Aos 30 anos e já um autor consagrado, Tchéchov viajou até a ilha de Sacalina, no extremo leste russo, para investigar a colônia penal que lá existia. Foram três meses de viagem por terra – ainda não fora construída a ferrovia transiberiana. Algo nada fácil para quem já era tuberculoso. Ficou na ilha por três meses. O resultado, escrito entre 1891 e 1894, foi publicado em vida em revista. Em livro, só depois de sua morte.
Difícil dizer o que o atraiu tanto para visitar um lugar no fim do mundo, por assim dizer. Ele se preparou muito para a viagem e isso é perceptível no livro, que traz uma vastidão de informações sobre a ilha, sua geografia, sua história, sua população.
Sacalina é inóspita até os padrões de quem é acostumado com os rigores do inverno. Segundo ele, “...no inverno e quando o tempo está ruim, ou seja, dez meses por ano, em média, é necessário contentar-se apenas com as janelinhas de ventilação e com as estufas”...
Sacalina é quase como um lugar fora do tempo e do espaço, um outro planeta. Esse estranhamento ele relata e inclusive afirma que “Aqui, a moralidade é diferente da nossa”. É como se aqueles presos, tivessem a estranha liberdade, ou talvez possibilidade, de deixar as amarras morais de lado: “A atitude cavalheiresca com as mulheres chega quase às alturas de um culto e, ao mesmo tempo, não se considera condenável ceder a própria esposa a um amigo em troca de dinheiro” ou “Hoje em dia, também acontece de pessoas comerem madeira apodrecida com sal e até de devorarem umas às outras, mas isso não diz respeito aos turistas nem aos funcionários”...
Na segunda metade do livro, ele trata de questões mais particulares – mulheres, crianças, prisioneiros, colonos, indígenas, castigos, execuções, população livre, comida, hospitais e por ai.
O capítulo em que ele trata das mulheres é bem representativo da realidade encontrada: “A prática local produziu uma visão especial da mulher forçada, que existe, provavelmente, em todas as colônias de deportados: que ela não é uma pessoa, uma dona de casa, mas uma criatura inferior até mesmo a um animal doméstico. Os colonos do povoado de Siska entregaram ao chefe do distrito o seguinte pedido: ‘Pedimos muito humildemente a Vossa Excelentíssima que mande gado para a produção leiteira para a localidade mencionada abaixo e também o sexo feminino, para cuidar da vida doméstica’ (...) A dignidade humana e também a feminilidade e o pudor da mulher forçada não são levados em conta em nenhum caso, como se o pressuposto fosse que tudo isso tivesse queimado dentro dela até virar cinza...”
Essa sensação de um mundo em que as regras são outras permanece no capítulo em que ele trata da moral da população deportada: “Nos deportados, observam-se defeitos e perversões peculiares sobretudo a pessoas privadas de liberdade, escravizadas, famintas e constantemente atemorizadas. A dissimulação, a astúcia, a covardia, a pusilanimidade, a delação, o roubo, toda sorte de vícios secretos ¬– aí está o arsenal empregado pela população humilhada, ou pelo menos por grande parte dela, contra os chefes e os guardas penitenciários, que eles não respeitam, mas temem e consideram seus inimigos”.
O livro é um pouco de reportagem, relato antropológico e sociológico, diário de viagem e diário pessoa. É interessantíssimo, em especial se o leitor tem algum interesse no sistema penal, inclusive aquele que existe antes, digamos, das inovações mais modernas.
Por outro lado, não é uma leitura para qualquer um. Alguns trechos são realmente enfadonhos no detalhismo e na preocupação de descrever os elementos constitutivos daquela realidade que ele encontrou na ilha.