Dois irmãos contam a dissolução de uma família. Manel casou com Ema, e foi até que a morte os separasse como enfim os separou - pelas mãos dele. Habituado ao álcool e incapaz de lidar com as frustrações, não era a ele que mãe e irmãos deviam o amor sem reservas? Zé, casado, agora com três filhos, não vê no sangue uma desculpa para a vida do irmão. Pela mão da violência, que é pedra de toque, assistimos a uma família cujos laços se desfazem. E à vida transformada noutra coisa.
Com uma linguagem crua e destemida, que não raras vezes desarma o leitor, Amor Estragado é um romance sobre a família enquanto território a proteger, a traição da vida adulta face às certezas da infância, a inveja, o desgosto, a degradação que o vício impõe e o que custa perder um lugar de honra. E inevitavelmente sobre a culpa - do homem que mata e de quem não o impede.
Tal como em “Uma Pequena Vida”, também ele com um final anunciado, sentimo-nos desconcertados depois de ler este livro, procurando, no nosso conforto, esperar que sejam apenas histórias de ficção. Mas não são. Há tantas Vizelas por aí.
O primeiro parágrafo deste livro é impactante. E o Manel fica apresentado na bem desenvolvida trama. A perspectiva de um homem com um vício que constrange, intimida e mata. Um homem como outros que infelizmente fazem notícia e que Ana Bárbara Pedrosa convence numa escrita coloquial, simples e muito direta. Ultrajante personagem. O Zé é a outra personagem. O que se foca nos seus problemas e desvia o olhar porque não se quer envolver. O típico que quase nega a violência doméstica que sabe que existe. Apática personagem.
Perturbador romance que vicia, mesmo quando a tragédia abre a narrativa procuramos saber o contexto. E o desfecho naquela destroçada família. Doloroso. Cruel. Avassalador. Admiro a capacidade da autora em escrever um romance com esta intensidade que certamente exigiu muito dela. Importante ler.
Cheguei a este livro na sequência de uma menção em O Outro Lado Dos Livros. Até então não conhecia o trabalho da autora.
É sublime.
No primeiro terço do livro, porque conheço bem as gentes do Minho e a sua maneira de falar, segui deliciado. Adorei a linguagem desbragada que me recordou a Venturini. Mas depois, o que antes tinha graça, uma certa brutalidade despudorada, começou a incomodar. Na última parte, o incómodo causado pela violência, é nauseante.
Que trabalho talentoso, que maneira inteligente de fazer o leitor entrar na história e 'imcomodar-se' com a narrativa - eu que detesto quando me vêm com aquela conversa do 'é preciso sair da zona de conforto' - adorei.
O desenvolvimento da narrativa, apoiada numa polifonia - as vozes de três irmãos - resulta brutal, no duplo sentido da palavra.
07/08/24 Amor estragado... Uma família.... Quatro irmãos, destaque para dois deles: o Manel e o Zé. Atrevo-me a dizer que parte da história poderia ser analisada à luz da psicanálise. Conhecemos Manel, um homem que para além de não ter ultrapassado a fase fálica no que toca ao seu desenvolvimento psicossocial, esta ainda se manifesta de uma forma muito mais descomedida, na qual a relação com a sua mãe é, na minha opinião, um dos grandes sustentos para os comportamentos, atitudes sentimentos e vicio deste ser execrável. Zé, um homem que sabe amar e receber amor, consciente, prudente e sensível. Ama a sua família, e é detentor de valores morais. É uma história muito crua e nua, sem floreados e, sobretudo, muito real. Infelizmente, nos dias atuais, este ainda é o panorama de muitas famílias. O problema do alcoolismo está muito bem retratado, assim como o da violência doméstica. É importante a leitura de livros com estas temáticas e cada leitor refletirá sobre o que leu e sentiu...
Não gostei de ler este livro. Está tão bem escrito que me fez ter muita repulsa com as personagens. Parabéns a escritora, porque para quem lê é um livro muito difícil de ler. Um livro que detestei as personagens mas é um livro real(infelizmente). Não sei como a escritora conseguiu colocar no papel estes sentimentos todos. Muitos mesmo muitos parabéns. Recomendo . Atenção pode mexer com muitas caixinhas da nossa psique.
