Antoni Gaudí, 1852-1926: Da Natureza à Arquitectura é fruto de uma parceria, decorrida em 2004, entre o jornal Público e a editora alemã de arte Taschen, que consistiu na publicação de um vasto leque de obras da reputada série monográfica Basic Art.
Mais do que uma biografia - apenas nos são apresentados dados muito esparsos sobre a vida de Gaudí, tal como o nascimento na província de Reus, no meio de uma família de artesãos caldeireiros, a sua formação em Barcelona, na Escola de Belas-Artes, o seu arreigado catolicismo, uma crise de fé em 1893 e a menção a uma vida recatada, quase celibatária, que levou - o livro trata da genealogia e interpretação da obra do arquitecto catalão.
Maria Antonietta Crippa começa por fazer uma introdução abrangente do período histórico, económico e social, entre meados do século XIX e os anos 1920, atravessado pela Europa da segunda revolução industrial, das inovações tecnológicas galopantes e do fervilhar de novos movimentos artísticos e da Espanha, em crise identitária e nacionalista, de afirmação de regiões autónomas independentes, particularizando a realidade da Catalunha. O cerne da obra é dedicado aos projectos de Gaudí, com um capítulo para cada um, num total de dezasseis: a residência de férias em Santander do marquês de Comillas, El Capricho; o parque da residência de Eusebi Güell, patrono de Gaudí, contendo um picadeiro, estábulos e uma casa do guarda, a Finca Güell, nos arredores de Barcelona; a Casa Vicens, na Carrer de Les Carolines, do corretor da bolsa Manuel Vicens i Montaner; o Palau Güell, a mansão do industrial nas Ramblas no centro de Barcelona; o Col.legi de les Teresianes, o convento da Companhia de Santa Teresa de Jesus; o Palácio Episcopal de Astorga; a casa comercial Fernández y Andrés em Leão; a Casa Calvet, na Carrer Casp, para os filhos do industrial têxtil Pere Màrtir Calvet; a cripta da Igreja da Colónia Güell, da cidade operária de Santa Coloma de Cervelló; a Villa Bellesguard, nos arredores de Barcelona, de Maria Sagués; o Park Güell, projecto inovador de cidade-jardim empreendido conjuntamente por Eusebi e Gaudí, do qual apenas ficaram concluídos os jardins e duas residências; melhoramentos na Catedral de Mallorca, a pedido do bispo Pere Campins i Barceló; a remodelação da Casa Batló, no Passeig de Gràcia, propriedade da família homónima; a inovadora e ondulante Casa Milà, popularmente conhecida como La Pedrera, também no Passeig de Gràcia, no outro lado da rua; o pequeno edifício das salas de aula da Sagrada Família, uma súmula das suas inovações arquitectónicas; e, por fim, a sua magnum opus, a Sagrada Família, projecto da Associació Espiritual de Devots de Sant Josep que o incunbiu da direcção em 1883, a que tudo devotou, ao ponto de abandonar todos os projectos em que estava envolvido, em 1914, para se dedicar em exclusivo à edificação da catedral. A rematar, uma cronologia da vida e obra de Gaudí, mapas para situar a localização das suas obras, em Espanha, e em Barcelona, e uma bibliografia indicativa de posteriores leituras mais aprofundadas.
É interessante notar a evolução de Gaudí, as suas múltiplas influências e engajamentos. Contemporâneo do movimento da Art Nouveau, Gaudí partilha com ele diversas afinidades programáticas, particularmente a preferência pela experimentação, pelas linhas curvas e a reinvenção de estilos antigos, sobretudo o barroco e o rococó com um novo sentido prático e funcional. Não obstante, a obra de Gaudí destaca-se da norma precisamente pelo seu génio inventivo e pelas influências que foi beber à tradição catalã: o arco catenário, os sótãos com arcos parabólicos e hiperbólicos em padrões serpenteantes, os motivos de inspiração marítima. A natureza, e o plasmar das suas formas na pedra e no ferro forjado, são o grande motivo aglutinador do seu estilo. Filho de artesãos, o artesanato e a qualidade do produto manufacturado por um mestre, ora carpinteiro, ora ferreiro, ora soldador, são uma constante nas suas opções de acabamentos. A temática religiosa orienta, pelo seu lado, até os pormenores mais inusitados, como a recorrência de pináculos, a relembrar campanários de Igreja, o formato de saídas de ventilação em forma de cruz, a simbologia bíblica e as inscrições latinas, como na Casa Batló ou na Casa Fernández y Andrés. Por último, e não menos importante, a sua filiação junto do emergente nacionalismo catalão, cujas obras pretendem ser uma expressão e exaltação desse mesmo nacionalismo. Não é por acaso que, hoje em dia, Gaudí é tão reverenciado na Catalunha, há uma clara apropriação do seu génio em prol das tendências independentistas locais, que o próprio, provavelmente, não veria com maus olhos.