Há uma história de amor, num tempo futuro após o fim do mundo, quando o amor ganhou sentidos novos ou deixou até de fazer sentido. Junto com o cinema, os museus e o próprio tempo. Há um famoso general do exército vermelho e uma velha que se lembra de tudo, do que importa e do que não importa. Três irmãs que carpem o destino dos homens e uma pequenina com ar de imperatriz. Há um cão mítico, e incontáveis pores-do-sol. Há até a bordo uma orquestra prussiana, que todas as tardes toca exactamente a mesma peça de Wagner. Segue tudo e todos juntos, num ajuntamento de opções flutuantes, uma espécie de arca. O que todos mais querem é chegar ao Brasil. Mas não sabemos se o Mundo não acaba entretanto.
Nasceu em Lisboa em 1982. É licenciada em Design de Comunicação pelas Belas-Artes de Lisboa e doutorada em Estudos Culturais pela European University Viadrina, na Alemanha. Em paralelo à criação literária, escreve para teatro, faz apoio dramatúrgico e dá aulas. Na editorial Caminho tem publicados três romances, dois livros de contos e um livro infanto-juvenil. O primeiro romance «Diálogos Para o Fim do Mundo» ganhou o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho 2009. «O Museu do Pensamento» foi considerado pela Sociedade Portuguesa de Autores o melhor livro Infanto-Juvenil de 2018; e o romance «Ecologia» foi finalista do prémio APE, PEN, DST, Casino da Póvoa e semifinalista do Prémio Oceanos 2019. Em teatro, começou por escrever para o Festival Teatro das Compras. A primeira peça longa, «Quarto Minguante», foi encenada por Álvaro Correia no Teatro Nacional D. Maria II em 2018. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Bolsa da DGLAB, com a qual escreveu «Corpo/Arena», que iria estrear em Itália, não tivesse a Covid19 cancelado tudo.
“Ao ler Diálogos Para o Fim do Mundo senti-me constantemente num filme de Wes Anderson, não só pela forma fragmentada como as coisas são contadas, mas também pelo imaginário visual e pelo humor que está subjacente à escrita de Joana Bértholo. É em muitas coisas um meta-livro, brinca com o próprio formato, com as notas de rodapé; é muito original na forma como cada capítulo é apresentado e estruturado.”
Nem sei bem o que dizer. Demasiado experimental para o meu gosto particular e sem enredo propriamente dito. Uma grande desilusão, depois de ter lido o "Ecologia". Mas, enfim, o problema pode estar em mim que gosto de uma boa história e se calhar não tenho massa cinzenta suficiente para apreciar esta.
Quase me sinto culpada por escrever assim que acabo de ler, porque tenho a certeza que não percebi tudo (ou quase nada).
É um livro com muita coisa. Frases bonitas, pensamentos bons, histórias que se cruzam (ou se calhar só se intervalam). Mas acima de tudo um livro tecnicamente espantoso.
Há um diálogo constante entre a história e as notas de rodapé, que faz quase sentir que a escritora nos acompanha na leitura, com didascálias que mais do que explicar o que se lê nos levam a pensar mais a fundo sobre o que está a acontecer.
No ponto alto da maravilha da construção ponho o diálogo que acaba por fazer entre as notas de rodapé, que torna num poema-que-não-é-poema, mas que também não pode ser outra coisa.
Meio surrealista, meio dadaísta, meio absurdo (talvez sem categoria possível). Mas completamente genial.
Fiz de propósito para demorar mais com este livro. Demora a entrar na escrita da autora, mas depois flui como se fosse minha. Foi daquelas narrativas em que tudo se passou na minha cabeça, com imagens vivas, sons e cheiros. Vi tudo como se fizesse parte e, talvez, faça. Maravilhoso, que todas as obras de arte não tivessem fim e ficassem a marinar nas suas vítimas.
Um livro de que gostei muito muito muito. Escrito em voluta, sempre a começar pelo fim e a acabar pelo princípio. Admirável o modo como a Autora concluiu a(s) história(s), mesmo quando não lhe(s) deu fim. Não há uma personagem supérflua. Foi magnífica esta viagem pela escrita de Joana Bértholo.
é um livro labiríntico, algo confuso, que se lê super rápido. compreendo perfeitamente quem acabe por não gostar deste tipo de leitura – temporalmente, é uma confusão, espacialmente nem tanto. mas tal já é comum nas obras da autora e eu pessoalmente adoro. para além de tudo isto, é das prosas mais poéticas e musicais que já li.
