C.W. Ceram é o pseudónimo de Kurt Wilhelm Marek (1915-1972), autor alemão que trabalhou como propagandista para a Wehrmacht, as forças armadas da Alemanha nazi. Em parte como um novo rumo para a sua vida, em parte como fruto de um longo interesse e entusiasmo pela arqueologia, Ceram viria a escrever e publicar Deuses, Túmulos e Sábios (1949). Rejeitado por todos os editores a que se dirigiu, a primeira edição seria paga pelo seu próprio bolso. Posteriormente, o livro alcançaria um enorme sucesso, sendo alvo de sucessivas reedições até aos nossos dias.
Estamos perante uma obra de grande divulgação da ciência arqueológica, a sua história e desenvolvimento e as suas principais descobertas. Um clássico no seu género, o livro combina história narrativa com momentos descritivos e de acção dos principais intervenientes analisados, numa forma que prefigura uma fusão entre método historiográfico e estilo literário, tal como o próprio subtítulo indica, O Romance da Arqueologia. Toda a obra está construída como uma sucessão de milagres, de luzes, inspirações e homens brilhantes que marcaram e definiram a área da arqueologia – à boa e velha maneira positivista –, que Ceram selecciona e apresenta como as bases da sua argumentação.
Neste sentido, o volume está dividido em quatro partes, a saber: (1) “O Livro das Estátuas”, (2) “O Livro das Pirâmides”, (3) “O Livro das Torres”, (4) “O Livro das Escadas”. Cada uma destas partes está orientada de forma a expor as descobertas arqueológicas em torno de quatro blocos civilizacionais. A entremear esta exposição, Ceram inclui uma narração da evolução dos métodos e técnicas desta área da ciência, desde os seus primórdios, no século XVIII, até à nova metodologia e especialidade da arqueologia subaquática.
Deste modo, o primeiro livro dedica-se às descobertas de Pompeia, que marcaram o nascimento da moderna arqueologia, e à posterior primeira conceptualização dos métodos arqueológicos por Winckelmann. Adicionalmente, são narradas as escavações de Schliemann das cidades da Antiguidade grega de Tróia, Micenas e Tirinte; e aqueloutras, por parte de Arthur Evans, que desenterraram a civilização minóica. Por sua vez, o segundo livro é inteiramente consagrado ao descobrimento da civilização egípcia, compartimentado através de momentos-chave: a decifração dos hieróglifos por Champollion; a exumação das Pirâmides e do Vale dos Reis, sem esquecer o túmulo mais fabuloso de todos, o de Tutankhamon; e a reconstituição da vida quotidiana, dos costumes, tradições e religião dos antigos Egípcios através dos artefactos que foi possível recuperar. O terceiro livro debruça-se sobre as civilizações da Mesopotâmia. A Assíria, cuja revelação das fabulosas cidades de Nínive e Nimrud marcou o nascimento de um novo ramo da arqueologia, a assiriologia. A Babilónia, cuja exploração da cidade homónima permitiu desenterrar o zigurate Etemenanki, isto é, o templo babilónico, de proporções colossais, dedicado ao deus Marduk, que se pensa ser a inspiração para a Torre de Babel bíblica; e os prováveis Jardins Suspensos, uma das Sete Maravilhas da Antiguidade. E a Suméria, a mais antiga civilização da região, e da história, que inspiraria as posteriores, e cuja existência foi intuída, antes de confirmada por escavações, através da decifração e estudo da escrita cuneiforme. Por fim, o quarto livro é devotado, em primeiro lugar, à redescoberta das civilizações pré-colombianas dos Aztecas e dos Maias; e em segundo lugar, ao desenterramento da “civilização debaixo das civilizações” (Ceram, p. 415), a Tolteca, aquela que parece – pois ainda não há consenso científico sobre o assunto – ter influenciado os restantes povos mesoamericanos.
O prolongado êxito do livro é merecido. Trata-se de uma introdução equilibrada a esta área científica, devido à sua abrangência temática e ao estilo fluido e vívido de Ceram. O autor pode não ser um especialista consagrado em arqueologia, mas, mesmo tendo em conta a veia literária de várias das suas descrições, faz um decente trabalho de resumo de grandes aglomerados de informação, seguindo de perto as fontes, que lista extensivamente nas páginas finais. Os capítulos dedicados à descoberta do túmulo de Tutankhamon, à decifração do Épico de Gilgamesh, produção literária maior da Suméria, e à posterior revelação desta primeiríssima civilização são particularmente entusiasmantes. Adicionalmente, a obra é enriquecida pela profusão de materiais de apoio que fornece ao leitor, tais como mapas dos sítios arqueológicos, fotografias e ilustrações dos principais achados, tabelas e representações dos sistemas de escrita hieroglífica, cuneiforme e maia.
