Em 'Por que virei à direita', três intelectuais explicam os motivos de sua adesão ao pensamento conservador. O jornalista João Pereira Coutinho, o filósofo Luiz Felipe Pondé e o analista político Denis Rosenfield expõem em detalhes as razões que os levaram a recusar os princípios políticos da esquerda. Coutinho discute os riscos das utopias propagadas pelas esquerdas. Para Pondé, o pensamento progressista tem uma falha essencial - ignora aquilo que é próprio ao ser humano. Rosenfield analisa a 'te-leologia da esquerda', que vê o Estado como encarnação máxima da moral.
JOÃO PEREIRA COUTINHO nasceu no Porto, a 1 de Junho de 1976. Licenciou-se em História, na variante de História da Arte, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Doutorou-se em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, onde também ensina no Instituto de Estudos Políticos. Foi ainda Academic Visitor do St. Antony’s College da Universidade de Oxford.
É colunista da revista Sábado (desde 2017), do Correio da Manhã (desde 2009) e do diário brasileiro Folha de S. Paulo (desde 2005). Foi colunista dos semanários Expresso (2004-2008) e O Independente (1998-2003) bem como comentador da TVI-24 nos programas "25ª Hora" e "A Torto e a Direito". Em 2002, juntamente com Pedro Mexia e Pedro Lomba, fundou o pioneiro blogue A Coluna Infame.
Mesmo que houvesse apenas bobagens escritas dentro deste livro, só por seu título já valeria a pena comprá-lo para exibi-lo – orgulhosa, rabugenta ou subversivamente – na estante principal de casa. Por Que Virei À Direita são os depoimentos de três intelectuais brasileiros sobre as razões que os levaram a optar pelo conservadorismo político depois de terem paquerado, namorado ou até tido um caso com as utopias revolucionárias de esquerda.
A tônica do livro é que se deve, em algum momento da vida, fazer a opção pelo bom, ao invés de pelo ótimo, que é inimigo daquele, além de ser, ele próprio, irrealizável. Partindo de duas constatações, que o ser humano é falho e que a vida é regida pelo acaso, os autores tecem, em prosa fluente, articulada, lúcida e deliciosamente mau-humorada (ou timidamente bem-humorada), argumentos que mostram por que valores associados à direita – em suma, a aceitação do capitalismo – possuem mais chances de dar às pessoas autossuficiência para serem felizes do que os ideais associados às utopias e políticas de esquerda.
O depoimento de João Pereira Coutinho (1976), o autor mais novo da tropa, jornalista e cientista político com carreira em Portugal, é o texto mais didático, em tom de ensaio. Contrapondo dois conceitos de Michael Oakeshott (filósofo e cientista político inglês falecido em 1990), a “política da fé” e a “política do ceticismo”, João Pereira mostra como o pensamento de direita é a afirmação da realidade e do comprometimento com a realidade, ao passo que o pensamento de esquerda é o comprometimento com um paraíso que, convenhamos, depois de milênios de história, está claro que não será alcançado na Terra. É preciso salientar que João Pereira não se diz conservador para todas as áreas da vida, mas apenas conservador no que tange à política. Ele se denomina um cético e um pluralista e alerta que utopias surgem também à direita, talvez ainda mais perniciosas que à esquerda. O texto de João Pereira é aquele que você lê para ter argumentos que o deixarão com orgulho de ter feito a opção pelo que é real, por olhar o mundo com maturidade.
Acabei de ler este livro e ainda não conversei com o amigo conservador que o indicou para entender o que ele imaginava que eu ia apreender com o livro. O livro tem uma introdução interessante, o texto do Coutinho, é bastante bom para entender as motivações dos apoiadores da "direita". Os outros dois textos para mim são superficiais e cheios de preconceito, ao apontar bravamente que as esquerdas valorizam o coletivo, mas até aqui, nos momentos em que estiveram no poder, apenas um grupo de pessoas seleto tomava as decisões, o que eu concordo, mas que também é verdade para qualquer governo "democrático" de direita, ou seja, ficam num lugar meio vazio. É claro que, para a esquerda, é um objetivo real a coletividade e a participação, então quando ela não consegue lidar com isso estando no poder, a cobrança deve ser maior. Mas de novo a esquerda ainda teve muito poucas oportunidades na nossa história do mundo de estar no poder e descobrir caminhos para manter a participação coletiva sem estabelecer uma ditadura da maioria ou do seleto grupo que alcançou o poder. Sobre as aspas democráticas um bom livro é o Poliarquia do Robert Dahl, que mostra como a democracia ainda está longe de ser alcançada em todos os países, ainda que alguns sejam mais democráticos do que outros. Agora falando do bom texto do Coutinho, há pelo menos dois pontos lá que me interessaram muito e que valem a pena a reflexão e a leitura. Um deles um pouco óbvio por quem acompanha discussões políticas: de que esquerda ou direita estamos falando? Dá pra chamar de esquerda os governos federais recentes do PT? A direita atual de Bolsonaro é algo a ser perseguido? Mas muitas características das correntes liberal, conservadora e progressista são racionais (e já voltamos nisso) e deveriam ser instituídas por qualquer Estado. Por outro lado, o básico do que é a esquerda não deve ser aberto mão: "inclusão social e erradicação da miséria"; "a luta pela igualdade de direitos e condições"; "a solidariedade às minorias e desfavorecidos", pontos que o conservadorismo e especialmente o liberalismo não tem objetivo de atacar: "libertando os indivíduos para que persigam seus fins de vida por sua conta e risco". Agora o ponto mais importante para mim foi ser apresentado ao pensamento de Michael Oaekeshott e sua reflexão sobre a política da fé (mais associada com as esquerdas) e a política do ceticismo (associada às direitas). Do modo como chegou em mim, me pareceu que cada direita ou esquerda pode se apoiar mais ou menos em cada uma destas políticas, mas Coutinho prefere a direita por seu pragmatismo ao lidar com aquilo que realmente o Estado pode alcançar, ao invés do romantismo da esquerda, que tem aspirações ilusórias, impossíveis de serem realizadas. Claro que tem uma esquerda assim, na qual não acredito, claro que existe a direita imaginada por Coutinho, mas ela é insuficiente pro meu idealismo. Ãcho que o Brasil mesmo é um exemplo de país que poderia investir muito mais dinheiro em educação e descentralizar a administração das escolas para as comunidades. E isso é planejável e factível, se discutíssemos menos a "política do quem" e mais a "política do como".
