"Em Outubro de 2006, no site na Internet do Instituto Nacional do Audiovisual, encontrei uma rua situada na proximidade da linha de demarcação, que cortava a cidade em duas. Uma mulher, bloqueada pelos bombardeamentos, na entrada do seu apartamento, disse uma frase que me perturbou: 'Sabem, acho que, mesmo assim, se calhar, estamos mais ou menos em segurança, aqui'. Essa mulher era a minha avó". Foi assim que a libanesa Zeina Abirached encontrou a inspiração para escrever e ilustrar "A Dança das Andorinhas".
A história é autobiográfica e passa-se em 1984, numa noite, durante o cerco de Beirute, no prédio número 38 da Rua Youssef Semaani, onde a autora viveu durante a infância. Nessa rua existia um muro que não só limitava a liberdade de movimentos dos seus habitantes, como era também uma constante recordação de que a cidade vivia em guerra. A vida organizava-se em função dos cessar-fogos e os bens básicos, o saneamento e a comida eram escassos.
Quase toda a história se passa na entrada do 1° andar, o lugar mais seguro de todo o prédio, onde os vizinhos se juntam nas noites de bombardeamento para beber, comer e conversar enquanto esperam pela chegada dos pais de Zeina. São famílias que tentam sobreviver e levar uma vida tanto quanto possível normal, apesar de todas as vicissitudes.
O livro ganhou o Prémio Face/Vozes de França do Pen American Center e a autora foi nomeada para os prémios de Angoûleme em 2008, tornando-se um sucesso em França e editado em mais de 10 países. A Dança das Andorinhas foi publicada pela Cambourakis em 2007, sendo uma espécie de homenagem às vítimas inocentes dessa mesma guerra, que o país ao tentar apagar o seu passado, quer deixar esquecer.
A arte tal como referenciado no prefácio, fez-me lembrar "Persópolis", mas talvez tenha mais a ver com o facto de ambas as ilustradoras trabalharem a preto e branco e não tanto pelo traço, uma vez que Zeina utiliza muito a repetição de um determinado padrão e o preenchimento de cenários. A história é contada com humor, sensibilidade e muita ternura por aquelas pessoas, que eram muito mais do que apenas vizinhos. Uma bela homenagem às pessoas de Beirute.