Não sou leitora muito dada a comprar por impulso. Sobretudo, desde que percebi que o tempo é escasso e, por isso, quero tentar acertar as minhas leituras de forma a que o saldo, no final, seja positivo. Ainda assim, às vezes abro a minha exceção - e ela aqui está. Uma exceção motivada pela biografia da autora: membro da resistência armada no combate ao fascismo.
[...]olhou-a com espanto: uma ponte ainda em bom estado, por cima de um canal sem água. Uma ponte que não tinha sido despedaçada, metralhada, feita em ruínas. Dava à paisagem um aspecto de paz, um ar de segurança, ainda que o terreno à volta estivesse cheio de buracos, arado pelas bombas. Tinham deixado cair toneladas delas e a ponte não tinha sido atingida. Viam-se casas, embora distantes, já não casas, mas paredes esburacadas, montes de pedras, toda uma zona assassinada, morta cem vezes, mas a ponte estava intacta. «Sois vesgos, senhores aviadores aliados», pensou.
Inês vai morrer é uma obra de 1949, mas Renata Viganò foi uma escritora precoce cuja vida, intimamente ligada à resistência italiana, alimentou uma extensa carreira nas letras (ligadas ao neo-realismo). E é essa proximidade ao Movimento Partigiano (e ao Partido Comunista Italiano) que a torna uma escritora particularmente perspicaz e fiável no relato da luta da resistência durante a II Guerra Mundial, e na denúncia das inconsistências históricas que a acompanham. Daí que não seja de admirar que a narrativa de Inês vai morrer não acompanhe as grandes movimentações militantes, mas sim replique a atividade individual e anónima dos milhares de combatentes antifascistas que viviam sob ocupação:
Percorria a mesma estrada que daquela vez em que levara o TNT para a ponte, e já tinha passado quase um ano. Trabalho, medo e mortos. Nesse tempo ela era mais forte de corpo e mais lenta a compreender as coisas: agora o cérebro tinha adquirido rapidez, mas o corpo enfraquecia. E os aliados, com os canhões, os aparelhos, as palavras, faziam grandes nuvens de barulho, trágicas ilhas de mortos, mas nunca mais chegavam.
(...)
E entretanto os ingleses gritavam a partir da Rádio Londres: - Aguentem firmes, partigiani, combatam, vamos a caminho - e não chegavam nunca. - Maldita a guerra e quem a quis - concluiu Inês, cansada de pensar.
...como não é de admirar que combata o discurso oficial e heróico em prol da veracidade da pequena escala:
Uma casa branca entre a horta e o pomar, longe das outras casas, isolada no meio dos campos, não é um objectivo militar, não conta para a guerra, nem intacta nem destruída. Mas passaram os aviões aliados, por cima, no regresso de um bombardeamento, e ainda lhes sobravam algumas bombas. Possivelmente um aviador, bem-humorado porque voltava à base, disse ao companheiro de voo: Aposto que acerto naquela casa, ali - (aos anglo-americanos agradam as apostas) e o colega respondeu: - Aposto que não. Experimentamos? - Experimentamos. - Fixaram a aposta em dólares ou libras ou fracções de dólares ou de libras. Depois o voo picado contra a casa branca. Uma bomba, duas bombas, nada. E o colega sorria. Uma volta e de novo, voo picado, uma, duas, três bombas, as últimas, depois não havia mais. Uma outra volta sobre a nuvem de fumo e terra e o colega tinha engolido o sorriso: - Bravo. Belo tiro. Ganhaste a aposta. - E foram embora, rumo ao campo, à messe, ao leito cómodo dos oficiais ou sargentos aviadores ingleses ou americanos. Diz o relatório: todos os objectivos foram atingidos.
