É uma sensação estranha aquela que sentimos quando percebemos que, à medida que vamos conhecendo a obra de um autor que nos impressionou inicialmente de forma positiva com a sua originalidade, afinal esse autor não consegue surpreender com a sua restante obra e que o tal encanto inicial se vai desvanecendo quanto mais a lemos. Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, Quatrocentos Mil Sestércios e A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho (outro livro de contos) foram livros de que gostei bastante e que fizeram com que eu começasse a seguir com mais atenção este autor português. No entanto, outros livros que fui lendo de Mário de Carvalho, foram-me esvaziando do encanto inicial.
Estes Contos Vagabundos acabam por exemplificar isso mesmo. Alguns deles são inverosímeis e outros roçam mesmo o absurdo. Não que isso seja necessariamente mau... No entanto, quando a inverosimilhança ou o absurdo não têm explicação, quem "sofre" as consequências é o leitor que, quer queira quer não, fica sem perceber rigorosamente nada do que acabou de ler.
Os contos "Deus", "Do conserto do mundo" ou ainda mais gritantemente "Carolina", "Andando", "Fenómenos da aviação", "Memórias de revolucionário" , "Por uma vereda na falésia", "Aventuras de um ourives" ou "Interminável invasão" são contos que não fazem grande sentido. Eu, pelo menos, não consegui vislumbrar o que pretendia o autor transmitir. O ponto de partida para os contos até pode ser interessante, mas o facto de depois não conseguirmos perceber, creio que mina por completo o trabalho do autor enquanto criador literário.
Por outro lado, Mário de Carvalho também é um autor que, como poucos, consegue passar para palavras as (des)ilusões da vida urbana moderna, acossada por um quotidiano rotineiro, mas ainda assim dando espaço à surpresa, e creio que é precisamente nos contos "Vaudeville", "O binóculo russo", "Carolina, Fernando e eu" ou "Yasmina e os seus amores" que acabam por ser mais bem sucedido na criação de contos, por um lado cómicos, mas com carregada ironia que com certeza muita gente apreciará.
Valerá este livro a pena? Não sei... Caberá a cada um lê-lo e fazer essa apreciação. Eu vou continuando a gostar muito da maneira de escrever de Mário de Carvalho, mas verdade seja dita que este não foi o livro dele que mais me agradou.