“Contos do Gin-Tonic”, de Mário-Henrique Leiria, data de 1973, e reúne textos onde o nonsense, a narrativa insólita, o colocar em derisão do sentido literal de expressões correntes produzem um humor que tem como alvo o absurdo real. E lemos histórias onde o absurdo é mesmo a personagem principal: depois da absolvição de três réus, um queixoso que nunca se levanta – por causa do ínfimo pormenor biográfico de estar morto.
Primeiros-ministros que perdem o pé perante manifestações de apoio, vindo a estatelar-se no empedrado. Namorados que, no instante do beijo, são atravessados por rajadas de napalm. Tudo em doses bem calibradas de gin-tonic e literatura.
É aluno da Escola Superior de Belas Artes, de onde é expulso em 1942 por motivos políticos. Participou nas actividades do Grupo Surrealista de Lisboa, entre 1949 e 1951 e em 1962, depois de ser preso pela PIDE aquando da "Operação Papagaio", instala-se no Brasil onde desenvolve várias actividades, como a de encenador e de director literário da Editora Samambaia. Voltaria em 1970. Publicou Contos do Gin-Tonic (1973), Novos Contos do Gin (1974), Imagem Devolvida, Conto de Natal para Crianças (1975) Casos de Direito Galáctico (1975), O Mundo Inquietante de Josela - fragmentos (1975) e Lisboa ao Voo do Pássaro (1979). Colaborou, com pequenos contos, no suplemento Fim-de-semana, do jornal República e no semanário humorístico, "Pé de Cabra". Chefiou a redacção de O Coiso, semanário impresso nas oficinas do República, durante 13 semanas, em 1975. Aderiu em 1976 ao PRP - Partido Revolucionário do Proletariado. Alguns textos seus, escritos em colaboração, foram recolhidos na Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito (1961), organizada por Mário Cesariny.
BABELITE ou SEGISMONDO O BABÉLICO (...) De uma forma geral, a babelite manifesta-se entre os quatro e os cinco anos. O petiz chega a casa, depois de ter passado a tarde em actividades lúdicas e outras com companheiros de idade aproximada e, à hora do jantar, lança as palavras inesperadas que o definem como babélico. É vernáculo assimilado. Os pais espantam-se e explicam-lhe que aquilo não se diz, mas o garoto continua a aprendizagem. Está no período inicial da babelite, é babélico fónico incipiente.(...)
É, sem dúvida, o gin-tonic a tónica destes contos de Mário-Henrique Leiria, a referência que une vários deles, tendendo o autor para a versão mais pura. E atrevo-me a dizer que o teor de álcool deve ter influído bastante na criação mais ou menos non sense destes textos, pois há alguns que deixam de ser absurdos e divertidos para passarem a ser completamente alucinados e descabidos. Será essa a génese do Surrealismo, claro, mas é um movimento que aprecio mais na pintura do que na literatura, a qual acho difícil de acompanhar, talvez por eu ser demasiado cerebral. Por outro lado, sinto que tendo “Os Contos do Gin-Tonic” sido escritos antes do meu tempo, deve decerto faltar-me a chave para perceber algumas das ideias, que interpreto como crítica social e política, da mesma forma que há piadas ditas na minha geração que são completamente ininteligíveis para os mais novos. Nada disto, porém, me demove de voltar a este autor mais tarde, em busca de contos tão bons como “Jogos Olímpicos”, “Ida sem Volta”, “Meu Sósia, o General”, “Babelite ou Segismondo o Babélico”, “Noivado”, “O Bode Imarcescível” e “Profissão é Profissão”.
Depois de fuzilado ao levar o tiro na nunca pra acabar chateou-se e viu-se obrigado a explicar ao major que comandava o pelotão que o tinha fuzilado por favor preste atenção e não me obrigue a repetir a repreensão na próxima vez que mandar matar dê tempo ao morto pra gritar convicto um último viva a revolução
Este livro foi-me recomendado por um grupo de leitura do qual faço parte. É uma pequena colectânea de contos, alguns em prosa e outros em poesia, cujos temas giram à volta da crítica social e política, com um toque surrealista e sarcástico. Surpreende-me - embora, confesso, sinta que muita coisa me "escapou" - que este livro tenha sido publicado antes do 25 de abril.
