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A Boneca Despida

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Julieta – a protagonista deste romance – até podia ser uma mulher anónima, não fosse o facto de ter vivido cem anos. Cresceu sem mãe e longe do pai, junto de uma avó violenta que a escravizou. Não a deixaram prosseguir os estudos. Não lhe ensinaram os factos da vida. Casou sem paixão, teve filhos que amou e por quem sofreu de insondáveis maneiras. Acabou num lar, sozinha, como tantas outras.
Do seu nascimento na ilha do Faial à pequena infância passada em Macau; dos tempos num colégio interno em Hong Kong ao regresso definitivo a Lisboa; da obediência à avó à sujeição ao papel de esposa e mãe; a história fascinante de Julieta (e a da sua boneca de bisque) é também a da mulher portuguesa ao longo dos anos cinzentos da ditadura, sempre contando os centavos, abdicando dos sonhos em favor da família, calando dúvidas e frustrações e passando por cima de sucessivos desgostos.
A Boneca Despida, finalista do Prémio LeYa 2022, é também o registo absolutamente notável da história da vida privada de um país que, no lapso de um século, participou em guerras e conflitos, viu partir a sua gente, instalou-se nos subúrbios, virou do avesso regimes políticos, fez-se europeu, esqueceu os seus velhos, conheceu momentos de luz e sombra. E Julieta, claro, assistiu a tudo.

380 pages, Kindle Edition

First published January 1, 2023

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About the author

Paulo M. Morais

14 books55 followers
Paulo M. Morais nasceu em Lisboa, em 1972. Licenciado em Comunicação Social, trabalhou na imprensa especializada, em áreas como cinema ou gastronomia. Após uma volta ao mundo, dedicou-se à tradução, edição e escrita de conteúdos. Gosta de cozinhar, ler e caminhar junto ao mar. Continua apaixonado por filmes e tem uma vasta coleção de jogos de tabuleiro.
Estreou-se no romance com "Revolução Paraíso" (2013). Após a distopia "O Último Poeta" (2015), seguiram-se "Seja Feita a Tua Vontade" (2017, obra finalista do Prémio LeYa) e "Pratas Conquistador" (2019), ambos integrados no Plano Nacional de Leitura. Em 2022, em coautoria com Pedro Lopes, adaptou para livro a premiada série televisiva "Glória". O romance mais recente, "A Boneca Despida" (2023), foi finalista dos prémios LeYa e SPA Autores e selecionado pelo Plano Nacional de Leitura. Em 2024, integrado na coleção “Portugal”, escreveu o volume "São Miguel". Tem ainda um livro infantil: "A Aldeia Verde e Vermelha" (2020).
Na área da não-ficção, publicou "Uma Parte Errada de Mim" (2016) e "Voltemos à Escola" (2017, obra também incluída no PNL). "A Glória Efémera – biografia de Egas Moniz" (2025) marcou a estreia no registo biográfico.

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Displaying 1 - 14 of 14 reviews
Profile Image for Monica Cabral.
254 reviews53 followers
May 25, 2023
"Por a velhice ter um passado, as felicidades inesperadas resvalam facilmente,  até às recordações angustiadas. Num rosto centenário misturam-se diferentes etapas de vida, as várias idades confrontam-se, anulam-se, corroem-se. A senhora muito velhinha, afinal, também fora uma mulher feita, uma jovem adulta, uma adolescente,  uma menina, uma bebé de dias a mamar ao colo da mãe. "