“houve algures na cronologia da terra, do ser, do estar, do pensar, do sentir, do suspirar, do enrolar cabelos em forma de tranças, um primeiro alguém que primeiro tocou outro alguém. ao de leve, com as pontinhas dos dedos. e na altura foi original, porque reproduzia um gesto que nunca tinha sido tocado. teve de existir um dia em que primeiro alguém improvisou um gesto tão estranho, tão incomum, tão inevitável, como o abraço. o primeiro abraço. o abraço original” :’)
Feliz reencontro com a escrita de Joana Bértholo, “Diálogos para o Fim do Mundo” volta a provar-nos não haver limites neste alinhar de palavras umas atrás das outras a que chamamos literatura. Bastam imaginação, talento e, como descobriremos, uma firme crença no diálogo, essa “suprema forma de alimento”. Com enorme inteligência e lucidez, a autora volta a tomar o leitor pela mão, levando-o num passeio entre a dor e a nostalgia, ao encontro das paisagens do fim do mundo que se abrem na lonjura dos caminhos ou se revelam por inteiro no interior das nossas próprias casas. É nelas que adivinhamos os traços de uma finitude instalada no momento em que o ar invade pela primeira vez os nossos pulmões, o acaso a vincar dobras e limites, “o futuro como agora mas mais à frente”.
“Existe fim no começo e começo no fim”, começa por nos dizer Joana Bértholo nesta história de uma família num país em guerra. Não uma família qualquer, a mãe e os filhos apenas, o pai no Brasil, uma nova criança que acaba de nascer. Não um país qualquer, antes o áspero e difícil Uzbequistão sob o domínio do império russo, um lugar onde a neve é mesmo neve, e o frio está mesmo frio, “onde a fé escasseia e os olhares de humanidade se tornam ao chão”. Não uma guerra qualquer, antes a Primeira Grande Guerra Mundial. Mas, afinal, “onde se mede a Guerra para se saber se ela é Grande?”
De uma extraordinária acutilância, a autora vai-nos confrontando com o tanto que julgamos saber sem sabermos tanto assim. Ela pede-nos que façamos uma pausa, ainda que breve, e atentemos num envelope que persevera na ponta de um pedestal, no mundo alinhado num índice a meio de um livro, num Mito que é apenas um cão, no Cinema como a última das Artes, no peso do Sol, num iceberg em rota de colisão com um navio. É aí, nas voltas do acaso, que nos reencontramos com aquilo que a vida nos tem reservado e que faz com que sejamos o que somos neste preciso momento. Tudo envolto numa prosa rica de imagens e de sons, as palavras como pontas soltas estrategicamente posicionadas, pedindo ao leitor que as relacione, que olhe para este mundo em queda livre e que o salve.
Diálogos para o Fim do Mundo é uma obra difícil de categorizar. É um livro de ficção, mas é, sobretudo, um livro de ideias. É um livro que questiona o mundo e que convida o leitor a participar nessa reflexão, sendo este, penso eu, um dos diálogos a que o título faz referência.
Um segundo diálogo que encontramos neste livro é potenciado pela intertextualidade. Joana Bértholo revela uma enorme capacidade de relacionar obras, formas de arte e temas que atravessam séculos de produção cultural e artística.
Há ainda um outro diálogo assente nas duas linhas narrativas exploradas pela autora: uma desenrola-se no passado, durante a I Guerra Mundial; outra passa-se num futuro após o fim do mundo e tem um carácter especulativo. Esta é, a meu ver, a parte do livro que merecia ser mais desenvolvida. A construção das personagens e dos universos em que se movem nunca ganhou a vida que eu esperava. Nunca me consegui abstrair do facto de as personagens existirem ao serviço dos diálogos que referi anteriormente e, portanto, serem meios para transmitir reflexões sobre o mundo e a humanidade, sobre a relação entre vida e arte. Assim, aquelas duas linhas narrativas, que podiam unificar o conjunto de reflexões propostas pela autora, acabaram por contribuir para o seu carácter fragmentário.
Ainda assim, encontrei neste livro passagens e capítulos muito bem conseguidos, que me obrigaram a parar e pensar e que colocam em evidência uma escritora cujo trabalho vale a pena seguir.
Provavelmente acabarei por dar as cinco estrelas. Cheguei ao fim de um livro que me levará ao início de outro… Bértholo é especialista em literatura experimental; as histórias não são claras; o fim sabe sempre a pouco; os tempos cronológicos são uma grande confusão. Contudo, nunca saio dos seus livros << vazia >>, aliás, não saio de todo. É um livro sobre cinema e cheio de fragmentos, pedacinhos que cabe ao leitor encaixar. É interativo e tão mas tão original. Tenho a certeza que reler isto será A experiência da minha vida.
O que não falta neste país são escritores com uma escrita muito própria. Vergílio, Saramago, Agustina, Valter Hugo Mãe. Basta passar os olhos um parágrafo para sabermos quem estamos a ler. Joana Bértholo entra para esse leque, mais pela forma do que pelo conteúdo, e por sentir sempre, lá pelo meio, que ela está a gozar com a minha cara. Anyway, dos três romances que li, este é o mais experimental. Não adorei, embora tenha passagens muito bem conseguidas.
