Em pleno século XVI, quando o Império Português atingia o seu auge, um junco com marinheiros portugueses naufraga numa praia desconhecida. Sem o saberem, acabam de confirmar a existência de uma terra que só existia nas a Terra do Sol Nascente, o Japão. Deste inesperado contacto resulta a descoberta de um mundo tão diferente que parece arrancado dos um mundo ordeiro e magnificamente belo, habitado por um povo cujos guerreiros – os samurais – superam em dignidade e crueldade, tudo quanto os portugueses haviam visto até então. Depois do junco português ser reparado, parte de novo para o Mar da China. Mas nada voltará a ser igual, nem para os marinheiros que partem com a notícia para o rei português, nem para João Boavida, o marinheiro que, apaixonado pelo Japão e por uma misteriosa mulher, decide ficar. Mas a maior mudança será para a própria Terra do Sol Nascente que, enfeitiçada pelos mosquetes que os portugueses trazem, nunca mais será a mesma.
Emílio Miranda nasceu em Luanda, Angola, em 1966. Em 1975, fruto da guerra colonial, vem viver para o Norte de Portugal, de onde os pais são originários, mais concretamente para a aldeia de Lordelo, próxima de Vila Real, onde mais tarde passou a residir. É o contacto com esta nova realidade – de espaços abertos no verão e horizontes fechados nos longos invernos – que definitivamente o vai marcar. Uma realidade na qual conviveu com costumes tão tradicionais como a matança do porco, a vindima e a pisa do vinho, com a agricultura regida por preceitos ancestrais e com essa mistura das práticas religiosas com as pagãs que também cinzelou esse território.
Um livro simplesmente fantástico! Emílio Miranda tem o dom da descrição, fá-la de uma maneira quase poética, levando-nos a viajar até ao Japão, vendo cada pormenor tal como ele tão maravilhosamente descreve.
Este livro apresenta uma das histórias mais interessantes do tempo dos descobrimentos portugueses e uma das menos conhecidas também. Há algum tempo que não encontrava um romance histórico sobre história portuguesa que me agradasse, fico por isso contente que a minha aposta neste livro não tenha sido em vão. O que achei esquisito quando li este livro foi a facilidade com que os japoneses tiveram em produzir os mosquetes, pois tinha lido noutro livro "O Corsário dos sete mares" de Deana Barroqueiro, que houve umas complicações no início da sua produção, o que causou que os primeiros mosquetes disparados explodissem na mão do utilizador, por vezes até o matando... De qualquer forma, nota-se que foi feita pesquisa, falando um pouco da complexidade do povo japonês e apresentando comparações com o povo português, de forma a atenuar e aproximar as duas culturas. Gostei particularmente da introdução de palavras japonesas no livro, fazendo acompanhar, de certa forma, a progressão do protagonista na aprendizagem da língua e dos costumes.
Um livro muito agradável de ler. Uma história muito bem construída, com muitos pormenores relativos ao Japão e aos seus costumes. Muitas referências históricas que nos levam à época histórica da chegada dos mosquetes ao Japão, levados pelos portugueses, e todas as consequências que esse acontecimento provocou naquela sociedade. Embora seja um romance, é baseado em factos reais. Aprende-se um pouco da história de Portugal e das suas relações com o Japão.
Uma crónica japonesa (crónica do mosquete ou Teppo-ki) refere que no dia 23 de Setembro de 1543 um junco chinês com três marinheiros portugueses, que se dirigia para Liampo, sofreu uma violenta tempestade e foi parar à ilha de Tanegashima no Sul do Japão. Na altura os portugueses já mantinham um intenso contacto comercial com a China e julga-se que tinham já conhecimento da existência dessa ilha a que davam o nome de Cipongo, até porque há muito que os chineses e coreanos mantinham trocas comerciais com o Japão.
Em todo o caso, pode não ter sido bem como a crónica de Teppo-ki menciona, pois há provas que apontam para a chegada de três naus portuguesas, efectivamente em Setembro, comandadas por António Peixoto, António da Mota e Francisco Zeimoto que desde logo encetaram contactos com as autoridades locais com o objectivo de comércio.
Ou seja, duas histórias distintas. Uma mais aventureira e a outra mais real que se coaduna mais na forma como os navegadores portugueses agiam.
O Livro dos Mosquetes pretende dar-nos uma visão da chegada dos portugueses e das percepções e considerações de ambos os lados, sobretudo no que respeita aos usos e costumes dos japoneses e da terrível invenção que os portugueses dão a conhecer: o mosquete.
E o livro surpreendeu-me pela sua qualidade.
Numa escrita fluída e intervalada por capítulos muito curtos, o autor vai construindo um trama que se inicia com o naufrágio do junco e da chegada a terra da sua tripulação. Nos dias em que esse junco se encontra em reparações, João Boavida enceta os primeiros contactos com aquele estranho povo e decide, com a autorização do seu capitão, permanecer junto desse povo até ao regresso dos portugueses. O objectivo é de estabelecer contactos comerciais e políticos com a autoridade (Daímo), aprender os costumes e hábitos enquanto vai espalhando a sua cultura europeia.
