Hoje, depois de décadas de pesquisas científicas e questionamentos à indústria do fast-food, sabemos que os alimentos ultraprocessados são grandes promotores de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e hipertensão, além de contribuírem para a destruição da natureza, já que se apoiam sobre monoculturas de commodities como soja, trigo, milho e cana-de-açúcar. Também sabemos que a comida de panela feita em casa com ingredientes frescos ou minimamente processados é a melhor opção para nutrir o corpo, fortalecer as culturas regionais e respeitar o meio ambiente. Mas, como questiona Bela Gil em seu novo livro, quem vai fazer essa comida? A partir da pergunta, a chef, apresentadora e ativista relaciona alimentação saudável, feminismo e trabalho doméstico, complexificando um debate ignorado pelos livros de receitas e programas de culinária. É a dona de casa, a mãe, a avó, a esposa, a empregada doméstica migrante, a mulher pobre e preta da periferia que continuará tendo que pilotar o fogão? E quem fará a comida dela, da família dela? Em Quem vai fazer essa comida?, Bela Gil critica a histórica desvalorização do ato de cozinhar, com raízes escravocratas, e reivindica o pagamento de salários para o trabalho doméstico, tema da obra de pensadoras como Silvia Federici. “Será que é certo que, para alguns poucos terem comida fresca e serem saudáveis e livres para correr atrás de seus sonhos, outros muitos tenham que se contentar com produtos ultraprocessados, que fazem mal ao corpo e ao planeta — isso quando não passam fome?”
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Não basta apenas focar as receitas e os ingredientes; o conhecimento tradicional e científico já demonstrou à exaustão o tipo de alimento que faz bem e o tipo de alimento que faz mal à saúde. Portanto, é hora de voltar os olhos a quem faz a comida — e garantir que toda a sociedade possa trabalhar em prol de melhores condições para que escolhas saudáveis à mesa sejam não apenas um ideal, mas uma realidade acessível ao conjunto da população. Eis o objetivo deste livro. […] Em Quem vai fazer essa comida?, procurei abordar uma série de assuntos complexos e interligados que estão na raiz das desigualdades alimentares enfrentadas pelos brasileiros — e que são a expressão mais triste de nossas imensas disparidades sociais. Não podemos mais tolerar um país onde haja gente com fome. Isso é degradante e ultrajante. Da mesma maneira, não podemos aceitar que essa fome seja supostamente combatida com alimentos ultraprocessados que adoecem o corpo, a mente e o planeta. Espero que este livro contribua para introduzir publicamente uma discussão que nos conduza à uma sociedade composta por cidadãos bem alimentados e saudáveis, e que só assim poderão ser agentes da própria história.
O livro tem uma linguagem super acessível e consegue relacionar vários aspectos e pessoas envolvidas no processo do "quem vai fazer essa comida". Com muitas fontes e referências, um trabalho bem feito.
Extremamente necessário para todos os brasileiros, que se atropelam na rotina e esquecem do que nos mantém vivos. Bela Gil aborda de uma forma simples cada processo que permite nossa alimentação diária.
Sobre a mão invisivel da sociedade, aque a que cozinha, que cuida, que cria, no fundo, a mao da mulher. Falando em mais detalhe na realidade brasileira, não deixa de ser uma boa reflexão sobre como vivemos nesta sociedade que diminui o trabalho doméstico. Sem esquecer o advento da comida ultraprocessada, de fácil acesso em contraste com o encarecimento da alimentação mais nutritiva. Tudo suportado por várias referências bibliografias. Interessante, e lê-se muito bem
Gostei bastante! Ouvi o audiobook pelo app da biblion e me surpreendi pela qualidade do texto... imaginei que o livro retomaria a todo tempo a questão nutrição e teria pouco alcance, por isso. Mas, não. É denso, informativo, reflexivo - desenvolve muito bem a tese que propõe.
Aprendi muito sobre a influência da política fiscal brasileira nos nossos hábitos alimentares e na nossa saúde. Sobre a propaganda dos industrializados aliada ao discurso misógino que associa a ideia de "boas mulheres" a de consumidoras de produtos nocivos, que por muito tempo foram apresentados como saudáveis. Refleti sobre as dinâmicas atreladas ao preparo dos alimentos de panela, em casa, e na carga subjetiva que as mulheres da minha família suportaram, por isso. Tive vontade de reler Federici e disposição para repensar a minha relação com a alimentação, que não deixa de ser uma maneira de repensar como me relaciono com os outros. O tempo, o cuidado e o corpo... fiquei pensando nisso.