Volume que reúne em nova tradução três clássicos da Literatura universal - A Sentença, A Metamorfose e Na Colónia Penal - e recupera o projecto unitário desenhado por Franz Kafka com o título Punições.
Obra inserida no Plano Nacional de Leitura
Um pai que julga e condena o filho à morte; um caixeiro-viajante que acorda transformado num bicho monstruoso; um explorador que testemunha o uso de uma elaborada máquina de tortura na execução de sentenças.
Estes três textos célebres — A Sentença, A Metamorfose e Na Colónia Penal — poderão ser familiares até para quem nunca os leu, ou não fosse Franz Kafka um autor que ao revolucionar a literatura do século xx se tornou universal. São textos escritos, respectivamente, em 1913, 1915 e 1919, que testemunham um autor no auge da sua força expressiva e que levam até às últimas consequências o desespero do homem moderno e a sua solitária condenação a uma existência absurda, e que, segundo a vontade de Kafka, deveriam ter sido coligidos num único volume com o título Strafen (Punições) pelas afinidades que apresentam e pelas novas leituras que esse diálogo trinitário pode suscitar. Um projecto que, no entanto, nunca chegou a concretizar.
Os elogios da crí
«Kafka descreveu com um maravilhoso poder imaginativo os futuros campos de concentração, a futura volubilidade da lei, o futuro absolutismo do Estado, as vidas paralisadas, desadequadamente motivadas e confusas de tantas pessoas; tudo surgia como um pesadelo e com a confusão e a inadequação de um pesadelo.» Bertolt Brecht
Franz Kafka was a German-speaking writer from Prague whose work became one of the foundations of modern literature, even though he published only a small part of his writing during his lifetime. Born into a middle-class Jewish family in Prague, then part of the Austro-Hungarian Empire, Kafka grew up amid German, Czech, and Jewish cultural influences that shaped his sense of displacement and linguistic precision. His difficult relationship with his authoritarian father left a lasting mark, fostering feelings of guilt, anxiety, and inadequacy that became central themes in his fiction and personal writings. Kafka studied law at the German University in Prague, earning a doctorate in 1906. He chose law for practical reasons rather than personal inclination, a compromise that troubled him throughout his life. After university, he worked for several insurance institutions, most notably the Workers Accident Insurance Institute for the Kingdom of Bohemia. His duties included assessing industrial accidents and drafting legal reports, work he carried out competently and responsibly. Nevertheless, Kafka regarded his professional life as an obstacle to his true vocation, and most of his writing was done at night or during periods of illness and leave. Kafka began publishing short prose pieces in his early adulthood, later collected in volumes such as Contemplation and A Country Doctor. These works attracted little attention at the time but already displayed the hallmarks of his mature style, including precise language, emotional restraint, and the application of calm logic to deeply unsettling situations. His major novels The Trial, The Castle, and Amerika were left unfinished and unpublished during his lifetime. They depict protagonists trapped within opaque systems of authority, facing accusations, rules, or hierarchies that remain unexplained and unreachable. Themes of alienation, guilt, bureaucracy, law, and punishment run throughout Kafka’s work. His characters often respond to absurd or terrifying circumstances with obedience or resignation, reflecting his own conflicted relationship with authority and obligation. Kafka’s prose avoids overt symbolism, yet his narratives function as powerful metaphors through structure, repetition, and tone. Ordinary environments gradually become nightmarish without losing their internal coherence. Kafka’s personal life was marked by emotional conflict, chronic self-doubt, and recurring illness. He formed intense but troubled romantic relationships, including engagements that he repeatedly broke off, fearing that marriage would interfere with his writing. His extensive correspondence and diaries reveal a relentless self-critic, deeply concerned with morality, spirituality, and the demands of artistic integrity. In his later years, Kafka’s health deteriorated due to tuberculosis, forcing him to withdraw from work and spend long periods in sanatoriums. Despite his illness, he continued writing when possible. He died young, leaving behind a large body of unpublished manuscripts. Before his death, he instructed his close friend Max Brod to destroy all of his remaining work. Brod ignored this request and instead edited and published Kafka’s novels, stories, and diaries, ensuring his posthumous reputation. The publication of Kafka’s work after his death established him as one of the most influential writers of the twentieth century. The term Kafkaesque entered common usage to describe situations marked by oppressive bureaucracy, absurd logic, and existential anxiety. His writing has been interpreted through existential, religious, psychological, and political perspectives, though Kafka himself resisted definitive meanings. His enduring power lies in his ability to articulate modern anxiety with clarity and restraint.
