Ferreira Fernandes e Nuno Saraiva, jornalista e desenhador desta série de BD, uma espécie de almas gémeas no método, mas sobretudo no gosto pela cidade de Lisboa, pelas histórias da cidade, e na vontade de contá-las.
Foi isso que os juntou, em 2020, em plena pandemia.
Começaram com o Benfica- numa daquelas tramas que o Ferreira Fernandes andava a contar a toda a gente, surpreendendo mesmo quem achava que conhecia Lisboa. E foram por aí fora, com a Júlia Florista, o Carlos do Carmo, a Madame Brouillard, a Caparica, o Santo António.
Na minha opinião, estas histórias não estão assim tão bem contadas... os textos são demasiado longos para este meio, mas o problema aqui nem é tanto a prolixidade, mas o facto de eu não ter compreendido de todo certos "balões". Exemplo: 《Escândalo e sucesso. Em Paris, os impressionistas foram comparados a uma tela pintada pelo rabo de um burro embebido de tintas ao acaso. Em Lisboa. 1925, Almada foi gozado pelo seu grupo de quatro sentados ao café (joke, na Gulbenkian).》 O que é "joke"? E os impresissionistas foram comparados, ou terão sido os quadros produzidos por eles? Outro exemplo: 《 Comeram bacalhau guisado e beberam Colares. Ainda hoje há uma foto do brinde exposta na sala do modesto restaurante [Primavera, no Bairro Alto]. A secretária e a diva [Josephine Baker], ao centro. Mas quem era a outra bela jovem? Monique Lemb, 18 anos, que ia para o Brasil. // O encontro delas foi acaso de viagem. Mas quando Monique se tornou rica mandou fazer um retrato seu, pelo mesmo Van Dongen que pintara a fugaz amiga [Josephine Baker]. A jovem francesa morreu carioca famosa, Lily Marinho, mulher de Roberto, magnata da rede Globo》. Aparentemente, Monique Lemb e Lily Marinho são uma e única pessoa... mas quem lê este texto desta forma fica um pouco confuso, ou terei sido apenas eu?
Enfim, aquilo que quero dizer é que os textos começaram a cansar-me um pouco. Achei-os confusos e pouco adequados para um meio que se pretende mais leve e imediato, como o é o da banda desenhada. Não defendo que os textos tenham de ser condescendentes e facilitistas... Mas penso que deveriam ter sido revistos e, de certa forma, adaptados à linguagem da banda desenhada.
No entanto, não quero ser injusto, até porque gostei bastante da ideia por detrás desta iniciativa: contar pequenas histórias da História de Lisboa e de figuras histórias ligadas à cidade. As 3 estrelas vão mais para a ideia subjacente ao livro do que propriamente à sua concretização. Espero sinceramente que haja mais volumes deste estilo (e até sobre curiosidades de outras cidades), mas espero igualmente que se posso melhorar a questão dos textos que já referi...
Este volume reúne uma série de histórias que foram publicadas no jornal digital e comunitário Mensagem de Lisboa. Com autoria de Ferreira Fernandes e Nuno Saraiva, estas histórias pegam em figuras icónicas e edifícios históricos para contar acontecimentos quase esquecidos, ou realçar episódios muito conhecidos. Algumas histórias são um retrato de Lisboa, como se a cidade fosse dotada de personalidade e vida, outras são tangenciais à cidade, usando-a como palco dos acontecimentos que relatam.
O traço é caricaturesco – típico de Nuno Saraiva e que pode ser observado na variedade da sua obra; casando com o espírito quase coscuvilheiro de alguns episódios que aqui se contam. A cor é usada com abundância, num estilo pouco realista em traço, mas bastante expressivo.
As histórias vão alternando em tom, formato e tipo de conteúdo, sendo que o volume abre com a história do clube SLB, e entitulando-se Na Estrada de Benfica. Esta primeira história expressa bem o tom do restante volume. Intercalam-se factos com curiosidades (como os detalhes das balizas da época), fala-se do clube de futebol e de casas emblemáticas, colocam-se fotos, desenhos de Nuno Saraiva e representações de jornais da época.
Entre os restantes textos encontramos Júlia Mendes e Júlia Florista, Peyroteo, o último carrasco de Lisboa, a ditadura pré 25 de Abril ou Santo António. Não parece existir uma fórmula, uma direcção ou um formato. Antes uma vontade de trazer à luz histórias antigas que parecem meio esquecidas. E ainda que seja um volume muito interessante de ler, é neste aglomerado que está o ponto fraco enquanto livro que reúne as histórias, faltando algum tipo de fio condutor entre as histórias – um trabalho de edição para criar alguma consistência.
Este “defeito” (algo que se percebe sabendo a forma original das histórias) é um dos únicos pontos negativos a apontar neste volume. É um livro engraçado e bem disposto, mas também de divulgação, que, debaixo da capa da caricatura, recupera uma memória imperdível.
Acho que este livro precisa de mais redação. Uma leitora no Goodreads queixou-se da falta de um fio condutor entre as histórias, mas para mim, às vezes, faltava um fio condutor entre as vinhetas individuais das crónicas! Achei alguns contos um pouco confusos.
Contos? Não quero dizer "bandas desenhadas"? À primeira vista os contos são bandas desenhadas mas não há balões de diálogo, apenas textos curtos que fazem parte da narração da anedota. O livro trata de uma série de histórias curtas sobre uma personagem ou um evento na história da cidade. Cada uma é ilustrada com um traço caricaturistico, mas não chega a ser uma banda desenhada.
Bem, não estou a resmungar, achei várias histórias na antologia interessantes; aprendi muito e até "roubei" umas ideias para fornecer conteúdos ao meu blogue! Havia personagens bem conhecidas como Carlos do Carmo e Santo António e mais algumas que eu pessoalmente não conhecia, como por exemplo as duas Júlias e Madame Brouillard, Mas o livro não se lê bem, o que é uma pena porque podia ser ainda melhor se os autores tivessem prestado mais atenção aos textos e feito algumas mudanças para reunir os fragmentos como um todo satisfatório.