Esta noite poderia escrever os versos mais tristes se os versos fossem a solução para a coisa. [Cristina Peri Rossi, 1941-…,Uruguai]
Ainda que seja impossível apreciar com igual intensidade cerca de 400 poemas, a abundância e a diversidade de vozes reunidas aqui por Luís Filipe Parrado constitui por si só um feito.
MELANCOLIA DE OUTONO Nenhum jardim definha por minha causa. Não tenho nenhum. Nem uma casa através da qual chorem os ventos de outubro. A nuvem mais negra não me aflige, Pois rara é a vez que olho para o céu. Já não viso alcançar as estrelas douradas do céu. Conformo-me com um candeeiro a gás. Nenhuma ventura me engana, nenhuma espera me desaponta. Nenhum outono me magoa, Nenhum jardim definha por minha causa… [Mascha Kaléko, 1907-1975, Polónia/Alemanha,]
São 97 as poetisas que contribuem para “A Única Maneira de Esquecer a Beleza”, provenientes da América do Norte, da América do Sul, da Ásia, da Europa e da Austrália, na sua grande maioria desconhecidas para mim, com a excepção de Mary Oliver, Anna Swir, Wislawa Szymborska e Piedad Bonnett, o que me abre inúmeras vias para explorar posteriormente.
ATRAIÇOA-SE O DESESPERO Atraiçoa-se o desespero ao pedir-se auxílio: porque aquele que pede, espera. Renega-se a solidão, manifestando-a: porque o que é expresso, partilha-se. Contradiz-se o silêncio ao explicá-lo. E também se não for explicado: porque o silêncio, se se lhe presta atenção, fala. [Ana Rossetti, 1950-…, Espanha]
Foi árdua a tarefa de escolher apenas alguns poemas num manancial de vivências, sensibilidade e originalidade, sobretudo entre as autoras dos Estados Unidos, América Latina, Polónia e Espanha, com todas as temáticas sobejamente conhecidas da poesia, tendo-me marcado sobretudo a dos actos tragicamente mundanos.
A UMA RECÉM DEFUNTA O mais estranho, depois de tudo, não é morrer. É não ter podido concluir a bainha da saia que deixámos, oh, confiantes, sobre a mesa. [Fina García Marruz, 1923-2022, Cuba]
Correndo o risco de me repetir, num país em que se lê e se publica pouca poesia e sem grande variedade, valham-nos as pequenas editoras independentes a fazer um louvável serviço público.
A PÊRA Há um momento na meia-idade em que ficas farto, enfurecido com a mediocridade da tua mente, cheio de medo. Nesse dia o sol fulgura quente e brilhante, fazendo com que te sintas mais desolado. Acontece de forma subtil, como uma pêra Que apodrece por dentro E tu talvez nem te apercebas Senão quando já é demasiado tarde. [Jane Kenyon, 1947-1995, EUA]