Cruzei-me, finalmente, com estes textos agora clássicos pertententes a uma varianda da literatura portuguesa que, escapulindo-se a normas e sendo subversiva, não fica na sufocante, alg bafienta e nada aversa a modismos memória pública institucional. Mas fica na dos amantes da boa literatura, apreciadores de obras que pisam o risco e saltam para o lado de lá das cercas. Livros marcantes, que se vão encontrando em raras reedições, ou como samizdats alfarrabistas. Sabem o que quero dizer com isto. Aqueles livros esquecidos, se calhar com um grande suspiro de alívio dos meios mais convencionais, descobrimos em papel amarelecido e capa a desfazer-se nos caixotes das lojas de livros antigos.
Estou um pouco rebelde nesta resenha. Enfim. Claramente fiquei sob influência destes contos.
Se há impressão que nos fica ao finalizar a leitura destes deliciosos contos, fragmentos e poemas surrealistas, é a do sorriso perante a ironia corrosiva que os pervade. Algo que oscila entre o simples sorrir com o humor mas chega à caricatura subversiva que, se vista à luz da história portuguesa contemporânea, se compreende como uma reacção aos sufocos do bafiento fascismo de um estado novo prestes a derrocar.
Categorizar este livro é algo de impossível, uma vez que saltita entre géneros. Dá até alguns toques na ficção científica. Mas também não interessa categorizá-lo. Vale mais saboreá-lo, acompanhado de golos de gin ou outra bebida igualmente capaz de assaltar os sentidos. E perceber que, tantos anos passados após a primeira edição, a sua capacidade subversiva ainda se mantém actual não pela memória histórica mas por vivermos num momento contemporâneo onde os bafios regressionistas e opressivos de ar respeitável voltaram a afirmar a sua força.
Os Contos do Gin-Tonic - que na verdade nem sempre são contos, por vezes são fragmentos de prosa, poemas, anedotas, aforismos, etc. – são, segundo consenso geral, um dos expoentes do surrealismo português e tidos como uma leitura bastante divertida, mesmo cinquenta anos após a sua escrita. Há alguns aspectos que são comuns a todos os “contos”. Ao nível do registo, tendem a ser desconcertantes e surpreendentes, uns com mais piada, outros com menos. Ao nível da temática, procura-se a corrosão das diversas formas de autoridade, em especial daquelas que sustentam as diversas hierarquias sociais. Na minha opinião, este aspecto constitui simultaneamente a força e a fraqueza do livro. Força no sentido em que muitas vezes é possível discernir na actualidade as mesmas estruturas e hábitos que ali estão a ser parodiados, o que mostra como o fenómeno não se tratou de uma simples contingência histórica; fraqueza, porque há inúmeros “contos” que me parecem algo datados, nomeadamente porque um leitor com memória história menos recuada não dispõe das referências que lhe permitiriam descodificar o real sentido do texto. Nesses casos, fica a sensação de que algo nos está a escapar. Infelizmente, na minha experiência de leitura, as fraquezas sobrepujaram as forças, o que se traduziu num balanço pouco apelativo.
Já tinha lido isto há uns anos, por causa de um trabalho para a disciplina de desenho. Um dia destes, a arrumar o sótão, dei com umas fotocópias da 2ª edição e decidi trazê-las para baixo e reler, coisa que fui fazendo aos poucos, um ou dois contos por dia, até que hoje reparei que faltavam cerca de 30 páginas e resolvi acabar com a miséria. É uma escrita muito gráfica, lá isso é. E absurdamente poética, mesmo o que não é escrito em verso. Não sei como é que os censores deixaram passar isto em 73, pois as referências políticas, se bem que muito bem disfarçadas, tornam-se por demais evidentes, mesmo para mim, a quarenta anos de distância do acontecimento. Como entretanto estive a ler Getting Even (versão portuguesa) não pude deixar de fazer algum paralelismo entre as duas obras, pois ambos gozam com o absurdo e dizendo um monte de barbaridades, dizem muitas verdades.
