Os mesmos fatos. Que mudam, dependendo de como são contados. Pode ser que façam uma história de amor. Do tipo amor total, desses que só se ouve falar. Pode ser que façam a história de um crime. No fim, uma questão de escolha. A narradora deste livro se vê debruçada sobre a vida de duas pessoas. Já mortas. São lembranças sem importância. Vestígios concretos de uma vida. Ilações a partir de quase nada.
Ela arruma um apartamento para venda. Precisa jogar coisas fora. Precisa também resolver o que fará quando acabar a tarefa. Faz um jogo consigo mesma. Se conseguir entender a vida daquelas duas pessoas como sendo uma história de amor, poderá fazer a mesma coisa com sua própria vida.
Seu caso com Roger dura há décadas. Não estão juntos. Não estão separados. São sócios em uma galeria de arte. Conhecem-se desde a adolescência.
A unir as duas histórias — a do casal já morto e a da narradora e Roger —, uma situação de adultério. Uma transa rápida, fugidia, sem demonstrações de afeto. Mas com consequências. A questão, no entanto, não são as consequências. Mas as causas. Ao reviver ou inventar o que aconteceu com Rose e Arno, a narradora procura entender o que aconteceu com ela própria.
Há uma obra no apartamento ao lado. Um pedreiro que conheceu Arno e que pode saber mais do que diz. Há um quadro de Arno a ser encontrado. Há uma vizinha curiosa. Um remédio que está onde não deveria estar. E, principalmente, há o peso da Segunda Guerra, das migrações forçadas e das mortes, mais presentes ainda em quem conseguiu ficar vivo. E nos filhos dos filhos de quem enfrenta situações-limite, impossíveis de esquecer.
Isso tudo em um apartamento caindo aos pedaços, em um Guarujá nem um pouco festivo. É agosto. Todos foram embora. Seus habitantes aparecem aqui, ali, em grupinhos pelas esquinas. A cidade está deserta. A ressaca come o calçadão. E chove sem parar.
Nascida no Rio de Janeiro em 1947, é diplomada em literatura pela Universidade de Nancy, França, e mestre em comunicação pela UFRJ. Escreve sobre arte contemporânea no site Aguarrás.
Elvira Vigna é definitivamente maravilhosa. No início ocorria-me a lembrança de Marguerite Duras, com o desenrolar da narrativa via-se o modo todo seu presente na escrita. E que escrita! Não só pelo seu dom de colocar as melhores palavras nos melhores lugares, mas também pelo seu destrinchamento das relações amorosas. Coisa fina.
O ordinário das relações amorosas é esquadrinhado de maneira ímpar neste romance de Vigna. Uma espécie de anti-história de amor, que prova o quão única era sua voz literária.
É uma história sobre assassinatos, desencontros, o Rio de Janeiro, a Alemanha e o Brasil. O leitor decide sobre o que ela é, pode ser amor. Elvira Vigna é genial!
"Uma história de amor, com um fecho de ouro à altura do palco monogâmico de um balé de cisnes brancos". Um fato: Elvira Vigna nos deixou cedo demais. Outro fato: eu não indicaria esse livro para um iniciante em literatura. Não por ele não ser bom, é o oposto. É bom, muito bom. A questão está na forma. Ela não é, e não pretende ser, didática com o leitor. Numa narradora em autodestruição, Vigna funde um fluxo de consciência com planos cinematográficos que dariam inveja a Ingmar Bergman. Eu diria que é uma narradora que constrói a história a medida que a narra. No caso, triângulos amorosos que envolvem artistas alemães, galerias de arte em SP, poker e a cidade do Guarujá. Talvez só nesse caos narrativo de sua escrita, no meio desse turbilhão de núcleos — o que torna confuso alguns momentos da história —, é que seja possível a narrativa funcionar. É só desse jeito, como o próprio título do livro explicita, dizer o que é o possível dizer dessa (não) história de amor que, afinal, vive a narradora.
O que deu pra fazer da história de amor entre a narradora, uma senhora de meia-idade, da qual não sabemos o nome, e Roger, divorciado, filho de imigrantes alemães, dono de uma galeria de arte.
A história em si não me sensibilizou muito, até teve seus aspectos que despertaram o meu interesse, curiosamente todos secundários - eu tenho um interesse genuíno pelas gerações anteriores à minha, então me empolguei com o pano de fundo envolvendo imigrantes alemães e pós-guerra no Brasil.
Mas eu gostei da escrita da Elvira, diversas vezes me vi em alguma situação ou em alguma emoção que ela com tanta beleza descreve. Certamente quero ler mais coisas dela.
"Histórias sao recebidas hoje, sempre com um meio ouvido. Todos meio ouvintes que, mal se iniciam na narrativa, já pensam em outra coisa."
Repito o que uma escritora escreveu: Por que acabou? Por que? Que pena , tanta realidade mais crua que nua. Foi o que deu para ela fazer, muito mais do que qualquer um de nós. Tendo a mim como base de cálculo.
Olha, esse livro me deixou num estado estranho... Não é difícil (está longe de ser),porém é um livro um tanto complicado... A maior parte do tempo eu não estava gostando dele, pq alem de não me causar nada estava parecendo ser mais um "modernóide" (não estou seguro de que não seja) como diz a Claire Scorzi, mas quando começou a desconstrução da historia o livro cresceu... Não dá pra falar do enredo, pq ele é o tesouro desse livro, acho que é importante lê-lo sem saber de nd... E por ultimo: não irei avaliar esse livro pelos seguintes fatos: Tenho absoluta certeza de que não é um livro de 3 estrelas (geralmente dou a livros medianos, medíocres) e apesar de saber que é um 4 estrelas não irei dá, pq se o fizesse estaria assinando o contrato de que fui feito de otário (no bom sentido, se é que existe), enganado pela autora... E não sou obrigado a passar por isso... u.u kk
Talvez eu seja um pouco a personagem que, diante de mal-estares nos relacionamentos, passa o livro inteiro tentando elaborar hipóteses e explicações que preencham lacunas e atribuam sentidos à vida.
E que, no fim, também acolhe a possível gratuidade absurda dos fatos.
Elvira Vigna é uma das minhas autoras preferidas. Ela escreve o que eu penso e sinto ou o que gostaria de pensar e sentir. É uma escrita íntima, como só ela era capaz de fazer. Li toda a obra dela e me entristece saber que acabou, mas ficam os livros. E eles são eternos.
"imigrantes. todos nós somos hoje. quando a viagem não nos move, é o entorno que nos foge, o que dá no mesmo. ficamos então parados, com tudo o mais indo, imigrantes a tentar entrar, todos os dias, em nós mesmos"
Tive muita dificuldade de terminar o livro, não consegui manter um ritmo de leitura. Esperava mais, o título me levou pra um imaginário que não foi concretizado.
Fiquei esperando muito acontecer algo mais concreto entre ela e o Roger e nada, são passagens meio “rasas”, não me envolveu.
2,5 ⭐️
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