Na realidade, Viganò faz de Inês uma porta-voz para os partigiani, para as mulheres, para os indefesos, e usa-a para desvendar, de igual maneira, o abuso de poder da força aliada como a barbárie alemã como a cobardia dos fascistas italianos:
Quando se detinham na aldeia grandes núcleos de forças alemãs, os fascistas republicanos mantinham-se quietos, prontos às ordens, maleáveis como servos. Depois os alemães partiam para a frente, deixando uma modesta guarnição, de gente velha, cansada, feliz por comer, beber, dormir. Então os fascistas exibiam as caveiras, partiam os rádios, faziam de patrões com prepotência, aproveitando a ocasião para se vingarem de velhos rancores e de humilhações recentes.
Através do olhar de uma simples lavadeira, mulher já velha e gorda (as duas características mais evidentes de Inês e que a tornam - pela lógica - simultaneamente feminina e ultrapassada. Mas, enquanto Inês se mantém ativa e corajosa, essas mesmas características servem de contraponto a uma masculinidade apática), a guerra toma novas roupagens e apresenta-se crua, sem fim ou plano de vitória à vista. Inês funciona como representante de uma população usada, abusada e exaurida que já perdeu a esperança...
As pessoas consideravam o som da sirene como o aviso do fim do perigo. Imediatamente muitos saíram para a eira. Ouviam-se gritos e choros para os lados da aldeia e na direcção da ponte havia fumo alto, imóvel, como uma grande árvore branca. Algumas casas deviam ter sido atingidas. - Fora, vão-se lá para fora! - disse Inês, e empurrava-os pelas costas. Empurrou também os dois alemães e quatro ou cinco mulheres que parecia quererem ficar. Uma voltou-se e disse: - Também levaram o meu marido e o Ivo, o Silvio, o filho do Cancio, o Ottavio do moinho - a cada nome apontava uma das companheiras e todas se puseram a chorar com os lenços a cobrir a cara.
Inês ficou um momento a olhá-las, depois foi buscar cadeiras. Disse: - Sentem-se! - Levantou-se uma onda de vozes, de choros, de invocações, um coro de tragédia grega. Inês estava calada, fitava-as com olhos vazios. - Os nossos homens não voltarão - disse subitamente. - Seria bom matar todos os alemães.
...e a fé:
A soma recolhida foi entregue ao sacristão, e ele é que a levou a Inês. Viu-o chegar um dia em que nevava fortemente e todo o vale estava branco e cinza, com o céu baixo sobre as árvores. Disse: - Com este tempo, Alfonso? Que vem cá fazer? - Ele batia os pés à entrada para tirar a neve dos sapatos: era um velho curvado, magro, com um perfil de ave de rapina. - Recolhemos este dinheiro respondeu, para honrar a memória do pobre Palita. Toda a aldeia contribuiu. Não é muito mas é de boa vontade. - Estendeu-lhe o dinheiro, depois retirou a mão imediatamente: - Talvez pudesse servir para mandar dizer missas. – Dê cá - disse Inês-e agradeça a todos os que se lembraram de mim. Com as missas não se preocupe. Eu trato disso. - Meteu o embrulhinho do dinheiro no bolso do avental e deitou de beber para o velho. Quando ele lhe entregou o copo vazio, ela disse: - Pronto-, como que a significar que o diálogo terminara. Alfonso continuou ali ainda algum tempo, mas em silêncio: não sabia que mais dizer, quase lamentava ter aceitado aquele encargo. Inês estava ali em frente dele, em pé, larga, pesada, com a gorda cara imóvel: parecia esperar pacientemente que ele se fosse embora. - Então, adeus - disse subitamente o velho, e saiu; as botas afundaram-se todas na neve. - Agradeço-lhe a si também - disse Inês. - E esteja descansado. Palita sofreu o Inferno com os alemães antes de morrer. Não tem necessidade de missas.
Com aquele dinheiro comprou lã de ovelha. Pôs-se a fazer meias para os partigiani, quando estava sozinha, à noite, junto da lareira.
A rápida desumanização das gentes, a sensação de abandono e a perda são focos desta narrativa onde Inês marca uma presença determinante enquanto símbolo de luta...