Todavia, apesar dos seus méritos, Deuses, Túmulos e Sábios deve ser lido com algumas ressalvas e advertências. A obra conta já com setenta e dois anos, e isso sente-se. Algumas visões estão incorrectas e outros tantos dados demonstram-se errados. A título de exemplo, nos capítulos dedicados a Schliemann, Ceram reconhece que o explorador se enganou no estrato arqueológico da cidade de Tróia, mas não revela que as escavações precipitadas, com recurso a dinamite, levaram a uma destruição significativa de artefactos históricos, incluindo do nível estratigráfico a que a urbe pertencia. Ademais, quando relata a descoberta de Knossos, Ceram confunde a civilização minóica com a micénica, devido à ausência de informação concreta e assertiva à data da publicação (1949). Na verdade, as mais recentes teorias arqueológicas não só reconhecem a independência entre as duas civilizações, como confirmam a maior antiguidade do povo minóico. O antagonismo entre os dois povos também é evidenciado, sendo ponto assente que a queda dos minóicos se deveu a uma conquista súbita, após uma sucessão de problemas internos, por parte dos micénicos. E ainda, quando fala de Tutankhamon, C.W. Ceram refere-se-lhe como genro de Akhenaton, embora mencione que podia ser seu filho. Hoje sabemos que esta última hipótese é a correcta. Tutankhamon era filho de Akhenaton e casou-se com a meia-irmã, Ankhesenamon, conservando a tradição real egípcia.
A obra de C.W. Ceram recebeu ampla divulgação também em Portugal. Tendo sido publicado logo em 1949, pela Livros do Brasil, Deuses, Túmulos e Sábios seria reeditado, seguindo as actualizações alemãs originais, em 1958, 1960, 1964, 1970, 1971, 1973, 1978 e 1985. Há uma versão do Círculo de Leitores, de 1977, que reproduz a edição da Livros do Brasil de 1973. A mais recente é a da Cavalo de Ferro, que relança a última edição da Livros do Brasil. Todas elas contam com tradução de Elsa Lopes Ribeiro, constando da página de rosto da Cavalo de Ferro que se trata de uma “nova edição corrigida e melhorada”. Contudo, ao crivo da tradutora e dos revisores, mesmo nesta última “nova edição corrigida”, falhou a detecção de inúmeros erros ortográficos e tipográficos, alguns deles graves. À laia de amostragem, na página 293, onde se lê “existem numerosas castas dele”, deveria ler-se cartas. Na mesma página, a data de nascimento do arqueólogo Robert Koldewey figura como 1885, quando é, realmente, 1855. Bem assim, na página 320, o rei assírio Tiglath-Pileser III não invadiu a “América e a Pérsia”, mas antes a Arménia e a Pérsia. Não foi o papa Carlos VI, que aliás nunca existiu, a outorgar a bula que deu origem ao Tratado de Tordesilhas, mas sim Alexandre VI (p. 337). E, apesar de Cristóvão Colombo ter considerado aportar à Índia, quando chegou à América, isso não torna os seus habitantes indianos, como são referidos ao longo de todo o último livro.
Tudo somado, Deuses, Túmulos e Sábios é um clássico da grande divulgação científica que ainda hoje consegue encantar os seus leitores, devido ao estilo fluido e aos grandes planos historiográficos, que o informam de uma maneira didáctica, espicaçando um desejo de aprofundamento das matérias visadas. Não obstante, o livro deve ser lido tendo em conta as ressalvas e advertências acima apontadas, pois a sua provecta idade não lhe permite representar na totalidade o estado da arte de inúmeras áreas abrangidas. Os erros ortográficos e tipográficos são outro ponto importante a considerar pelo leitor, embora a sua origem se deva a deficiências na tradução e na revisão. Na obra, Ceram exprime o desejo de escrever a história da exumação da civilização hitita, e de explorar os primórdios da ocupação humana da América. Tais propósitos seriam alcançados com a publicação respectiva dos livros: O Segredo dos Hititas (Livros do Brasil, 1961) e O Primeiro Americano: O Enigma das Civilizações Pré-Colombianas (Europa-América, 1976). Como leitura complementar, capaz de suprir as lacunas identificadas na obra de Ceram e fornecer uma actualização quanto à metodologia e aos novos achados arqueológicos, aconselho a leitura de Arqueologia: O Guia Essencial (Arte Mágica, 2005), de Paul G. Bahn, aclamado arqueólogo britânico da actualidade.
Referências
CERAM, C.W. (2015) – Deuses, Túmulos e Sábios: O Romance da Arqueologia. Trad. de Elsa Lopes Ribeiro. Lisboa: Cavalo de Ferro.