O ouro português do Brasil é cobiçado por um dos corsários mais apaixonantes da História
René Duguay-Trouin, corsário francês dos tempos de Luis XIV, senhor das águas e das tempestades, arauto do medo em guerras quando o mundo era outro, é um dos rotagonistas desta história. Transfigurado em herói e imortalizado em estátua, narra as suas aventuras com a habilidade de um bailarino, cujos movimentos fazem tremer terras e mares. Encanta o autor e o leitor ao descrever as suas aventuras com a destreza de um esgrimista, cuja espada submete navios, sequestra cidades, intimida vontades e conquista corações. Nascido numa família de corsários de Saint-Malo, a sua primeira batalha foi enfrentar o destino que lhe reservara a família, trocando o seminário pela escola da vida. O seu espírito inquieto sucumbiu à sedução das ruas, das tabernas, dos duelos e das mulheres. Tornou-se num libertino, tão à moda do espírito de seu tempo. A sua redenção foi confrontar-se com o mar, ao comando de navios na guerra que devastava a Europa, os seus mares e as suas colónias. Foi então que o seu destino se cruzou com o dos portugueses, numa intrincada trama de aventuras e desventuras que teceram, e ainda tecem, o passado e o presente da História. Trama/drama com muitos outros protagonistas. Entre eles a cidade do Rio de Janeiro, cidade que nasceu portuguesa, e que se fez com actos de bravura e gestos de cobardia, entre festas, vitórias e derrotas. A mão que tece a trama, ao contar-nos o encontro de Duguay-Trouin e a cidade do Rio de Janeiro, em 1711, é mais um protagonista deste romance histórico. Ele próprio viajante, no tempo e no espaço, entre dois mundos: as estradas invernais da Bretanha e a janela de um edifício no Rio, de onde descortina a baía de Guanabara e a própria cidade, palco então, e ainda hoje, dos dramas que nos assaltam. "É bonito ver passar o tempo. Ele já foi meu." Antônio Torres oferece-nos a aventura e o prazer do testemunho de uma grande viagem, resgatando um tempo que fez a História de Portugal e faz ainda a do Brasil. O Nobre Sequestrador convida-nos a ser os protagonistas de um resgate: o da cidade e o da sua memória. Enfim, o da nossa condição de cidadãos no tempo que ainda é nosso.
Antônio Torres nasceu em 13 de setembro de 1940 em Junco, um povoado no interior da Bahia. Estudou em Alagoinhas e Salvador, onde ingressou no Jornal da Bahia. Aos 20 anos mudou-se para São Paulo, onde foi repórter e chefe de reportagem do caderno de esportes do jornal Última Hora. Trocou o jornalismo pela publicidade, trabalhando como redator publicitário em grandes agências brasileiras. Estreou na literatura em 1972,com o romance Um cão uivando para a lua. Em 1976, publicou Essa terra, seu maior sucesso, que já foi traduzido para o francês, espanhol, italiano, alemão, hebraico e holandês. Também é autor de Balada da infância perdida, Os homens de pés redondos, Carta ao bispo, Adeus, velho, O centro das nossas desatenções, O cachorro e o lobo, O circo no Brasil, Meninos, eu conto e Meu querido canibal. Em 1998, foi condecorado pelo governo francês com o Chevalier des Arts et des Lettres. Em 1987, recebeu o prêmio Romance do Ano do Pen Clube do Brasil por Balada da infância perdida e em 1997 o prêmio hors concours de Romance da União Brasileira de Escritores por O cachorro e o lobo. Em 2000, recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Meu querido canibal lhe rendeu o Prêmio Zaffari & Bourbon da Jornada Literária de Passo Fundo, em 2001.
As invasões francesas do Rio de Janeiro eram contadas nas aulas de História do Brasil e sempre foram muito interessantes. Muitos anos depois, indo parar, como o autor, em Saint-Malo, surpreendi-me ao dar com uma estátua de Duguay-Trouin, pois não tinha a informação de que por lá ele fosse um herói. A partir daí, a história ficou ainda mais atraente e fui procurando saber mais.
Esta obra, em que o narrador é o próprio corsário francês, conta não apenas a invasão do Rio, mas vários outros aspectos de sua vida, até então desconhecidos para mim, o que também é interessante. O autor também incluiu um pouco de sua vida pessoal e da vida no Rio na virada do século 20 para o 21, bem como de suas viagens de pesquisa à França atual. A maneira como constrói a obra, com esta mescla, um recurso talvez um pouco similar ao uso de flashbacks, embora de início aparente uma certa estranheza, é bem pensada e logo que se acostuma fica mesmo interessante e agradável. Boa fonte de informação e bem pesquisada.