Apesar de ter publicado apenas 33 contos em vida, Murilo Rubião é considerado um dos grandes escritores brasileiros do século XX. Tal como Jorge Luis Borges, o mineiro de Silvestre Ferraz (atual Carmo de Minas) não escreveu um único romance sequer. Todavia, sua obra, por mais enxuta que seja, é extremamente relevante, já que o autor caminhou na contramão da tradição literária local e se aventurou em uma espécie de realismo mágico à brasileira. Muito popular na América Latina, esta corrente literária não teve o mesmo sucesso e adeptos no Brasil, onde se privilegiou uma temática mais regionalista.
Rubião foi um autor marginal à sua época e, apesar dos pesares, seus contos conseguiram sobreviver ao crivo do tempo. Mesmo sem ter sido influenciado diretamente por Kafka, podemos perceber enormes semelhanças na obra de ambos os escritores e isto fica bem claro em contos como “O ex-mágico da Taberna Minhota”, “Teleco, o coelhinho”, “O edifício”, “O homem do boné cinzento” entre outros, em que o cotidiano opressor e surreal é aceito como normal pelos protagonistas.
Como em qualquer antologia de contos, encontramos textos desiguais neste livro, ainda mais por se tratar de uma reunião de toda a produção literária do escritor. Os contos presentes em “Obra Completa” foram desenvolvidos ao longo dos 75 anos de vida de Murilo Rubião e, assim sendo, representam os seus diversos e numerosos momentos vivenciados na carreira intelectual.
Os contos que mais se aproximam do realismo mágico são a porção mais interessante e importante da prosa muriliana: situações absurdas, finais aparentemente inacabados e personagens entregues a uma vida repleta de incongruências. Apesar do caráter fantasioso, os textos de Rubião respeitam uma lógica interna produzindo uma sensação de verossimilhança muito bem orquestrada.
No entanto, uma boa parte dos contos do autor se afasta do universo das possibilidades absurdas e mais se parecem com prosas poéticas. São bem escritas, sem dúvidas, mas não me agradam como estórias em si. Em alguns casos há uma certa dificuldade de se compreender o que Murilo Rubião quer comunicar a seus leitores.
Se pararmos para pensar que um escritor, mesmo desconhecido do grande público, ainda é relevante no meio literário após mais de 30 anos de sua morte, devemos tirar nosso chapéu para ele. Qualidade literária não falta a este grande contista. Cabe a nós, leitores, não deixar que Rubião suma repentinamente da nossa história, assim como muitos de seus personagens o fizeram. Vida longa à obra do mestre mineiro!