Cheguei a este livro pelo conto "O Iniciado do Vento", depois de ter visto "O Menino e Vento" (Carlos Hugo Christensen, 1967), que conta a história de um engenheiro que retorna a um vilarejo mineiro para responder a acusações de "relações impróprias" com um menino desaparecido. Essa foi uma feliz porta de entrada para o trabalho de Aníbal Machado, que nunca tinha lido.
Nenhuma característica desta coletânea de treze contos marcou-me tanto quanto o espantoso domínio de Machado sobre a língua. Seu vocabulário é rico sem que seja rebuscado; cada frase vai cavar no português a expressão mais precisa e saborosa, resultando em um texto sólido sem que seja seco, com ritmo e poesia. À exceção dessa qualidade e de alguma comunhão entre os muitos temas em que o livro toca - as relações conjugais, o Brasil em desenvolvimento, o campo e a cidade, a inocência da infância, a maternidade, a nostalgia pela juventude, o desejo sexual, a pobreza, a sociedade como fonte de opressão etc. -, os contos são bem diferentes entre si.
Alguns beiram o kafkiano em seu realismo ou surrealismo pessimista. É o caso de "O Telegrama de Ataxerxes", em que um homem perde-se em devaneios burocráticos enquanto fantasia em chegar ao coração do poder na figura do Presidente da República; e, em alguma medida, também de "O Ascensorista", com seu protagonista alegremente preso a um trabalho alienante no meio de um arranha-céu, e de "O Desfile dos Chapéus", pela simbologia do chapéu como papel social. Outros apresentam uma perspectiva cínica e também pessimista sobre a moral, sobretudo das pequenas cidades, como é o caso de "O Defunto Inaugural", em que um fantasma observa o efeito que sua morte e enterro provocam sobre uma aldeia, e do excelente "Acontecimento em Vila Feliz".
Mas o melhor de Aníbal Machado no livro aparece em contos que assumem perspectivas femininas. "Acontecimento em Vila Feliz" ousa contar a história de um aborto (ou infanticídio) da perspectiva da mulher que não quer ter o bebê. Já "Tati, A Garota" desloca o ponto de vista da mãe para o da criança indesejada, e pinta um retrato comoventemente doce da infância, que começa já no primeiro parágrafo: "[v]endo que era mesmo impossível, Tati desistiu de pegar o raio de sol estendido no chão. Os dedos feriam a terra inutilmente: o reflexo não tinha espessura". Também é em "Tati (...)" que Machado ousa romper com o cinismo e dá às duas mulheres, mãe e filha, um final generosamente cândido.
O livro também tem alguns contos simplesmente chatos ("O Homem Alto"), com experimentos linguísticos mal-sucedidos ("Monólogo de Tuquinha Batista") e, em pelo menos um caso, terrivelmente racistas. É o que acontece em "A Morte da Porta-Estandarte". Se Aníbal Machado usa termos desumanizantes para falar das personagens negras no livro todo, é em "A Morte (...)" que o vocabulário passa a ser bestial. Não é possível salvar esse conto, que mancha toda a coletânea e a biografia do autor.
O último conto do livro, que aparece em seu apêndice, é "O Rato, o Guarda-Civil e o Transatlântico". Aqui, Machado permite-se um surrealismo mais lúdico e franco, cheio de frases saborosamente sardônicas, como as do seguinte parágrafo: "[à]quela hora dava-se na cidade um fenômeno térmico-social, tão comentado como os maiores escândalos. Era o calor, que se combate nas sorveterias, debaixo dos chuveiros, nas casas de chope; o calor de que se maldiz desejando-o voluptuosamente nas praias de banho; o calor que expõe o corpo das mulheres, multiplica os delitos carnais, e inspira idéias monstruosas aos imaginativos. O calor longe do giro unânime dos ventiladores, endoidecendo a população nas praças cheias de labaredas".
"A Morte da Porta-Estandarte, Tati, A Garota e outras histórias" é um testamento à nossa língua, ao conto e à produção literária do Brasil do meio do século passado. Gostei muito da leitura apesar dos sérios percalços.
Aníbal Machado merecia muito mais notoriedade. O escritor também foi um dos fundadores do Clube Atlético Mineiro e marcou o primeiro gol do time. Esse fato já o faz um personagem distinto da literatura brasileira. Seus contos então... Destaco os dois primeiros desse livro: "O Iniciado do Vento" que mudou minha percepção sobre o vento, e "Viagem aos Seios de Duília" (que conto lindo!!) que, eu sendo mineiro que mora longe de Minas, me pegou de um jeito que não teria palavras para descrever aqui.