“Primeiro estranha-se, depois entranha-se” escreveu ele, de resto citado duas ou três vezes neste romance de estreia de JB. Um texto que, por vezes, remete para Gonçalo M. Tavares (isto é um elogio!), uma alegoria desencantada aqui e ali assente em aforismos e referências diversas, redigido em desobediência ao AO90 (aleluia e olaré!). Mas, na verdade, desequilibrado, conduzido em sobressaltos desconfortáveis e aos encontrões dolorosos que “desfiguram” um projecto ambicioso e muitíssimo meritório. Três estrelas quase quatro e a recomendação de leitura que amplamente merece. Ah! e por estes dias, a referência à Ucrânia no cenário descrito é um presságio terrível (este romance foi publicado em 2010!)
Ler Joana Bértholo é uma garantia de uma experiência de leitura única a cada livro, não só pelo conteúdo mas também pela forma como esse conteúdo nos é oferecido. Este foi a terceira obra da autora que li e, sem dúvida, é o livro mais experimental, especialmente ao nível da forma - desde as notas de rodapé, à organização dos capítulos e do seu conteúdo.
Seguindo uma narrativa não linear, fragmentada e em duas linhas temporais, conhecemos por um lado, a família Kozak e a sua viagem enquanto refugiados de guerra, no presente, e, por outro lado, Michael e Nina, um casal num tempo futuro indeterminado. Enquanto acompanhamos as suas travessias, vamos dialogando com a autora sobre o mundo, a humanidade, a arte.
A história das personagens é um meio para transmitir ideias e não o fim do livro em si mesmo e, talvez por isso, tive mais dificuldade em entrar na história e relacionar-me com as personagens do que noutras obras da autora. Ainda assim, é uma obra com passagens muito bem construídas, muitas delas quase poéticas, que nos fazem parar e refletir na mensagem que a autora está a transmitir.
Acredito que é o tipo de obra que, revisitada, trará uma experiência nova - pelo menos, porque a forma já não se estranhará tanto. Não é um livro que vai agradar a qualquer pessoa e não recomendaria como ponto de entrada na obra da autora.
Deparei-me com este livro quando me deram a escolher de uma pilha de livros que ia ser doado à biblioteca. Reconheci o nome da autora de Ecologia, apesar de nunca ter lido nada dela, e fiquei com ele. Foi uma bela surpresa embora seja um livro muito complicado de definir.
Inicialmente encantou-me a forma, muito ao estilo de Zusak. Algumas constatações são mesmo brilhantes, geniais. E a sonoridade e a cor (vermelho) são poéticas.
O único senão, na minha opinião, foi a finalização. Confesso que gostaria de ter lido um fim mais fechado e concreto.
Este livro não é linear e portanto não recomendado a quem gosta de ler em linha reta, com principio meio e fim porque realmente "não sabemos se o Mundo não acaba entretanto."
Irei certamente ler mais livros da autora que prima pela originalidade.
A Joana escreve maravilhosamente e com uma sensibilidade rara, pelo que as 3 estrelas são apenas o reflexo da minha experiência num determinado tempo de leitura que talvez não tenha sido o melhor para este livro - verão, e praia, talvez não sejam o cenário ideal para esta leitura. Ainda assim, achei interessante a estrutura narrativa, a experiência do atemporal transmitida ao papel,os capítulos de colecção de certas estruturas narrativas, que o tornam um livro diferente de outros. A estrutura por si só já faz valer a pena a leitura.
"É concebível que alguém se apaixone em tempo de guerra?"
Já li mais dois da autora, que gostei, mas este não. Comecei e deixei, recomecei e deixei e voltei a recomeçar...
É demasiado confuso, está em todo o lado e em lado nenhum, acabei-o porque queria saber como é que se acaba um livro assim. Mesmo sendo um livro confuso, nota-se que a autora escreve muito bem.
"Passamos metade das nossas vidas à espera daqueles que iremos amar, e a outra metade a deixar aqueles que amamos."
Um livro que me surpreendeu. Não sabia como era o seu formato nem o tema, é um livro que parece uma “experiência”, uma tentativa mas apesar da estranheza gostei e li com afinco. Gostei mais de outros livros da autora. Este tem uma parte final em que a autora explica como toda a escrita se desenrolou, achei muito interessante essa parte.
A Joana aqui é uma autêntica artesã das palavras. é um jogo de palavras pensado a cada página. Esta engenharia sobrepôs se em demasia a narrativa o que não me permitiu saborear a leitura. Mas tem passagens deliciosas.