerabilidade, a vontade de amar, o sofrimento que surge romantizado, mas ao mesmo tempo cru. o final é triste, o boa morte vai perdendo aos poucos tudo o que lhe faz agarrar-se à vida, tudo o que ama... é desolador
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So poetisch es ist, so repetitiv ist es auch. Ich verstehe es, da es das Leben auf der Straße erzählt. Den immer selben Tag, die immerselben Sorgen, die immerselben Straßen. Allerdings waren mir die 160 Seiten dafür einfach zu lang und ich musste mich zwingen, es zu Ende zu lesen - auch wenn ich einige Passagen wunderschön fand.
A autora faz-nos viajar ao universo de várias personagens da nossa cidade, Lisboa, descrevendo lugares tão familiares a partir do olhar de Boa Morte um homem a quem se quer abraçar. Um livro poema repleto de imagens e excertos visuais que nos apelam aos sentidos.
O livro mostra em destaque um lado do sociedade lisboeta que as turistas (como eu) não vê. Foi difícil ler sobre os acontecimentos ruins dos personagens...muito muito triste...mas em cada vida difícil tem pontos de luz também, e momentos de alegria.
Nhê. Eu juro que li com carinho, sendo recomendação de um bibliotecário português aleatório que encontrei em Lisboa, mas não me pegou. De qualquer forma, gostei de algumas metáforas, poucas certeiras entre as várias abusadas - na minha singela opinião.
O ponto de vista de um sem abrigo a vaguear Lisboa é interessante e original mas em termos de história achei muito vazio e como tal não posso considerar um bom livro.