#WIT Month
A mulher extraordinária depende da mulher comum. Somente ao conhecermos as condições de vida da mulher comum – o número de filhos, se dispunha do seu próprio dinheiro, se tinha um quarto só para si, se tinha quem a auxiliasse a educar a família, se dispunha de criadas, se estava a seu cargo uma parte do trabalho doméstico – somente ao avaliarmos o modo de vida e a experiência disponível à mulher comum, poderemos explicar o sucesso ou o fracasso da mulher extraordinária como escritora.
Em tempos longínquos, dividi por algumas horas o meu espaço de trabalho com dois revisores, uma mulher e um homem, e, porque os leitores têm faro para se detectar, numa conversa sobre livros, a revisora manifestou a sua indignação por o colega nunca ler obras escritas por mulheres. Das razões não me recordo com precisão, pois a partir daquele momento, tudo o que saiu daquela boca sobre o assunto, para mim, foi ruído.
É provável que os valores de uma mulher não sejam, na vida como na arte, os valores de um homem. Deste modo, quando uma mulher escreve um romance ela verifica que a todo o momento deseja alterar os valores estabelecidos – deseja conferir importância ao que um homem considera insignificante, tornar banal o que para ele é importante. E é evidente que vai ser criticada por isso, pois o crítico do sexo oposto ficará, de facto, perturbado e surpreendido perante uma tentativa para alterar a escala corrente de valores, e não a entenderá como uma mera diferença de perspectiva, mas, pelo contrário, vai considerar esta perspectiva fraca, banal ou sentimental porque difere da sua.
“As Mulheres e a Ficção” é o medicamento que prescrevo a todos os leitores que pararam no tempo e na evolução humana, mas também àqueles para quem, por curiosidade ou empirismo, já estão a par destas conclusões mas gostam de vê-las corroboradas por entidades superiores como Virginia Woolf.
Uma das razões que as levava a escrever era o desejo de expor o seu próprio sofrimento, de defender a sua causa. Agora que este desejo não é já tão urgente, as mulheres começam a explorar sob forma literária o seu próprio sexo, escrevem sobre as mulheres como jamais a seu respeito se escreveu, pois é claro que, até há muito pouco tempo, as mulheres em literatura eram uma criação dos homens.
Este ensaio de 1929 é mais académico e expositivo do que a palestra que li recentemente, “Profissões para Mulheres”, onde a verve e a ironia de Woolf são simplesmente fenomenais, mas aqui a autora cobre todos os aspectos históricos e pessoais que condicionaram as mulheres e que contribuíram para a sua invisibilidade enquanto criadoras.
Do dia de uma mulher é frequente nada restar de palpável. Os alimentos que cozinhou foram comidos; as crianças de que cuidou saíram para o mundo. Nestas circunstâncias onde recai a ênfase? Qual o aspecto mais em evidência para a romancista utilizar? É difícil de dizer. A vida de uma mulher reveste-se de um carácter anónimo, o que é extremamente embaraçoso e desconcertante. Pela primeira vez, este terreno oculto começa a ser explorado pela ficção; e ao mesmo tempo, a romancista deve ainda registar as modificações que o acesso a uma vida profissional introduziu nos hábitos e no espírito das mulheres.
Afirma também Woolf que, em sendo concedido tempo, espaço para si e livros, as mulheres poderão exercitar o seu talento, fazer do romance uma obra de arte em vez de um desabafo e passar a géneros mais complexos como a crítica e a biografia, vaticinando que “no futuro as mulheres irão escrever menos romances mas de melhor qualidade”, previsão que não me parecer ter-se concretizado, já que actualmente as mulheres escrevem cada vez mais romances mas de pior qualidade.