«A melancolia não só reflete a dualidade do nosso ânimo, como também a estimula. Poderia dizer-se, portanto, que a melancolia "dá alma" à pessoa, ou a inspira.»
Sendo um dos sentimentos mais complexos e ambivalentes, na Idade Média a melancolia era uma «doença diabólica», no Renascimento estava ligada à reflexão e à sabedoria, e no Romantismo era uma qualidade que encorajava a criatividade e a arte. O problema surgiu quando, no início do século xx, se substituiu a palavra «melancolia» por «depressão», como se fossem sinónimos, e se enveredou pelo caminho da medicalização dos «estados melancólicos».
Neste ensaio, a filósofa Joke J. Hermsen propõe uma nova abordagem da melancolia, assumindo-a como um pilar da civilização e uma forma de nos relacionarmos com o mundo e a natureza. Mostra o ser humano como uma entidade capaz de transformar a perda e a transitoriedade em criatividade e esperança - e, com a ajuda de pensadores como Hannah Arendt, Ernst Bloch e Lou Andreas-Salomé, investiga as circunstâncias em que o ser humano usa e ultrapassa a melancolia para estabelecer uma nova relação com o mundo e consigo mesmo. Ou seja, a melancolia é um dos nossos estados naturais - e um dos mais criativos.
"Quanto mais tranquilos, pacientes e abertos nos mostrarmos face à nossa melancolia, mais profundo e inevitável será o aparecimento de alguma novidade no nosso interior. Porque a essência da melancolia é o anseio de assombro e de mudança, uma mudança que se prepara a partir do silêncio, afastando-nos temporariamente do mundo. A melancolia é descansar em si mesmo, um estado de ataraxia, como disse Epicuro, termo que significa literalmente «livre de inquietação», ou seja, livre de ruído, de preocupações, de confusão, de angústia, de stress e de estímulos externos. A ataraxia é um estado de serenidade da alma que só se pode alcançar a partir do envolvimento com o nosso eu interior. A melancolia, na sua forma saudável, é, portanto, uma pausa contemplativa anterior à exploração de novas possibilidades, enquanto a depressão se poderia caracterizar como um estado de inquietação causado pelo stress que pode conduzir à letargia e à paralisia."
Este livro começa de forma bastante interessante ao abordar diferentes interpretações de o que é a melancolia e o seu porquê de ser, refletindo sobre a mesma e inclusive sobre a depressão, expondo considerações interessantes sobre a relação de estes dois estados psicológicos com as sociedades neoliberais e capitalistas atuais. A isto se resume mais ou menos a primeira metade do livro, com exposições interessantes de caráter psicológico, metafísico e histórico-cultural. No entanto, julgo que o texto se vai desvirtuando ao longo do livro, sobretudo a partir da segunda metade, devido a vários motivos.
Em primeiro lugar, existem extensas exposições em que as referências e menções a Hannah Arendt se multiplicam e intensificam tanto que o foco do livro quase deixa de ser a melancolia, tornando-o num elaborado resumo ou explicação das obras e pensamento de Hannah Arendt, sobre a qual a autora é claramente muito versada. Em segundo lugar, parece que a autora tenta várias vezes universalizar, como experiência comum do ser humano, algumas experiências e estados psicológicos que aparentam ser muito particulares aos autores de onde os cita e perante os quais não me consegui identificar claramente. Em terceiro e último lugar, muitas das considerações da autora — sobretudo no fim — parecem caracterizar ingenuamente a natureza humana, dando-se inclusive no fim do livro um grande apelo ao amor em geral e pelo próximo, refletindo um pensamento tão inconscientemente cristão que até Nietzsche ficaria de olhos arregalados se o pudesse ler; de facto, a sombra junguiana é totalmente descurada e a autora apela a uma humanidade em nós que, embora importantíssima de compreender e sentir, é idealista e revela pouco espírito crítico em relação aos autores em que se fundamenta.
Resumindo, é uma obra interessante de ser ler, mas considero-a intelectualmente e criticamente fraca.
