1.º
"No meio do nosso caminho", como ficou escrito desde que Dante escreveu A Divina Comédia, é a passagem pelo Purgatório. A meio da nossa vida, já exaustos e a sentirmo-nos assaz espancados e desiludidos, não sabemos onde estamos, quando acaba a expiação dos nossos pecados e, sobretudo, não fazemos ideia do que é que vem a seguir. Tantas histórias que todos conhecemos tão bem.
O que é que sentem realmente os homens que nunca falam? O que é que é mesmo verdade nas conversas das mulheres, que já nem conseguem parar de falar? Para onde é que foi o mundo onde sonhámos que havíamos de estar a viver quando chegássemos a esta idade? Alguém terá, alguma vez, conseguido constituir um verdadeiro casal feliz, digno e sereno na sua aliança? Ainda sobrevive alguém que saiba mesmo o que é a tranquilidade? Mães solteiras, pais de domingo, pessoas que acima de tudo se sentem completamente sozinhas neste mundo, mas ainda não desistiram de dar uma qualquer forma de sentido à segunda metade das suas vidas: somos nós.
No Meio do Nosso Caminho de Clara Pinto Correia
Excerto
"Os maridos, Babalu, são a espécie mais incompreendida pela nossa sociedade, e a que merece menos compaixão. Estás-te a rir? Eh pá, poupa-me discursos feministas, pela tua rica saúde. Isso já foi. Já era. Já não corresponde a nada do que realmente existe, pelo menos para a nossa geração. Agora os maridos ou não aguentam mais e se divorciam, como eu, ou andam transformados em baratas tontas a tentar fazer sorrir as senhoras, como eu andava dantes. Ou então, pronto, lá se conformam e se calam e, olha, quando elas os deixam vêem a bola na televisão à noite e vão à caça de dia, que sempre é melhor que partir a loiça toda."