Para o poderoso Daímo (senhor feudal) é uma honra hospedar um estrangeiro, ainda mais porque compreende que aquela arma lhe pode via a ser muito útil e dessa forma ganhar mais poder juntos dos outros daímos. De notar que o Japão estava organizado numa sociedade milenar, de hábitos e regras muito rígidas que estipulavam o direito à vida e à morte dos senhores feudais sobre o povo. Samurais orgulhosos da sua descendência compunham a elite social e a preparação para a guerra era uma constante, aliás, a guerra era quase o único objectivo de um samurai.
É nesse contexto que João se vai confrontar e daí surgem contraste enormes, não só de costumes culturais, como e principalmente, de filosofias de ser e estar. Nesse sentido adorei o livro e a forma como o autor conseguiu explorar e evidenciar esses contrastes. Por um lado temos um representante de um povo que andava a desbravar mares e a descobrir outros povos. Do outro, um povo que vivia isolado mas que possuía um enorme apreço pela sua cultura milenar. O português representava um povo que, preso pelas agrilhoas da religião, desprezava o corpo (por exemplo) e que tinha uma perspectiva arrogante e até pesada face a várias questões. Os japoneses retiravam prazer de pequenas coisas, eram limpos e organizados e tinham um enorme respeito pelos seus deuses mas sem caírem na idolatria que, por exemplo, os bárbaros do sul, conforme chamavam aos portugueses, se atolavam.
Para mim essa é a principal virtude do romance. O contraste entre culturas e a curiosidade em perceber que, de facto, o ser humano a tudo se adapta, sobretudo quando se apercebe que o local onde vive lhe moldou o caracter e que agora é uma pessoa melhor.
Curiosas as considerações e as ilacções que Boavida vai tirando de tudo o que observa e vive. Fica assombrado pela forma livre e despudorada como os japoneses vêm o sexo que, conforme João refere a certa altura, seriam considerados heréticos e indignos na Europa, no entanto João percebe que o sexo é algo natural, uma necessidade para o corpo e para o espírito que permite às pessoas sentirem-se plenas e felizes.
Gostei muito do livro e surpreendeu-me a qualidade da escrita e a forma clara e honesta como o autor expõe um conjunto de factos que ajudam a compreender o estabelecimento de relações entre os portugueses e os japoneses. A forma como descreve o impacto de uma cultura completamente oposta é algo que muito me agradou e que tornam o livro, a meu ver, um bom veículo cultural.
Gostaria de começar por dizer que a minha única e grande crítica a este livro vai para o diálogo. E digo-o porque este tem alturas em que passa de fluído e natural para autênticas lições de história, o que o torna não necessariamente massador e mas sim irrealista. Sei que na altura as pessoas eram mais instruídas que hoje, ora se a memória não me falta houve um jesuíta italiano que levou para a China mais de 50 livros dentro da sua cabeça, completamente memorizados e chegando lá os escreveu. Com isto quero dizer, que havia um certo nível de excelência que era requisitado às pessoas que se faziam ao mar com o intuito de descobrir mais sobre os povos. No entanto, João dá-nos a entender que, e apesar de ter sido educado pelo tio que era padre, recebeu uma educação muito superior ao normal. Esta educação acaba por não incluir, necessariamente, uma educação religiosa mas lhe dá capacidade para falar e dar opinião sobre vários temas, que talvez fossem de difícil compreensão para um português normal. Assim sendo, pareceu-me um pouco irrealista quando ele começa a explicar tudo, em japonês, à sua amada quando ela lhe faz perguntas. De resto, o livro é genial, é um livro de época que faz justiça à cultura japonesa e mesmo as falas dos mesmos, estando em português, tem os seus maneirismos, como o "né", tornando-as mais realistas. Toda a atmosfera foi também muito bem descrita e creio que o povo foi capturado na sua essência. Algo que é raro encontrar, visto que os autores tendem a fantasiar as culturas orientais conferindo-lhes uma certa magia e encantando, perpetuando com isso estereótipos. A verdade é que os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Japão e na realidade, este ano fazem 450 anos desde a chegada dos portugueses ao porto de Kochinotsu. Foi por isso uma grande sorte este livro ter sido lançado este ano, foi na realidade, talvez o ano ideal e fico muito feliz de o ter lido nesta data tão especial. Apesar de todo o romance em torno de João Boavida ser especulativo a verdade é que foi muito bem encaixado no contexto histórico e é deveras realista. Tenho que felicitar o autor pela sua pesquisa que sem dúvida deve ter sido intensiva e pela sua prosa que tão bem misturou romance e factos. Um livro que sem dúvida despertará a atenção dos curiosos em relação ao oriente. Por curiosidade acabo este comentário com uma foto das celebrações dos 450 anos da "nossa" chegada ao porto de Kochinotsu. Nesta foto os japoneses vestem trajes típicos e carregam espingardas japonesas, que deduzo sejam de época. - Catarina