Queria muito ter gostado deste ensaio, e apesar de ter muitas referências interessantes, a autora falha a partir momento em que não parece conseguir oferecer nem uma perspectiva pessoal, nem uma conclusão com substância. O livro aborda melancolia mas de uma maneira tão geral que perde a oportunidade de uma especificidade e problematização mais relevante. Em vez de aprofundar um ou dois aspetos, a escrita apenas viaja superficialmente pelas várias facetas da melancolia.
para Pedro Pedro, lê este livro (uma e outra vez). É incrível, imperdível. Não há textos que lhe falam justiça (daí a ser tão curto). Bjs
Melancolia em tempos de perturbação, de Joke J. Hermsen
Até agora, o livro do ano.
Um estado natural, outrora uma doença melancólica. A melancolia, incompreendida ao longo dos séculos, chega ao século XXI e é atualmente definida como um estado, uma forma de vida, uma questão de perceção.
Mas é este um livro sobre doenças mentais, estados depressivos ou bem-estar emocional? Não. É muito mais que isso.
Joke Hermsen apresenta-nos a melancolia de forma aprofundada, explícita e pormenorizada e, com base na sua descrição, justifica o estado político e social da atualidade, passando pelo comportamento dos Governos, pela resposta da sociedade, pela transformação do medo em ódio – levando-nos inclusivamente aos motivos por que a continua a extrema-direita a crescer.
Filósofa e especialista em Hannah Arendt, sobre quem discorre apaixonada e longamente, Joke J. Hermsen explica a melancolia e todas as suas variantes e consequências. Porque é que os políticos apostam em fomentar o medo? Qual o papel de cada uma das pessoas para contrariar essa tendência e ter um papel mais ativo na sociedade, sendo efetivamente ouvido? Quando se torna a melancolia em depressão? E em medo ou raiva? De que forma podemos manter viva a criança dentro de nós? E como entramos diariamente em contacto com ela sem que o saibamos? Qual é, afinal, o papel da esperança?
Passagens bastante interessantes, especialmente nos últimos capítulos, mas em certa forma torna-se repetitivo ao longo do texto. Estou é um pouco obcecada pela capa, adoro-a.
Confesso que tive dificuldade em ter como verdade tudo aquilo que aqui é dito - porque tudo é apresentado como uma verdade absoluta e sem grande fundamentação. Acho que o meu pensamento académico estava à espera de mais. Ainda assim, acho uma boa leitura.
Os dois primeiros capítulos ainda prometem um panorama histórico decente da melancolia, mas a partir do terceiro torna-se um desfile de citações mal digeridas e especulação sem base.
Hermsen, professora universitária, escreve como se bastasse evocar Platão, Nietzsche ou Arendt para explicar a depressão moderna, ignorando completamente a investigação psicológica e psiquiátrica atual. O momento em que percebi que nada se salvaria: no capítulo 3 cita Lou Andreas-Salomé para sustentar que a melancolia vem de “memórias de infância primordiais” que não conseguimos expressar por falta de palavras à época!!! Isto é pura especulação psicanalítica apresentada como verdade, sem um único dado empírico.
Mais adiante atira estatísticas avulsas para dizer que antidepressivos não funcionam em casos leves e que precisamos antes de “amor, arte e coesão social”, como se isso fosse solução terapêutica. Tudo isto num tom que se quer académico.
Resultado: um ensaio literário travestido de análise séria. Se fosse assumido como prosa poética, vá lá. Mas vindo de uma professora universitária que pretende explicar a depressão contemporânea, é inaceitável.
"Ao refletir sobre o passado e antecipar o futuro, o homem livra-se dos dois rivais que o empurram em direções opostas, criando o espaço necessário para o nunc stans, o lapso de tempo kairótico:《O presente, que na vida quotidiana é a dimensão temporal mais fugaz, para o homem pensante nada mais é do que o pontp de encontro entre um passado que já não existe e um futuro que se aproxima, mas que ainda não chegou. O homem pensa te vive num intervalo.》E é nesse intervalo, segundo Arendt, que pode surgir um novo pensamento 《resistente à transitoriedade》capaz de atuar como contrapeso da nossa melancolia."
Debati-me com a primeira metade do livro, que achei repetitiva e um pouco desorganizada na apresentação das ideias. Já a segunda metade convenceu-me, com bastantes pontos interessantes para reflexão.
Muito, muito interessante toda a abordagem ao tema principal (a melancolia) feita partindo de vários pontos de vista: político, artístico, histórico, psicológico… O livro está escrito com uma linguagem fácil e acessível e desmistifica a ideia de que a melancolia é algo pesado e triste.
