Obra da autoria de Afonso Ribeiro, editada em 1943, cujo título remete desde logo para um protagonista coletivo, a aldeia, evocada enquanto espaço físico e social. Partindo de um desenho esquemático, o romancista opõe, a um lado, trabalhadores rurais e rendeiros, e do outro, os senhores da terra; antinomia a que corresponde a oposição de espaç os primeiros, num "quelho" em casas miseráveis; os segundos, em habitações amplas. Visando a desmistificação de uma visão idílica do mundo rural, a uns e outros são, porém, comuns vícios, ignorância e miséria moral, fixando com dureza algumas das suas o Saraiva, aproveitando o desespero de alguns pobres proprietários para lhes lançar hipotecas e aumentar as propriedades; Gaudêncio ou as Feio conduzidos a uma cada vez maior dureza e secura pela fome e pela pobreza. Mau grado esta nítida intencionalidade, o romance revela grande mestria num ficcionista que optou por dotar cada capítulo de uma certa autonomia e pela, consequente, não linearidade do discurso narrativo.
Afonso Ribeiro nasceu em 1911, na Vila da Rua, Moimenta da Beira, foi professor primário e conhecedor profundo das classes pobres das zonas rurais, da sua vida árdua, aliada à falta de solidariedade dos proprietários de terras. Inspiração que passou, sem artifícios, para os seus catorze livros, nos quais desmistifica a vida feliz e saudável da vida no campo e constrói narrativas reais de existências tristes, de fome, doença e trabalho agrícola "escravo".
Como um dos fundadores do Sol Nascente, em 1938 publicou Ilusão Na Morte, obra censurada pela PIDE, que o consagrou como precursor do neorrealismo. A sua vida ficou marcada pela perseguição do regime de Salazar, que o impediu de ser docente, o levou para o jornalismo, e até após a sua fuga para Moçambique, não só lhe fechou todas as portas, como chegou a levá-lo para a prisão. Dez anos após o seu regresso a Portugal, em 1986, já mergulhado num certo esquecimento e falta de dinheiro, escreve ainda A Árvore e os Frutos.
O brilhante autor e contista da Vila da Rua morreu em Cascais, em 1993.