Com sua rara habilidade de trazer até o presente o sentimento vivo do passado, Ana Miranda, que já recriou no premiado Boca do Inferno as aventuras do inquieto Gregório de Matos na Bahia do século XVII, debruça-se neste livro sobre a vida e a obra de Augusto dos Anjos (1884-1914), o poeta que surpreendeu nosso mundo literário ao misturar a objetividade do cientificismo com os mais profundos sentimentos do ser humano. Lastreada por uma ampla pesquisa histórica, a autora não só dá corpo poético às inquietações metafísicas que consumiam o jovem poeta, como traça um quadro impecável dos costumes e principais acontecimentos da época: os descaminhos da República, as disputas políticas, a Revolta da Chibata, a modernização do Rio de Janeiro, o duelo entre Olavo Bilac e Raul Pompéia, a onipresente influência francesa, etc. O resultado é um panorama vivo de um dos momentos mais fascinantes de nossa história recente, numa obra literária instigante e memorável.
Voltada para a linguagem, dotada de um brasilianismo intenso, Ana Miranda realiza um trabalho de redescoberta e valorização do nosso tesouro literário, que a leva a dialogar com obras e autores de nossa literatura, numa época em que as culturas delicadas são ameaçadas pela força de uma cultura universal. Fundada em séria e vasta pesquisa, recria épocas e situações que se referem à história literária brasileira, mas, primordialmente, dá vida a linguagens perdidas no tempo. Sua obra tem sido matéria de estudos na área acadêmica, recebendo teses e monografias, geralmente ligadas a questões de literatura & história, barroco brasileiro, romantismo, ou pós-modernidade. Recebeu alguns prêmios, como Jabutis e da Academia Brasileira de Letras; teve sua obra traduzida em cerca de vinte países, e conquistou expressivo número de leitores, no Brasil. Ana Miranda consagrou-se igualmente pela inclusão de seu Boca do Inferno no cânon dos cem maiores romances em língua portuguesa do século 20, elaborado por estudiosos da literatura, brasileiros e portugueses (O Globo, 5/set/98). Seus principais romances são: Boca do Inferno, 1989; A última quimera, 1995; Desmundo, 1996; Amrik, 1998; Dias & Dias, 2002; Yuxin, 2009. Todos editados pela Companhia das Letras. Nasceu no Ceará, em 1951, onde vive atualmente, após cinquenta anos entre Rio, Brasília e São Paulo.
Esse é o famoso livro de vestibular que só fui ler anos depois de ter me formado na faculdade. Hoje, 5 anos depois do período onde "deveria" ter lido A Ultima Quimera, fico triste por não ter feito naquela época. A narrativa é cadenciada, com um ritmo gostoso de leitura; quando menos se espera, se leu uma quantidade enorme de capítulos e o tempo não pareceu passar, quem sabe pela boa diagramação do livro, ou quem sabe pela escolha gostosa de palavras. A história se propõe a falar sobre Augusto dos Anjos, sobre sua obra e sua vida, mas no final acaba se tornando um ensaio sobre o luto e as memórias que ficam após a morte de entes queridos. O protagonista auxilia bastante nessa construção de um eu separado e ao mesmo tempo indissociável dessa vida que não existe mais, com o desconforto social que uma perda causa, eternamente preso no limbo de quem sabe que a morte chega um dia mas nunca sabe como reagir a ela (esse detalhe foi o ponto alto do livro para mim). Enfim, a ambientação junto aos movimentos literários brasileiros no início do século XX parece ser trabalhada de forma mais secundária durante a narrativa, contudo, fica bem explícito a escolha da UFPR de cobrar durante anos como literatura base para a 1ªfase.
Adorei. Gosto muito desses romances históricos de Ana Miranda. Aprendo muito com eles. e tenho sorte. Eu e ela gostamos dos mesmos autores. Nesse, ela estava particularmente inspirada.
Confesso que desconhecia a biografia de Augusto dos Anjos. Pena que tenha morrido cedo. Tinha conteúdo pra nos trazer muitas outras obras.