José Lins do Rego Cavalcanti (July 3, 1901 in Pilar Paraíba - September 12, 1957 in Rio de Janeiro) was a Brazilian novelist most known for his semi-autobiographical "sugarcane cycle." These novels were the basis of films that had distribution in the English speaking world.
Mergulhar neste "Água-Mãe" fez-me sentir bastantes vezes "fora de pé". Algumas temáticas deste livro são daquelas que me fazem abandonar ou nem sequer iniciar leituras, pelo que só me posso dar por muito feliz nada dele ter sabido à priori.
O autor conseguiu agarrar-me logo nas primeiras páginas ao descrever o cenário onde tudo se iria passar. Um local que senti como mágico: a Araruama com o seu mar, a sua lagoa e as suas gentes, bem como a "Casa Azul", a imponente e mística construção que olha sobre a lagoa, votada ao abandono por carregar a história de desgraças e maldições.
Com este pano de fundo, o autor leva-nos a conhecer o povo desta terra e a família Mafra, gente rica do Rio que veio restaurar e dar nova vida à misteriosa Casa Azul, afastando com as suas festas e alegria o diabo e as almas penadas que o povo acreditava serem os verdadeiros donos do lugar....
Primeiro livro que leio do escritor paraibano. Aparentemente, um dos poucos ou o único a não se passar no cenário nordestino.
Gostei bastante da forma como Lins do Rego conduz a narrativa. Usando um discurso livre indireto, desenvolve algo como um fluxo de consciência, alternando entre personagens de maneira leve. Algumas vezes, no entanto, senti um pouco pesada a repetição de alguns temas e conceitos. Talvez buscasse, o autor, acentuar o matutar de uma mesma ideia por parte dos personagens. Não sei. Soou-me um pouco repetitivo.
Esse, ademais, é um desses livros em que, no meio da narrativa, já deixa de importar o final. A história, ainda que seja envolvente, tenha um mistério interessante, um fator sobrenatural que cativa, não tem grandes reviravoltas. O final, além disso, é pouco interessante. O contexto em que a história se passa foi, para mim, um dos auges da narrativa. Esse início do século XX em Cabo Frio, ainda que Lins do Rego evite dar marcadores temporais claros. As dicas que temos são o ex-combatente do Contestado (conflito que se deu entre 1912 e 1916, se não me falha a memória) e uma menção ao ano "mil novecentos e poucos" (escritos assim) em alguma passagem mais para o final do romance.
Ainda sobre o contexto histórico, adorei a caracterização do "esprit du temps". Temos o já mencionado Contestado; a ascensão de uma burguesia nacional; o ingresso acelerado de ideias estrangeiras, cada vez mais americanas, no país; o crescimento do fascismo, especialmente retratado no personagem de Paulo Mafra, o incompreendido. Em menor escala, a vivência dos simples pescadores de camarão e da produção de sal na salina pelas famílias de classes baixa e média, respectivamente, mostram o maior contato desses núcleos com a Lagoa de Araruama, que está no centro da narrativa. Ou seja, mostram o enraizamento desses personagens ao seu contexto social e natural, diferente dos Mafra, que veem apenas o usufruto de veraneio da paisagem, a partir da Casa Azul.
Em um aspecto mais sociológico, mas ainda tentando pessoalizar mais essa resenha, apateceu-me muito a descrição da relação entre os núcleos de diferentes classes sociais. Essa relação mansa, pouco conflituosa, que marca o contato entre a classe média e a classe baixa, e me recorda meus tempos de infância, na casa da minha avó, no Rio. A relação entre as classes inferiores a alta burguesia dos Mafra, no entanto, tem maior distanciamento e preconceitos envolvidos. No entanto, o traço do "homem cordial" também é depreendido aqui, uma marca do Brasil de minha infância que parece não existir mais. Talvez para bem.
No todo, um ótimo livro, de agradabilíssima leitura. Recomendo.
A história se passa na Região dos Lagos fluminense e gira em torno da Casa Azul, temida pelo supersticioso povo local por ter sua história marcada por tragédias familiares. Nunca houve pessoa ligada a essa casa que tivesse tido um final feliz. Até que a rica família Mafra reforma, espanta os fantasmas e passa a dar vida ao lugar malfazejo. Gostaria de saber por que momento o autor estaria vivendo ao escrever esse livro. As últimas 150 páginas correspondem a um desfiar de tragédias sem igual, descritas de forma ininterrupta em parágrafos compactos que duram mais de uma página, não dá tempo nem de respirar e digerir uma desgraça e já vem a próxima, pior. Quem tem tendência à depressão ou ao suicídio deve passar longe.