O novo livro de poemas de Fabrício Corsaletti, Esquimó , reúne poemas escritos entre 2006 e 2009. Aos trinta anos de idade, Corsaletti é indiscutivelmente uma das mais importantes vozes poéticas contemporâneas do Brasil. Esquimó confirma a qualidade e o vigor dessa poesia tão vibrante quanto delicada - uma poesia que consegue ser ao mesmo tempo desaforada e muito suave.
São sessenta poemas - alguns bem curtos - que se articulam e conversam entre si, de modo a não prescindir uns dos outros. Essa articulação - sintática, rítmica e de sentido - imprime um movimento muito especial à leitura, já que a sucessão dos poemas introduz ressonâncias que promovem uma espécie de releitura, na memória, dos poemas já lidos; releitura retrospectiva que cria, por sua vez, uma acuidade especial para os poemas que ainda vêm.
Dois tons se conjugam em Esquimó (duas vertentes que o poeta chama, brincando, de "poemas vazios" e "poemas bizarros-humorísticos"), dispostos de forma a reforçar esse jogo que tonifica os poemas e sua leitura. Paralelamente a eles, numa espécie de baixo contínuo, estão (claro, é Corsaletti) os poemas de amor.
Leitura engajadora, a que o leitor se rende com surpresa e envolvimento crescentes.
Nasceu em Santo Anastácio, no Oeste Paulista, em 1978, e desde 1997 vive em São Paulo. Formou- se em Letras pela USP e em 2007 publicou, pela Companhia das Letras, o volume Estudos para o seu corpo, que reúne seus quatro primeiros livros de poesia: Movediço (Labortexto, 2001), O sobrevivente (Hedra, 2003) e os então inéditos História das demolições e Estudos para o seu corpo. Também é autor dos contos de King Kong e cervejas (Companhia das Letras, 2008), da novela Golpe de ar (Editora 34, 2009), dos poemas de Esquimó (Companhia das Letras, 2010, prêmio Bravo!) e Quadras paulistanas (Companhia das Letras, 2013), das crônicas de Ela me dá capim e eu zurro (Editora 34, 2014), além dos livros infantis Zoo (Hedra, 2005), Zoo zureta (Companhia das Letrinhas, 2010) e Zoo zoado (Companhia das Letrinhas, 2014). Com Alberto Martins escreveu Caderno americano (Luna Parque, 2016), que reúne poemas em prosa dos dois autores sobre a América Latina, e com Samuel Titan Jr. traduziu 20 poemas para ler no bonde, do argentino Oliverio Girondo (Editora 34, 2014). Desde 2010 é colunista da revista sãopaulo, do jornal Folha de S.Paulo, onde publica quinzenalmente crônicas e poemas.
Seu nome se eu tivesse um bar ele teria o seu nome se eu tivesse um barco ele teria o seu nome se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome minha cadela imaginária tem o seu nome se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome se eu morrer velhinho no suspiro final balbuciarei o seu nome se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome a primeira garota que beijei tinha o seu nome na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome antes de você tive três namoradas com o seu nome na rua há mulheres que parecem ter o seu nome na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome às vezes as nuvens quase formam o seu nome olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome se eu fosse um travesti usaria o seu nome se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome minha senha do banco é uma variação do seu nome se eu tiver uma filha ela terá o seu nome minha senha do e-mail já foi o seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome quando fico bêbado falo muito o seu nome quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome é difícil falar de você sem mencionar o seu nome uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome coelho tinha o seu nome xícara tinha o seu nome teleférico tinha o seu nome no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome? algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome cabala é uma palavra linda mas não chega aos pés do seu nome seu nome não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome no cabo da minha bengala gravarei o seu nome não posso ser niilista enquanto existir o seu nome não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome quando a poesia é boa é como o seu nome quando a poesia é ruim tem algo do seu nome estou cansado da vida mas isso não tem nada a ver com o seu nome estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu talvez eu não seja um poeta à altura do seu nome por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome
A impressão que fica é que Fabrício tinha um poema realmente poderoso, e refiro-me, claro, a “Seu Nome”, difundido na interpretação de Gregório Duvivier, e precisou de outros poemas apenas para “preencher” o livro. O resultado é praticamente uma colagem de rascunhos apressados, de uma inconsistência gritante. A tentativa de manter um tom de verso livre e despojado acaba soando pueril, rasa, sem substância. As duas estrelas ficam por conta do que realmente importa, aquele único poema luminoso, um lampejo de verdadeira lucidez no meio dessa confusão.
Este livro definitivamente não me alcançou. Há alguns poemas que me pareceriam interessantes como exercícios criativo/de estilo, mas daí para colocá-los em um livro me pareceu um passo ousado que não sei se eu daria. Minha sensação é a de que eu poderia destacar e guardar dois ou três poemas do livro e, de resto, não precisaria mais do livro.