Li o livro numa tarde. Não deixa de ser uma leitura difícil porque existe demasiada realidade nestas situações. Não é baseado numa história real mas podia ser, infelizmente.
Adoro os livros da autora, este não foi excepção, muito cru,direto e viciante. Recomendo este e todos os da autora... Vai sair vídeo sobre as suas obras no YouTube no Livros à Lareira com chá!
“A vida dele era isto. Beber como esponja e estar sempre a exigir, faminto de alguma coisa que não era amor, culpando a Ema por todas as frustrações, inventando frustrações só para a culpar.”
Um livro que cumpre o seu propósito, lembrar-nos que o alcoolismo e a violência doméstica existem, parceiros, estripando vidas, criando celeumas e devastando uma família por completo. Com uma linguagem crua e sobre o ponto de vista do agressor e de um dos seus irmãos, esta é uma leitura que consome, incomoda, porque muitas vezes andamos alheados de uma realidade que teima em subsistir.
4,5 ⭐️ Este é um livro muito duro que nos fala sobre o enorme problema que é a violência doméstica. Achamos que só acontece aos outros, mas quando vemos esta situação a ocorrer no seio da nossa família, o caso muda de figura - e a Ana Bárbara Pedrosa retrata muito bem isso neste livro. Uma das coisas que mais me surpreendeu foi a forma exímia como a autora nos entrega esta estória sob o ponto de vista de 2 irmãos, considero que é uma arte colocarmo-nos na perspectiva do sexo oposto. A escritora faz ainda um trabalho excelente ao retratar o agressor, pois consegue simultaneamente descrever a violência com que tratava a mulher e expor a sua faceta de “vítima” no meio de tudo. É um cruel retrato de muitas realidades que por aí andam, e merece ser lido por todos.
«Amor Estragado» é intenso, desconfortável e necessário, apesar de ter achado que tem um início lento, arrebatou-me a partir de certa altura. Os capítulos que mais me interessaram foram os narrados pelo Manel. A escrita é crua e irrepreensível. Quero ler mais da autora, sem dúvida.
Há já bastante tempo que queria ler um livro da Ana Bárbara Pedrosa. No primeiro fim-de-semana da FLL assisti à apresentação deste seu novo livro e decidi que era desta.
Esta é uma história muito dura, violenta, mas tão real e igual a tantas outras. O alcoolismo, a violência doméstica, a indiferença e desvalorização dos sinais que indicam a tragédia iminente, está tudo aqui, contado de uma forma simples, crua e directa, na primeira pessoa.
A história de Manuel, contada pelo próprio e pelo Zé, um dos seus irmãos. Por um lado, assistimos à decadência da vida do primeiro, e, por outro, percebemos como esta é vista de fora, pelo irmão, com repulsa e desgosto. A originalidade deste livro, a meu ver, reside principalmente no facto de este mostrar o lado do carrasco. A vítima não tem voz, não sabemos como se sente, o que pensa.
Li-o num ápice, sem querer parar, sempre com um sentimento de incómodo, um desconforto intenso ao longo de toda a narrativa, apesar de o desfecho se encontrar logo na primeira frase do livro.
"Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar".
Uma história dura com linguagem forte, mas muito bem contada. Personagens tão bem imaginadas que parecem verdadeiras (ou são?)!
E o livro inicia-se com estas frases Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar. Mas depois voltamos ao início, com a história da infância de Manel e os seus três irmãos.
[Sempre ouvi dizer que no Norte são muito asneirentos, mas não estava à espera que fossem tanto!!]
Mais uma vez a bolacha persegue-me: Agarrava-se aos lençóis como quem pega na última bolacha do pacote.
Nunca tinha lido nada desta escritora e adorei o estilo. Este é um livro duro, muito cru e muito real. As vidas do dia a dia, as famílias que são mais do que o sangue comum que as une. O que cada um faz/ constrói da sua vida determina, não só o seu presente e o seu futuro como as relações que consegue manter. A história desta família, em particular dos irmãos Manel e Zé, demonstra isso mesmo. Como, vindos da mesma origem, se tornam pessoas tão diferentes. Por vezes, não apenas por questão de educação ou oportunidades mas pela tendência natural que cada um tem, para fazer escolhas erradas.