Julieta, a protagonista deste romance,  nasceu em 1915 na Ilha do Faial nos Açores no seio de uma família feliz e abastada.
Devido à profissão do pai que era oficial da Marinha, a família muda-se para Macau onde, a vida idílica de Julieta e do irmão Gastão acaba,  a súbita morte da mãe obriga à  separação dos irmãos para serem criados por pessoas amigas da família. Aos 5 anos Julieta juntamente com o irmão são enviados pelo pai para Lisboa para ficarem ao cargo da avó materna Palmira e a partir daqui  Julieta vai fazer uma descida ao Inferno. A sua infância e adolescência são marcadas pela violência física e psicológica e à medida que cresce sofre estes abusos e humilhações em silêncio sem nunca se queixar,  pois sempre foi ensinada a obedecer e calar.
Ao longo da narrativa vamos acompanhando o crescimento de Julieta, o primeiro namorado,  o casamento sem amor ao qual, como menina obediente se resignou, a relação com um pai muito distante e pouco dado a afectos, a chegada dos filhos e uma vida pautada pela frustração e desgostos.
A Boneca Despida não é só a narração da vida de Julieta ao longo dos seus 100 anos, é também o retrato do nosso país ao longo de 100 anos: a fome, a subida ao poder de António Oliveira Salazar e subjugação da mulher ao simples papel de mãe de família onde não podia fazer nada sem o consentimento do marido, a Revolução do 25 de Abril, os tumultos sociais,  as greves, a evolução da moda, etc. É um excelente documento histórico do nosso país, contém excertos dos discursos de Salazar e Marcelo Caetano, editais da Comissão de Censura e os "mandamentos " das revistas femininas onde se ensinava  o decoro e as boas maneiras às mulheres portuguesas.
Este Finalista do Prémio Leya de 2022 é um livro maravilhoso onde levamos vários murros no estômago,  nos emocionamos e nos revoltamos com o que se passou com a doce Julieta, os seus sonhos, os seus desgostos,  o sofrimento atroz mas também com a felicidade que viveu por momentos.
Profile Image for Anabela Marques.
95 reviews
August 8, 2023
Gosto de livros com protagonistas fortes e a Julieta é um desses casos. A história desta senhora que perdeu a mãe com 5 anos e vive um século é feita de camadas. De 1915 a 2016, Paulo M. Morais desfia vários retratos de pessoas e da sociedade de cada época, complementando a narrativa com curiosidades, costumes da época e registos de imprensa.
A abrir cada capítulo (simbolicamente o livro começa na Aurora e termina no Crepúsculo) sugestões de bandas sonoras.
No final, o monólogo delirante que o autor inventa para Julieta centenária é um embrulhar e desembrulhar constante dos relatos de vida que o livro nos ofereceu.
Um ótimo livro para se ler devagar nas férias.
Profile Image for Susana Margarida Jorge .
289 reviews17 followers
September 9, 2025
Comprei este livro aquando da sua publicação e olhei para ele inúmeras vezes, até que me decidi pegar-lhe e, foi uma leitura fabulosa, daquelas que nos agarram naqueles 5 minutos em que estamos à espera de algo ou enquanto o jantar está a cozinhar :)
Por ter uma filha Julieta, tenho sempre receio do que irei encontrar quando a personagem principal tem este nome.
Ao longo deste A Boneca Despida vamos acompanhando os 100 anos de vida de Julieta, numa história que pouco tem de belo ou agradável. Mas esta não é só a história de Julieta, é um retrato social da mulher e da sociedade portuguesa salazarista: a fome, a pobreza, a mulher como ser subjugado à vontade do marido, os costumes, a moda, etc.
É impossível percorrer este livro sem nos revoltarmos com a vida da servil Julieta.
Nota positiva para os diversos excertos de documentos históricos ao longo do livro.
Profile Image for Rosarinho .
244 reviews1 follower
June 9, 2023
Romance comovente e que convida a pensar sobre a a família e, especialmente, sobre a velhice.
Testemunho da sociedade, durante cerca de 100 anos em Portugal, fazendo-nos recordar ou imaginar como era a vida no tempo de Salazar.
Interessantíssimo.
Profile Image for Graciosa Reis.
549 reviews54 followers
March 24, 2024
𝑨 𝑩𝒐𝒏𝒆𝒄𝒂 𝑫𝒆𝒔𝒑𝒊𝒅𝒂, de Paulo M. Morais é um romance arrebatador que nos lega uma mensagem que urge repensar nos dias de hoje.
O livro muito bem estruturado, é constituído por sete partes (Aurora, Manhã, Meio-dia, Tarde, Anoitecer, Noite, Crepúsculo) que constituem um dia, mas que efectivamente correspondem a 100 anos, o tempo de vida da protagonista, Julieta Silva. Cada uma destas partes abre com sugestões de bandas sonoras apropriadas a cada momento e que, na minha opinião, enriquecem sobremaneira a leitura do romance.
A subdivisão é assumida por datas (de 1915 a 2016) e em cada uma delas, em jeito de epígrafes, o autor insere pequenos textos representativos dos factos sociais, culturais e políticos da época e que se cruzam, obviamente, com as vivências de Julieta. Considero estes textos fundamentais e de extrema importância para a compreensão do enredo.
Julieta Silva é uma lutadora. Com uma vida infeliz e sofrida carrega as marcas de uma sociedade portuguesa patriarcal gerida sob a batuta castradora do regime do Estado Novo. As mulheres, tidas como “fadas do lar”, conformavam-se ao poder da figura masculina, marcas que permaneceram mesmo depois da revolução.
Julieta sujeitou-se a uma vida de servidão, de abandono, a quem impediram de prosseguir estudos, de ler, de sonhar, a quem não revelaram as alterações corporais e biológicas, a quem não ensinaram os factos de uma vida, nem sequer a experimentar emoções. Casou sem paixão, teve filhos que amou e protegeu incondicionalmente. Assumiu, submissa, o seu papel de neta, de filha, de sobrinha, de irmã, e mais tarde, de mulher, de mãe, de avó. “Naquela submissão, havia medo e solidão.” (p. 71). Sofreu reversos inesperados e dolorosos. Nunca se rebelou, nunca lutou pela sua felicidade, mas também nunca se lamentou, nem vacilou. Julieta é uma mulher extraordinária se tivermos em conta o período em que viveu. Bafejada por um destino cruel, impiedoso e sofrido, tudo faz para sobreviver e servir com amor os seus, sobretudo os filhos.
𝑨 𝑩𝒐𝒏𝒆𝒄𝒂 𝑫𝒆𝒔𝒑𝒊𝒅𝒂, é assim, um documento histórico pois espelha o papel da mulher ao longo de um século, mas também evidencia a repressão homossexual, a “beatice” vivida na Igreja que alimentava nos seus crentes noções de culpa e de pecado, impondo um moralismo excessivo, “Com bênção e selo papal, carimbava-se a aliança entre Igreja e Estado para a orientação dos portugueses nas suas vidas. No seio da família rezava-se e perdoava-se bastante.” (p. 155)