Damos um gole num conto e quando dermos por nós lemos o livro todo. Não é um livro onde os contos são lidos a eito, mas um gosto de textos. Gostei especialmente dos mais curtos, com traços mais surrealistas. Escrito em 73, são textos muito confrontacionais e sem medo. Ora, não é por acaso que é o autor do mais conhecido poema da nêspera. Engraçado que neste "Contos do gin-tonic" a nêspera já aparece muito. O poema mais conhecido, da nêspera calada, é do volume seguinte. Talvez ataque esse "Novos contos do gin". Comecei a ler em abril de 2022 e, na altura, nenhum texto me passava na goela. Agora desceram bem.
Contos do Gin-Tonic é uma compilação de contos/mini-narrativas do escritor português Mário-Henrique Leiria, alguns em verso mas a maioria em prosa. São histórias com toques de surrealismo, humor e crítica social, que apesar de ser direcionada à época em que o livro foi publicado, pouco antes do 25 de abril, continua a manter-se atual. Gostei de ler, apesar da sensação frequente que muita da crítica social presente me estava a passar ao lado por falta de referências.
"Não me chamem senhor foi o que eu disse quando cheguei ao caminho entre os teus seios não sabiam que eu possuia a tua língua e falaram-me com extrema precaução como se fala a um estrangeiro não sou senhor de nada apenas conheço a terra líquida vegetal colorida quente que desce dos rios que tu és até ao teu umbigo Yaffa civilizações redondas e macias antigas e cruéis reunidas na estranha palnície que nunca me entregaste estendendo-se entre amoras até se encontrar num tempo primeiro e decisivo fundo único exacto em colinas ondulantes onde nascem cantantes vales de laranjas que se repetem pelo horizonte até junto à orla do teu mar deslizando entre cidades enterradas a recordar vestígios de paisagens como trombetas de ruído e sal em caminhos de água e de memória Yaffa o teu sexo de repouso límpido ao som da flauta do tof e dos figos"
Um livro que estava na lista para ler já há alguns anos. Um típico registo do non-sense dos anos 60/70, com alguns textos algo datados, o que não facilita a sua leitura a leitores mais jovens. Algumas pérolas literárias e outros nem tanto, mas para mim estes textos vão estar sempre ligados à sua dramatização televisiva pelo actor Mário Viegas. De qualquer forma, estou curioso para ler "Os novos contos de Gin-Tonic".
Tę książkę od bardzo dawna miałam na liście do przeczytania, ale wciąż czekałam, aż mój portugalski będzie dość dobry. Jedno z opowiadań w końcu przeczytałam po portugalsku i planowałam kolejne, ale w sukurs przyszło mi Wydawnictwo Lokator i grupa tłumaczek i tłumaczy, którzy wraz z Wojciechem Charchalisem ułatwili mi lekturę.
Opowiadania przy ginie z tonikiem to klasyka literatury portugalskiej, Mário-Henrique Leiria to najsłynniejszy bodajże przedstawiciel portugalskiego surrealizmu i to od razu w dwóch dziedzinach - literaturze i malarstwie. Portugalczyk jednak musiał opuścić swój kraj, ponieważ reżim Salazara nie tolerował takiego rodzaju sztuki, a swoje opowiadania opublikował dopiero po powrocie z Brazylii i upadku dyktatury.
Após várias sugestões da minha ex professora de literatura portuguesa, neste novo ano letivo decidi pegar nestes contos. Logo no primeiro conto notei referências políticas, sociais, etc. não esquecendo que o autor viveu num período conturbado em Portugal. Mário-Henrique Leiria é capaz de tornar vários assuntos em humor. Em um dos seus contos caricaturiza a comunhão (religiosa) de um modo, não só interessantíssimo mas também de um modo ridículo e humorístico. O leitor é capaz de se sentir confuso aquando a leitura de alguns contos, ou pelo menos, eu senti isso... Mas é exatamente essa confusão e mistério em cada conto que captou-me a atenção. Como tal, recomendo este livro a todos os interessados em pensarem, rirem e "viver" cada conto ao máximo.
"Noivado Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura. - És tu Ernesto, meu amor? Não era. Era o Bernardo. Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes. É o que faz a miopia."