(...)era a primeira noite desde quando, com o mesmo gesto violento, tinha esmagado a cabeça ao alemão e dividido em duas a sua vida. A primeira parte, a mais simples, a mais longa, a mais compreensível, estava agora para lá de uma barreira, acabada, concluída. Lá houvera Palita, e depois a casa, o trabalho, as coisas de todos os dias, repetidas por quase cinquenta anos: aqui começava agora, e era decerto a parte mais breve, dela não sabia senão isto.
...símbolo de ordem e fiabilidade...
- É a responsável diziam as suas «organizadas», quando a viam chegar. Chamavam-lhe sempre assim, a «responsável», e a ela não lhe agradava o nome, parecia-lhe grotesco e solene. «Podiam bem chamar-me Inês», pensava, com um aborrecimento subitamente submerso num mar de outras preocupações mais importantes.
...símbolo de consciência, objetividade e sangue-frio em tempos incertos:
Tinha na mão alguns impressos lançados pelos aviões ingleses. Era Alexander quem escrevia, o general Alexander, aquele que até agora tinha dito aos partigiani: - Façam isto, façam aquilo, sejam valentes, sejam corajosos, em breve vos iremos libertar, mas entretanto ataquem os alemães, destruam-lhe os transportes motorizados, façam saltar as pontes, destruam os canhões. Mandar-vos-emos tudo o que for necessário, mas enquanto esperam façam a guerra com o que arranjarem. Façam a guerra de todos os modos, deixem-se matar o mais possível, nós estamos aqui e estamos a olhar-vos. - As palavras eram diferentes, belas, bem redigidas, mas o sentido era este, até agora.
Inês é um símbolo maternal, sacrificial - uma mãe-coragem que arrisca a vida em nome do bem comum:
Inês tinha razão. «Aquilo que há para fazer, faz-se.» Estava habituada a contar pouco com os outros. Durante toda a sua vida, mais de cinquenta anos, arranjara-se sozinha. Sentia-se um pouco cansada, parecia-lhe que o coração se tornara demasiado grande, uma máquina no peito, uma coisa estranha e mecânica que trabalhava por sua própria conta, e ela cansava-se de trazê-la consigo. Nunca pensava no que faria depois da guerra. Desejava-lhe o fim por causa «daqueles rapazes», que não morresse mais nenhum, que pudessem regressar a casa. Mas ela já não tinha casa, já não tinha Palita, não sabia para onde ir.
Inês não tem idade, não tem género, não tem tamanho quando a causa é a liberdade - Viganò denuncia muito bem as contradições que põem em causa, quando conveniente, os papéis de género, os extratos sociais... -, Inês é a mãe, Inês é a candeia que alumia, Inês é o espelho que reflete e o espírito que perpassa pelo grupo de guerrilheiros que combate, dia após dia, o flagelo nazi:
Os alemães não sabiam que entre aqueles homens e aquelas mulheres, às voltas na neve, muitos, quase todos, eram partigiani. Estafetas enviadas com uma ordem escondida nos sapatos, dirigentes que se encaminhavam para reuniões nos estábulos dos camponeses, chefes que preparavam as operações onde ninguém as adivinhava. A força da resistência era esta: estar em toda a parte, caminhar no meio do inimigo, esconder-se nas figuras mais apagadas e pacíficas. Um fogo sem chama nem fumo: um fogo sem dar sinais. Os alemães e os fascistas punham-lhe os pés em cima, só davam por ele quando se queimavam.
Dura, combalida, resistente, Inês é mulher e é metáfora - uma Senhora Liberdade que dá a vida anonimamente pelo futuro, pelos filhos dos outros; uma resistente, uma lavadeira, uma heroína entre muitas que não se contam -, e a sua história é maravilhosamente anódina, vulgar, modesta e, por isso mesmo, fascinante e inspiradora.
Pedalaram um longo trecho em silêncio, depois Inês disse: - Pensas que a guerra acabará em breve? - Não sei -respondeu Clinto. - Esperemos que sim. Porque, se não acaba a guerra, acabamos nós. - Nós não acabamos - assegurou Inês. - Somos muitos. Quantos mais morrem, mais vêm. Quantos mais morrem, mais coragem temos. Ao contrário, os alemães, os fascistas, os que morrem levam consigo os vivos.