A escrita de Paulo M. Morais é fluida e apaixonante com passagens muito poéticas, mas também muito duras. A realidade social, histórica e social apodera-se da ficção, ou será o contrário? Não importa a ordem, o importante é mesmo que o leitor seduzido se deixa conduzir e, assim, página após página, vive intensa e emocionalmente a existência desta mulher, “que à custa da sua fraqueza [em impor as suas intenções], falhara” muitas vezes, mas que nunca desfaleceu perante as agruras do destino. Quantas mulheres calaram e continuam a calar uma vida de dor, de violência? Termino como iniciei: é urgente repensar a nossa existência, os valores da nossa sociedade. O que queremos? Para onde nos dirigimos?
Recomendo a leitura deste e dos outros livros do autor.
6 reviews
July 27, 2023
Um livro estranho, que me deixou sentimentos contraditórios. Por um lado, o retrato de Portugal ao longo de 100 anos que é importante nunca esquecer. Por outro, a história de Julieta e dos seus que, por vezes, dá a sensação de resultar de uma lista de todas as situações que ocorriam em Portugal, sobretudo durante os anos de ditadura, de que me lembro de ouvir contar, outras de presenciar, mas que dificilmente se acumulam na mesma família. Vale mais pelo retrato do país e de um povo triste, enganado, atrasado, atrofiado e extremamente machista de que lembro de criança que não desejo a ninguém e onde onde não quero voltar.
Profile Image for Isabel.
216 reviews16 followers
October 26, 2023
Um retrato de Portugal e da vida dos portugueses, especialmente na zona de Lisboa, durante os anos de ditadura e pós revolução, através de um relato cronológico da longa vida da centenária Julieta.
É um livro interessante, escrito de forma cativante. Talvez, por vezes, seja um pouco repetitivo, mas ainda assim nunca aborrece. Para mim, falta um pouco mais de profundidade psico-emocional às personagens. Os detalhes são mais biográficos e sociológicos do que descrições dos seus sentimentos face aos eventos, tão marcantes, das suas vidas, mas a Julieta é suficientemente forte para me levar até ao final de um livro.
Profile Image for Manuela.
174 reviews
March 17, 2024
A vida de Julieta, protagonista desta história, que representa um século de um país, do Lugar que sofre todas as mutações sociais, políticas e económicas. Personagem com tanto de forte como de débil, representa também a evolução do papel da mulher.
Através do narrador vamos acompanhando os episódios da vida de Julieta e da sua família, acabando ao longo dos anos. À medida que os anos avançam, creio que também os detalhes sobre os aspectos sociais e pormenores marcantes do que rodeia as personagens vão sendo preteridos ao maior foco na personagem em si, à sua dor, estrutura interna, etc.
Profile Image for Leonor Cohen.
32 reviews
June 14, 2024
Senti que vivi uma vida durante este mês em que li A Boneca Despida. Acompanhei Julieta em todas as suas etapas até que se tornou primeiro minha irmã, depois mãe, depois minha avó. E lembrei-me da minha mãe, da minha avó, e até da minha bisavó. Mulheres fortes que marcaram e ainda marcam a minha vida.