Os contos, apesar das muralhas de polpa de madeira a distanciar um do próximo, é bem conetado entre si, tendo estendais por onde se penduram trapos e às vezes longos casacos de literatura amarrotada e às vezes abandonados à chuva. O maior estendal (ou o que está mais à mão na varanda) é a bebida! havendo um jogo bem engraçado entre cognac, gin tonic e gin tonic sem tónica. O surrealismo é curioso sendo que as partes mais surrealistas foram aquelas com que mais me relacionei, e as mais realistas foram as que mais voaram na minha cabeça. Dito isto, valeu a pena estender a roupa.
[this is a Portuguese book so I'll just write the review in Portuguese] Fiquei a conhecer este livro a partir de um amigo e desconhecia totalmente o autor. Não é o meu tipo de leitura usual, mas confesso que gostei imenso de alguns contos que, ao ler, consegui visualizar muito bem e desde então não param de passar na minha cabeça. Por outro lado, vários outras histórias e textos deste livro deixaram-me bastante confusa ou perdida e sinto que precisava de uma pequena aula de história para compreender melhor o contexto em que foram escritos. Este aspeto tornou a minha leitura algo lenta, pois apesar de curtos, um ou dois textos eram suficientes para me deixar a desejar uma pausa. Em suma, é um bom livro, mas é preciso paciência para o levar até ao fim.
Um dos contos . Todos com imenso sentido de humor “ TORAH” “Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima, acenou a Moisés. Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente. Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira se não estou em erro. No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei. Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera: - Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já. Alguns foram. Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico. Depois disso, é o que se vê.”
Esta edição foi comemorativa do centenário do nascimento de Mario-Henrique Leiria, e dos 50 anos da primeira edição deste livro. Contos/textos assumidamente da série B, são as vezes desconcertantes. Não percebi todos… algumas histórias deixaram-me perdida e sem vontade de reler para perceber. Alguns textos foram lidos em voz alta, partilhados, e ainda trouxeram algumas gargalhadas. Estávamos em 73, à beira de uma revolução, com a necessidade ainda de usar as entrelinhas, e por isso é uma escrita datada. Ou pelo menos foi assim que a senti. A edição é bonita! Com páginas azuis (o que não deixa de ser uma escolha interessante tendo em conta o contexto histórico da primeira edição.
O texto ácido e irônico de Leiria continua atual. O que pode ser considerado triste, pois 50 anos depois, os absurdos políticos e governamentais permanecem em sua essência, seja qual for o lugar do mundo. Mas o interessante da miscelânea do apreciador de gim-tônica (todos os personagens dos contos curtos bebem a bebida) é o surreal no enredo e a rapidez da escrita, seja nos contos ou nas poesias. Um escritor que desconhecia e que passa ser referência da literatura do além-mar.
no, but now for real, this wasn't a bad book, it was just a bit outdated and I don't particurally love short stories.
I read this for scholl and the beggining of the book almost put me on a reading slump and I just wanted to finish this to be able to read four books this month, but, i really enjoyed the second half! overall a three stars, laughed out loud at some short stories.
Este livro teve em mim um grande impacto. Desde o momento em que abri este livro tive contacto com o surrealismo, uma forma de pensamento que arrasa as expectativas mais básicas que temos e desafia, por vezes literalmente perigosamente - foi publicado durante o Estado Novo-, o cenário vigente. Mário-Henrique Leiria foi um grande autor, sem dúvida.
Acabei de ler este livro já há uns dias. Faz parte duma coleção com título "Obras Completas", mas só quero ler esta parte porque ouvi falar dele na série 1986. Curti os contos surrealistas sobretudo, e depois fiquei com vontade de ler mais. Se calhar a coleção não vai descansar no estante durante muito tempo!
Ter lido na íntegra este livro foi uma benção e um relembrar de uma época que pensava que já tinha passado, mas tendo lido agora o livro todo, acabo por perceber a sua atualidade. Um livro para pensar, rir e remoer. Muito bom.
In my opinion, this book is a mix of poetry, short stories, complete narratives, modernism, and surrealism, embodying what a surrealist work should be. It offers many short stories that feel perfect for reading in a bar or while drinking. Since I don’t usually drink, I can’t give it 5 stars.