🙍“Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar.” Assim começa Amor Estragado o primeiro livro que leio de Ana Bárbara Pedrosa e que me fez logo apaixonar pela narrativa.
🙍Violência doméstica, alcoolismo, laços familiares que se vão rompendo ao longo do tempo, tudo isso são os ingredientes de Amor Estragado e o mote para a dissolução de uma família. Contado a duas vozes, neste livro vamos conhecer os testemunhos de dois irmãos, Manel e Zé, e a sua visão dos acontecimentos.
🙍Manel, o irmão mais velho de quatro, sempre se sentiu como o protector da família. O mais rebelde, o mais forte, estava sempre presente para defender a prol. Mas, com o avançar dos anos, e já na idade adulta, o forte foi enfraquecendo e a frustração de não ter um bom emprego e uma namorada que lhe enchesse as medidas fez com que se virasse para a bebida. Num impulso acaba por namorar com uma rapariga que nada lhe diz, mas que vê como única forma de constituir família. Apesar de o envergonhar e a estar constantemente a compará-la com as cunhadas, acaba por decidir viver com ela. No entanto, a vergonha vai em crescendo e a vida familiar degrada-se a olhos vistos.
🙍 Sempre bêbado e a odiar a mulher a cada dia que passa, Manel bate nela como se não houvesse amanhã. E, pior, a culpa nunca era dele. Zé, o irmão cuja vida queria seguir, tinha três filhos, uma mulher extraordinária. Era o sonho de vida de um Manel que se degradava a olhos vistos.
🙍Apesar de tudo, Zé assistia impávido a toda esta violência com a esperança de que terminasse um dia. Mas terminou, só que da pior maneira.
🙍Este é um livro sobre família, sobre a culpa que esta carrega consigo. Culpa por ter sido conivente com um homem que nada tinha que se aproveitasse. Culpa por terem calado e olhado para o lado. Amor Estragado é o retrato de muitas famílias portuguesas. E é isso que choca mais.
Quantos de nós não olha para o lado, mesmo sabendo o que vai na casa do vizinho ou mesmo de um familiar? Para muitos ainda é regra o ditado “entre marido e mulher não metas a colher”. Até que algo trágico acontece. Este é um retrato cru da nossa sociedade, que nos toca a todos e que nos faz pensar. A escrita da autora é exemplar e o livro foi um dos melhores que li este ano.
Como o título do livro bem indica, em Amor Estragado assistimos ao desmoronar de uma família onde as principais personagens são o Zé e Manel.
Linguagem pura, crua e dura que nos mostra a ascensão e queda desta família, rodeada de um lado pelo álcool e violência e do outro pela dor e de alguma forma de cumplicidade onde fica o sentimento de dívida de poder ter feito algo para evitar o triste final. O livro começa como acaba, "Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar".
Tantos e tantos são estes casos nos dias de hoje que faz com que o livro mexa com as emoções e nos prenda do princípio ao fim.
confesso que torci um bocado na nariz quando percebi que o livro seria contado na perspetiva do agressor e do seu irmão. contudo, à medida que li o livro compreendi a mais valia que ter o agressor como «unreliable narrator» confere ao enredo. ao início, também achei que os capítulos do Manel (agressor) eram bastante repetitivos, mas assim que conhecemos o seu historial com o álcool, faz todo o sentido que assim seja. alternando entre os capítulos do Manel e do Zé, conhecemos a história de uma família que reprova a violência doméstica que o Manel pratica contra a sua mulher, mas não o suficiente para o denunciar, nem para evitar que a vítima morra (não é spoiler, o leitor sabe logo na primeira frase do livro que esse é o seu destino).
infelizmente, há muitas Emas por aí, mas também há muitos Zés que, focados apenas na sua vida e nas suas tragédias pessoais, e também motivados pelo sangue que os liga, são incapazes de virar verdadeiramente as costas aos irmãos, mesmo que reprovem os seus comportamentos. embora situada num contexto histórico específico e num meio pobre e desfavorecido, a história da Ema, do Zé e do Manel em Vizela é a história de muitas outras pessoas, com mais ou menos dinheiro, com mais ou menos estudos e com ou sem abuso de álcool e estupefacientes. lê-se rápido, mas é uma enorme chapada de realidade.