A história de Julieta desenrola-se com a história de Portugal. O enlace de ambas estas histórias torna este livro numa obra, na minha opinião. É o tipo de livro que me aumenta o orgulho em ser portuguesa. Em pertencer a um povo de tamanho carácter.
Profile Image for Maria Elisabete.
40 reviews2 followers
July 31, 2023
O narrador pega em histórias, anotações, fotografias, cartas que marcaram os 101 anos de vida de Julieta "para as juntar nas páginas de um romance". Um romance que não é só a vida "trágica" de Julieta. É também a vida dos nossos avós, dos nossos pais, a nossa vida e a dos nossos filhos, porque o pano de fundo da história é Portugal, de 1915 a 2015. E damos por nós a desbloquear memórias. O que é bom. Tudo o resto é demasiado mau.
Profile Image for Carla Ferreirinho.
137 reviews5 followers
September 9, 2025
Julieta, a protagonista do romance, cresceu sem mãe, longe do pai e viveu 100 anos.
Foi criada por uma avó violenta que a escravizou e não teve acesso aos estudos nem ao conhecimento da vida.
Casou-se sem paixão, amou profundamente seus filhos e sofreu por eles.
Terminou a sua vida sozinha em um lar, como tantas outras mulheres.
A sua história de vida vai desde o seu nascimento na ilha do Faial, passando pela infância em Macau, o internato em Hong Kong, até o retorno definitivo a Lisboa.
Viveu a obediência imposta pela avó e a submissão ao papel tradicional de esposa e mãe.
A história de Julieta e da sua boneca reflete a vida da mulher portuguesa durante os anos difíceis da ditadura, marcada por sacrifícios, silêncio diante das frustrações e a constante renúncia aos sonhos pela família.
O livro A Boneca Despida, finalista do Prémio LeYa 2022, é também um retrato notável da história privada de Portugal ao longo de um século, atravessando guerras, migrações, mudanças políticas, a entrada na Europa e o esquecimento dos idosos.
Julieta foi testemunha de todas essas transformações.
421 reviews14 followers
July 28, 2023
A Desgraçada seria o título mais apropriado para este romance muitíssimo inconsequente e inverosímil - mas, sobretudo, um romance absurdamente desequilibrado. Mais de metade do texto (até à morte da Avó Palmira) é um “xarope” medonho, de tal modo nauseante que estive a ponto de abandonar a leitura; depois, ganha algum fôlego, embora sem perder o tom de roteiro de telenovela capaz de comover até as pedras da calçada. Em suma: mais uma desilusão relacionada com o Prémio Leya do qual foi finalista.
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