3,5/5
A sociedade brasileira que pede a democracia ainda é a construída sobre bases moralistas.
Dividido em quase cinco décadas do século passado (anos de 1950 à virada do século) e três personagens (pai, mãe e filha), narradores, cada um a seu tempo, Todos nós estaremos bem é um livro que pode não agradar muitos, pois trata de forma sem muitas concessões a evolução das histórias desses personagens narradores, envoltos num Brasil de fachada, como muitas vezes são de fachada as relações. Em especial, algumas descrições de relações sexuais entre homens, e uma entre duas mulheres, narradas de forma explícita, assim como são explicitos os terrores ocorridos nos porões do DOI-CODI durante os anos de chumbo.
Entendo que não se trataram de descrições gratuitas, mas necessárias para o desenvolvimento da história de Roberto e Lúcia. Muito diferente de alguns livros de escritos brasileiros (hello, Tony Bellotto) em que o sexo parece tresandar a cada página, muitas vezes gratuitamente.
A linguagem narrativa praticamente não é alterada de uma narração para outra, o que dá a impressão de que a distinção entre Roberto, Lúcia e Karla ocorre apenas por razões de contextualização de suas vidas numa voz quase sempre masculina, mesmo quando deveriam ser femininas. Por outro lado, a composição dos anos 1980 e 1990 foi absurda, parecia reviver essas décadas em que até mesmo se podia fumar dentro de hoteis, aviões, hospitais. E que houve um governo de direita que fez o que em geral se dizia que um governo de esquerda é que faria: confiscou quase todo o dinheiro que as pessoas tinham nos bancos, inclusive poupanças, deixando um valor ínfimo que poderia circular no país, com resultados praticamente nulos nos destinos econômicos do país, mas que destruíu sonhos, vidas.
E no meio disso tudo, o vírus HIV, destruíndo vidas e vidas e vidas. E o preconceito que lhe acompanha.
A culpa ronda a vida desses personagens, culpa resultante do silêncio imposto aos desejos que acabam, de uma forma ou de outra, por encontrar meios de se realizarem, seja por meio de vidas duplas, ou na mais pura hipocrisia, quando a sinceridade com aquele ou aquela com quem se partilha a vida poderia resultar em soluções diferentes, mesmo que a separação fosse uma dessas soluções. Mas não somos educados para a sinceridade. Portanto, que vivamos as culpas.