Uma história e tantas, mas tantas identificações… Eu sempre acreditei que o bom da leitura é que você também possa se sentir parte daquele enredo contado. Acho que esse foi o livro que eu mais fiz marcações e teci comentários em notas porque sempre surgia uma situação que me fazia dizer “CARACA, EU SEI MUITO BEM COMO É ISSO”. Eliane merece todos os prêmios com essa obra!
Contando a história de várias mulheres, “Louças de Família” me fez conectar com a vivência da gente preta e subserviente. Dentro do coletivo racial, nos encontramos e conectamos com as situações apresentadas. Não consigo dimensionar a dor triplicada que impacta na vida de mulheres e, principalmente, de mulheres pretas. Pelo título, já me remetia que seriam questões de memórias a serem apresentadas, mas não imaginei o quão impactante essas louças poderiam se tornar. Esses cacos são juntados no mais profundo sentimento de angústia da autora.
No início, a leitura me arrastou um pouco, principalmente por uma dificuldade que senti com a linguagem usada pela autora - mas que depois fez todo o sentido com o contexto que ela mesma apresenta - a história foi me envolvendo pelas narrativas que cada personagem se envolvia e como os núcleos iam se desenvolvendo a cada parte. Confesso que até me senti culpado de não ter sacado o lance da linguagem
O choque da morte, evidentemente, foi o ponto de partida para lembrar das minhas que já se foram e a partir dali é como se eu tivesse me desenvolvendo em uma longa sessão de terapia. Não é fácil se aprofundar em traumas e sensibilidades que, no fundo, sabemos que não pararam de sangrar. Eliane, nós sentimos juntos com você todo esse ressentimento que você mesmo ressalva no livro.
Ainda mais que a dor individual, é enxergar como o coletivo sofre, no social, nas divisões raciais impostas por uma sociedade brasileira elitista e que coloca a dura realidade do racismo, em todas as estruturas, e senti doer tanto quanto, sabe? Entender esse contexto da sociedade é duro, mas necessário para que possamos entender aquilo que está tão intrínseco e, muitas vezes, pode parecer confuso dentro de nós.
A recomendação é mais que necessária! Por mais difícil que possa ser, precisamos passar por essa leitura para entender, significar e ressignificar o nosso espaço enquanto indivíduo dentro de um coletivo social.