Esta edição reúne 3 contos de Kafka: "A Sentença", "A Metamorfose" e "Na Colónia Penal". Li um conto por dia, mas ler Kafka é ficar preso nas histórias mesmo depois de as termos terminado.
"A Sentença" retrata a relação de pai e filho, depois da morte do elo que os unia: a mãe. Um conto que retrata a relação problemática que o Kafka tinha com o próprio pai, uma história muito curtinha mas com um final impactante.
"A Metamorfose" é dos meus livros preferidos de sempre, um texto que pode ter milhares de interpretações possíveis, pode-se achar que é só um livro sobre um homem que um dia acorda transformado num insecto monstruoso. Mas eu leio um pedido de ajuda, como alguém que nunca se sentiu parte de algo. Como alguém incompreendido (basta ver a reacção da família quando descobrem que o Gregor Samsa é um insecto). É, sem dúvida, dos textos mais impactantes que já li.
"Na colónia penal" demonstra a devoção e o respeito por um aparelho que executa as penas de morte naquela colónia penal. Não há espaço para a defesa, o réu não sabe que está condenado à morte e este aparelho é um instrumento de tortura que prolonga a execução por 12 horas. A máquina mastiga, tritura, destrói o ser humano. Assim como n'O Processo, Kafka demonstra o conflito entre o indivíduo contra o mundo burocrático. O que pode um ser humano contra instituições irracionais e incompreensíveis?
Todos os contos são perturbadores de ler, os textos são tensos e angustiantes. De uma forma simples mas labiríntica (coisas que só Kafka consegue fazer), o autor deixa o leitor como se estivesse perdido em alto mar, sem saber bem o que fazer depois de ter lido um dos seus textos. Quando lemos Kafka, sentimo-nos sempre à deriva, sem saber o que vai acontecer.
Kafka era brilhante e tem o dom de deixar o leitor perturbado, já que apesar de ter vivido na primeira metade do século XX, tudo o que Kafka escreveu continua a ser actual. E isto é incrível e assustador ao mesmo tempo.
Se já são fãs de Kafka, nunca é demais reler. Se nunca leram este autor absolutamente genial, esta edição é uma óptima porta de entrada.
"Quando, uma manhã, Gregor Samsa despertou de sonhos inquietos, achou-se na sua cama transformado num bicho monstruoso."
Assim começa a mais famosa novela de Franz Kafka, "A Metamorfose". É um dos três textos contidos neste "Punições", edição da Cavalo de Ferro, que não me canso de elogiar. Pela qualidade, com tradução do alemão por Paulo Osório de Castro e por ter dado cumprimento a um desejo do autor, expresso em vida, de ver reunidas "A Sentença', "A Metamorfose" e "Na Colónia Penal" num único livro.
Um pai que condena o filho, um homem que acorda transformado em insecto e um viajante que observa uma máquina de tortura com requintes de malvadez são os três pontos de partida. Três histórias marcadas pelo expoente de Kafka, expôr o absurdo da existência humana. E há muito de ilógico nesta vida seja pelo contexto, seja pela nossa natureza e por isso, falamos de textos intemporais.
Para mim, ler Kafka é revelador. É um "abre olhos" como dizem os filósofos do BB. Metade do prazer está no sucedâneo da leitura, que normalmente acaba em interrogação e estufeção. Na análise até chegar a uma eventual luz, obrigatoriamente subjetiva. Ler Kafka é desmontar um puzzle. Cabe ao leitor pintar o retrato final. Kafka não convida a pensar, exige reflexão.
Melville terá sido o precursor do absurdo na Literatura, como seu escrivão Bartleby. Mas Kafka é a referência e um autor único. Quem se pode gabar de dar origem a um adjetivo? Sim, é tal a pegada que Kafka deixou, que só por isso já vale a pena a sua leitura e esta edição é um excelente ponto de partida. A iniciativa de ler Kafka é tudo menos kafkiana.
Entre 1913 e 1919 Kafka conseguiu fazer uma crítica absolutamente genial sobre a justiça e o ser humano do século atual, que podia ter sido escrita hoje mesmo… a sua visão de futuro e o poder imaginativo são absolutamente fascinantes. Não foi adorado por muitos no seu tempo, mas sem dúvida que a sua obra é uma referência, ainda que pouco convencional, tantos anos depois. Que se faça a sua vontade de ler estes três textos em conjunto. É uma viagem ainda mais arrebatadora