Melancholy, depression, and hope. From politics to art, from citizenship to the nature of being human, you can get a bit of everything in this book. At first, I was a bit sceptical about this piece. I thought: ' oh there it is another self-help book which is supposed to guide you to a more luminous pathway but in the end, it will only make you more aware of your sadness'. In fact it is precisely that, but instead of formulating standardized ways to overcome your melancholy, it explains why you are melancholic in a very pragmatic way - a very Dutch way, I would say. While explaining the importance of melancholy in arts, the ways that the ancients grasped it, and then bridging it to a modern, technocratic and culturally degrading society you can finally understand that although Freud was right - we all have mommy/daddy issues and want to return to a foetal state - we can also blame our depressing states on institutions. As I said, I had low expectations for this book but it amazingly sowed some seeds of hope for the future, on ways to navigate in sadness and 'Saudade'; on the need to mutate our perception and to actively use these feelings in creative and constructive ways; on our responsibility to demand from institutions and governments a decrease on marketability and an increase on humanity - which encompasses among many things eudemonia, the right time to do things, art and creativity, freedom and solidarity; especially in a time where these feelings of impotence are extremely rooted in our daily lives. Now, is there way too much referencing to Hannah Arendt? Yes. Do I get bothered by it? No. Hannah Arendt rules and I believe Joke Hermsen thinks the same way.
“É muito fácil passar uma receita médica para que ninguém tenha de procurar as verdadeiras causas dos seus sentimentos”.
Este ensaio da filósofa Joke J. Hermsen faz-nos pensar na forma como a sociedade de hoje não aceita a tristeza e a melancolia como sentimentos naturais, mas sim como alterações que têm de ser “curadas” nomeadamente através de medicação. E aqui temos a confusão habitual destes sentimentos com a depressão.
A autora faz um belíssimo trabalho em demonstrar a necessidade da melancolia e a sua relação com o potencial criativo do ser humano: “a melancolia é uma pausa, um alto no caminho, um lugar afastado para aproveitar novas oportunidades”.
Não obstante as inúmeras referências a diversos pensadores e à suas teorias sociais e filosóficas, o livro lê-se como um romance, com uma escrita fluida e nada pretensiosa. Gostei muito desta leitura!
Um dos melhores livros de não-ficção que li. Há uma sensibilidade de cisne branco a navegar em águas serenas que se entrecruza com todos os perigos que podem vir das margens, das profundezas ou do céu. É como quem diz a nossa melancolia é uma experiência tão natural como universal e é inclusivamente bela, porque nos permite ser criativos e solidários. “Quanto mais tranquilos, pacientes e abertos nos mostrarmos face à melancolia, mais profundo e inevitável será o aparecimento de alguma novidade no nosso interior. Porque a essência da melancolia é o anseio de assombro e de mudança, uma mudança que se prepara a partir do silêncio, afastando-nos temporariamente do mundo.” Contudo, temos de a proteger dos perigos do populismo, da sociedade de consumo, da escravatura do tempo contado, do medo do desconhecido. Temos de estar vigilantes para não cair na depressão nem na descrença. O amor e a arte, a abertura ao outro e a atenção plena são formas saudáveis de navegar a melancolia. “O ato de escrever ou criar terá sempre lugar no campo da tensão existente entre o dizível e o indizível, o presente e o ausente, o possível e o impossível, de modo que o que se exprimiu ou representou poderá sempre ampliar-se ou enriquecer-se com aquilo que falta exprimir ou representar.”
“Nenhum animal simboliza melhor a nossa melancolia do que o cisne”
“Num tempo em que cada vez mais se concede menos valor ao diálogo e mais a uma visão que reduz o homem aos seus parâmetros biológicos, é especialmente importante continuar a manter conversas que, ao contrário dos comprimidos, exigem interlocutores.”
“A depressão é viver com as portas do futuro fechadas, escreveu o poeta holandês Rutger Kopland. E é exatamente isso que a diferencia da melancolia.”
Introdução a varios tipos de melancolia, desde a típica crise na adolescência segundo Freud, a possivel causa do totalitarismo com H. Arendt, passando por varias referencias de autores dos Paises Baixos.
Gostei do livro, no entanto acheio-o bastante redundante no tema da melancolia e depressão. A autora cita demasiadas vezes os autores no qual se inspirou e demonstra pouco sentido crítico