O romance é construído a partir de uma montagem insana de capítulos minúsculos que se parecem com trechos de fait divers, notícias de jornal e fragmentos de algum romance ou novela incompleta, para não falar dos momentos em que onomatopéias e diálogos que parecem saídos de histórias em quadrinhos ou roteiros de romance ocupam as páginas, além de desenhos, pedaços que parecem panfletos ou papéis colhidos nas ruas, escritos em muros ou paredes de banheiros públicos, desenhos primários e toda uma variedade de escrita chula, vulgar, pouco desenvolvida, urbana, uma linguagem que às vezes pertence mais ao mundo televisivo do que ao mundo da alta literatura ou da literatura de nicho.
Os personagens são tão genéricos que definem e vagam no livro como arquétipos de miseráveis urbanos, membros das classes baixas. Rosa, José, Átila, Gê, todas elas figuras que parecem feitas do mesmo material que personagens de desenho animado, com corpos plásticos, dispostos a tudo sofrer e mesmo assim se reestabelecer na página seguinte.
Definições como realismo mágico ou fantástico não cabem muito bem aqui, embora realismo também não seja uma definição apropriada. A linguagem do cinema e do desenho animado, como já dissemos, infesta as páginas, situações absurdas acontecem, não há nenhuma expectativa de verossimilhança, e ainda assim a crueza das ruas de uma metrópole latino-americana parece fielmente transposta para o papel. Há um exoticismo desconfortável em alguns momentos, uma estereotipação das classes baixas, especialmente nos trechos em que Rosa vai para um terreiro de Camdomblé; há no geral um desprezo pelo pobre brasileiro que indica a existência de um autor em revolta. Ao mesmo tempo, o romance parece ter também um valor de investigação social, como se o romancista quisesse construir uma visão atualizada do que se tornou no Brasil da Ditadura Militar a classe operária, outrora o sujeiro revolucionário da História, que aqui parece totalmente aniquilado pela propaganda e pela publicidade.
José, o protagonista, arma um elo entre a subversão armada, os terroristas ligados ao grupo dos Comuns, e ao mesmo tempo a figura do marginal, ladrão, bandido, que nessa época já ocupava o imaginário da esquerda artística brasileira. A figura do terrorista é capaz então de preencher o espaço que vai desse ladrão de rua até esse outro possível herói da luta armada. Todos eles entram na definição dada pelo próprio governo.
Não quero dar a entender que Zero não é um romance valioso, mas é difícil resistir à apropriação inicial dele como um documento de época. É preciso no entanto ver o romance como mais do que isso. Lê-lo hoje nos parece com assistir um filme de Godard ou de algum outro membro da Nouvelle Vague dos anos 1960, interessado demais em capturar o presente, filmar o instante, o agora, a vida francesa no pós-guerra. O que Ignácio Loyola de Brandão nos fornece é algo parecido na linguagem do romance de ficção, uma tentativa de identificação de linhas de força e elementos presentes na realidade brasileira da segunda metade do século XX a partir do exagero, do cômico, do escatológico. A linguagem corroída e sem muitos rebuscamentos aponta para um mundo de miséria, de analfabetismo funcional, sem abertura para pensamentos muito abstratos ou complexos.
O processo composicional do livro e a sua publicação são uma história à parte, burlando a censura e as restrições editoriais brasileiras. O romance foi montado durante nove anos pelo autor, que colhia matérias censuradas de jornais em que trabalhara. Um romance realmente monstruoso, uma literatura que nasce de documentos achados na latrina do tempo.