«eu nunca tolerara que um homem batesse numa mulher, e ele teve rédea solta por seu irmão. pegou nos meus filhos ao colo, ensinou-os a andar e e bicicleta, e tão só isso me impediu de querer atirá-lo para uma cela. sei que íamos mentir em tribunal, dizer que a minha cunhada era louca. ele tinha as mãos sujas do sangue dela, mas eu não podia sujar as minhas com a cadeia de um irmão. que diriam os meus filhos de lhes mandasse o tio para a prisão?»
Dificilmente se encontra um livro tão honesto, cru e dilacerante quer na história, quer nos diálogos. É de uma violência atroz e é também impossível não reconhecer todo o potencial da Ana Bárbara Pedrosa. Indiscutivelmente uma das minhas melhores leituras de 2024.
"Numa família, não cabem conceitos como vingança ou justiça. Numa família, é-se unido apesar de, contra o que houver. Defendemos o sangue porque o sangue somos nós. Não deixamos nenhum cair porque vivemos uns nos outros, porque quando um cai todos se aleijam." 🖤
Uma história bem contada, estruturada e dura, com personagens que nos envolvem, de uma escritora que eu não conhecia.
Uma história que toca várias teclas, sempre com o equilíbrio de quem não espalha temas à toa para fazer o pleno, mas sabe doseá-los e articulá-los num conjunto coerente. Da violência doméstica ao amor da família, dos sonhos desfeitos ao luto, da submissão à luta por vencer na vida e fazê-la valer a pena.
Uma crítica: descrições das intenções das personagens repetidas até à exaustão, explicando tudo muito explicitamente ao leitor, não lhe deixando margem para fazer o seu trabalho. Neste aspecto, gosto de livros que dêem mais luta.
Contudo, não é suficiente para me desmotivar ou dar nota negativa; apenas para não dar as 5*.
Por fim, os julgamentos. Discuti com a Sofia (que mo aconselhou) a natureza bondosa ou maldosa de um dos personagens. Ficámos em desacordo. Talvez seja o maior mérito deste livro: levar-nos a confrontar-nos com o nosso olhar mais profundo sobre o comportamento e natureza do outro.
"Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar." É assim que começa o livro: de forma impactante, uma pedra no charco. E toma este registo até ao fim do livro, mantendo sempre uma linguagem crua que nos deixa desarmados em tantos pontos da história. Achei bastante interessante o conceito de diálogo interno, como um diário pessoal, onde vemos a história contada por duas personagens e duas visões - ou duas faces da moeda - bastante diferentes. Numa nota menos positiva e, para justificar as três estrelas, ainda que o tema que o livro aborda é bastante alarmante para não ter a sua devida importância e atenção da nossa parte enquanto leitores, há um ritmo monótono e pouco poético que fez com que muitas vezes quisesse deixar o livro.
"Sei que devia ter feito qualquer coisa, mas ainda não percebi qual foi o momento em que errei, o que só pode significar que errei o tempo todo"
É impossível ler este livro e ficar-se indiferente. Incomodado, a verdadeira definição de murro no estômago. Ana Bárbara Pedrosa é corajosa: pela maneira como escreve, pela forma como retrata o flagelo da violência doméstica, por fazer de todos (quase inclusive a nós, leitores) cúmplices das ações de um ser que não é homem, não é gente. É uma leitura obrigatória, fácil pela forma como está construído mas difícil pelo que constrói. Uma obra que me vai acompanhar, sem dúvida, para o resto da minha vida.
Um bom livro que, no meu ponto de vista, pecou pelo excesso de linguagem brejeira. Percebo que isso foi intencional para ter um impacto maior no leitor. Contudo é uma história de muitas mulheres que são vítimas de violência doméstica que não têm o seu final feliz. O enredo está muito bem construído bem como as suas personagens. Gostei também de ver a perspectiva daqueles que apenas assistem, esperando por melhores dias e que no final carregam aquele sentimento de culpa por não terem agido.