Aqui o seu pai, este grande e admirável homem, diz-me que envidou todos os esforços para lhe dar uma boa educação católica. Mas que agora lê livros, que até escreve livros.
“Cheio de Vida” passa-se numa década em que as grávidas serviam uma bebida para si e outra para o marido, iam de cigarro na boca para a maternidade e era normal usarem o DDT como insecticida dentro de casa. Todo este enquadramento é já divertido para mim, mas é a vida familiar do escritor e guionista John Fante que se torna hilariante, tanto a estranhar a mulher grávida…
Agora as coisas haviam mudado. As suas camisas de noite eram especialmente complexas, com um grande buraco à frente pelo qual a protuberância espreitava, as suas cuecas eram sacas inenarráveis, os seus sapatos rasos adequavam-se exclusivamente a arrozais e as suas camisas pareciam tendas. Que homem conseguiria pegar nestas roupas, apertá-las contra a cara e estremecer com a paixão de sempre?
…como a conviver com os pais imigrantes, uns castiços que saíram da Itália sem que a Itália tenha saído deles.
Tinha aprendido muito naquela família, desde a infância, todo o conhecimento inestimável transmitido de geração em geração de antepassados de Abruzzo. Mas constatara que grande parte desse conhecimento era difícil de aplicar. Por exemplo, há anos que eu sabia que o modo de evitar as bruxas era usar um xaile com franjas, pois a bruxa que nos vinha atacar distraía-se a contar as franjas e não nos incomodava.
É enquanto conta os meses para ser pai e vai aturando com bonomia os caprichos de gestante de Joyce que o inesperado acontece: a casa acabada de comprar está infestada de térmitas e chamar o pai, que é trolha, é a solução mais económica para reparar o enorme buraco no chão da cozinha.
De volta à casa da sua infância, revê o pai que é o verdadeiro patriarca dominador e caprichoso com gosto pela pinga…
Tentei ajudá-lo a levantar-se do banco, mas ele repeliu-me.
- Não tenho casa, rapazes. Ninguém me quer.
- Vá lá, Papá. Vamos comprar-lhe vinho e depois vamos para casa e escrevemos a história.
- Uma garrafinha, talvez.
…e a mãe, que talvez seja a pessoa mais dramática à face da Terra.
A Mamã adorava desmaiar. Fazia-o com grande arte. Só precisava de uma deixa. A Mamã também adorava morrer. Uma ou duas vezes por ano, e em especial no Natal, chegavam telegramas a anunciar que a Mamã estava novamente a morrer.
Embora aprecie o tom de paródia desta obra, a determinado ponto tive pena do protagonista, que acaba por ser um capacho invertebrado nas mãos do pai, que facilmente se percebe que é um alcoólico manipulador, e da mulher que decide, com a criança prestes a nascer, converter-se ao catolicismo e convencer Fante a fazer o mesmo de uma maneira bastante passivo-agressiva. Se o livro é totalmente autobiográfico, fiquei com pena do autor; se é autoficção, creio que fez do seu protagonista um palhaço triste.