"Para uma pessoa, a noção de bem é beber um bom vinho, enquanto para outra, consiste em poder amar, não havendo nenhuma instância superior capaz de dizer qual das duas é melhor para todos. O Estado, para Hobbes, tem como uma função principal assegurar a vida de seus membros e a validade dos contratos entre eles; não é de sua competência ditar os comportamentos individuais, nem dizer o que cada um deve moralmente fazer. As noções de bem são estritamente individuais, e o Estado não é uma instância moral." - Rosenfield
Um bálsamo pra mente! É bom, pra variar, ouvir algumas verdades que não se ouve nunca no miolinho intelectual brasileiro "do bem". Tive que ler meio "na moita", pra não correr o risco de ser apedrejada pelos meus pares. Mas valeu a pena.
O texto do Coutinho é bastante didático; o Pondé faz as costumeiras bravatas (algumas são exageradas e simplistas, mas eu me divirto demais lendo) e o Rosenfield lança uns comentários mais pragmáticos tendo em mente a política brasileira. Recomendo, mas só pra quem está de coração aberto.
Coutinho, Pondé e Rosenfield tem em comum o fato de serem intelectuais de lingua portuguesa. Além disso, dividem o fardo de não serem de esquerda, o que automaticamente os colocam como de direita, considerando a direita sempre como um bloco único. É engraçado, a esquerda sempre tem uma infinidade de divisões, mas a esquerda é sempre única! Vai entender!
Outra coisa em comum entre eles, é que todos foram de esquerda em algum momento da vida, e terminaram por virar a direita, pelos mais variados motivos; o que implica que ir para a direita, se é que cabe ainda essa distinção, pode ser uma decisão racional e não um desvio moral como muita gente pensa.
Coutinho concentra seus argumentos em uma longa tradição de pensadores conservadores como Edmund Burke, Oakeshott, Raymond Aron. Para ele, ser de direita é uma condição natural do cepticismo e pluralismo de suas idéias mais básicas. Ele duvida que a razão humana possa ser capaz de levar o mundo para uma situação de perfeição e usa os termos propostos por Oakeshott para diferenciar a esquerda (política da fé, uma crença em um ideal de perfeição fruto do uso da razão) da direita (política do ceticismo, dúvida da capacidade do governo de solucionar os principais problemas humanos). O governo é visto como uma necessidade e não como uma fonte de solução, por isso deve ser resumido a um papel mínimo. O plurarismo é consequência de uma visão que diferencia valores primários, como a integridade da pessoa humana, de valores secundários.
Pondé vai mais a fundo no aspecto filosófico, recorrendo muitas vezes aos símbolos bíblicos para explicar a c0ndição humana, o que é surpreendente considerando que é um filósofo ateu. Independente da origem sagrada da Bíblia, considera que trata-se do livro que melhor captou a condicão do ser humano e por isso é de uma riqueza incomparável. O homem tem uma inveja natural de Deus, por seu potencial criador e imortalidade. Restata uma idéia de Burque em que a sociedade é uma comunidade de almas, reúne vivos, mortos e os que ainda não nasceram. A tradição é a comunicação dos mortos com os viventes. A democracia é uma tensão contínua entre liberdade e igualdade; considerando que os homens não são iguais, a busca de sua igualdade absoluta contraria a sua própria natureza. No certe do pensamento da esquerda está a fuga da responsabilidade moral do homem, a fuga de sua própria condição. Ser de direita é estar do lado da sociologia das virtudes e se opôr à ideologia da razão, como defendia Himmelfarb. A política moderna nada mais é do que um delírio da razão.
Finalmente Rosenfield mostra que sua guinada para a direita teve sua origem na aplicação prática do pensamento da esquerda, particularmente na experiência que teve ao acompanhar o orçamento participativo implantado pela prefeitura petista de Porto Alegre. O que viu foi, sob o argumento de participação direta da sociedade, um grupo reduzido de militantes reunindo-se para decidir o emprego dos recursos públicos como se fossem representantes da sociedade, e não os vereadores eleitos para este fim. As ligações do PT com o narcotráfego, a idolatria de Fidel Castro e Hugo Chávez, as práticas cada vez mais autoritárias dos petistas no poder, tudo isso contribuiu para mostrar a imensa distância do discurso com a prática. Não se pode nem dizer que é um fenômeno brasileiro, tendo em vista a atração dos intelectuais do mundo inteiro com os praticantes da violência como Stálin, Mao, Khomeini, Guevara, e tantos outros que mataram em nome de um ideal político.
Estes três intelectuais mostram nas poucos páginas do livro que existe uma fundamentação racional pela opção de estar a esquerda do debate político. Não se trata simplesmente de uma queda moral, ou um desvio de caráter. O pensamento de direita tem princípios e podem ser defendidos em qualquer debate, mesmo que muitas vezes não tenha o apelo emocional que muitos argumentos da esquerda possui. Como disse Coutinho, ser de esquerda é tentador e muito mais fácil. O problema é a tal realidade.