"Este diário (...) não é uma crónica dos meus dias, mas a parábola deles" Coimbra, 3 de Agosto de 1970. O Diário de Torga, publicado originalmente em edição de autor, em 16 volumes, constituem o retrato de um homem, de um escritor e de um tempo. Publicados ininterruptamente entre 1941 e 1993, dão-nos uma apaixonante visão do país e da sociedade portuguesa da época, com todas as transformações que ao longo desse tempo a marcaram.
Miguel Torga, pseudonym of Adolfo Correia da Rocha was one of the greatest Portuguese writers of the 20th century. He wrote poetry, short stories, theater and a 16 volume diary.
He was born in a village in Trás-os-Montes, northern Portugal, to small-time farmer parents. After a short spell as student in a catholic seminary in Lamego, also in Trás-os-Montes, in 1920 his father sent him to Brazil where he worked on the coffee plantation of an uncle who, finding him to be a clever student, paid his high school there and afterwards his medicine graduation (1933) at the University of Coimbra, in Portugal (to where he returns in 1925).
After graduation he worked in his village and in other places in the country, publishing his books from his own pocket for a number of years. In 1941, he established himself as an otolaryngologist physician in Coimbra. His agnostic beliefs seems to reflect in his work, that deals mainly with the nobility of the human condition in a beautiful but ruthless world where God is absent or is nothing but a passive and silent, indiferent creator.
After the value of his work was being recognized, he went on to receive several awards, as the Prémio Camões in 1989 and the Montaigne award in 1981. He was several times nominated for the Nobel Prize of Literature, being the last one in 1994, but he never won.
Tive o gosto de ver desenrolar as vidas simultâneas de Miguel Torga e Adolfo Correia Rocha. Se por um lado senti as mágoas de um artista desproporcional ao seu tempo, do outro vi a clausura do consultório na vida de um médico. Vi um homem eternamente dividido entre o dever e o lazer, entre o curar e o criar, sempre buscando a liberdade de criação mas reprimindo-se no processo que leva à descoberta. Quase que vejo o seu ar sisudo nas páginas que compõem estes volumes. Contudo, é no meio deste ar carrancudo que se arrancam belas melodias de intimidade que o diarista concedeu ao mundo, apimentadas com ocasionais notas de humor agridoce - ao qual ninguém está imune. Os Diários deixam-nos saborear a vida de Miguel Torga no ponto exato por ele definido, vemos a verdade da sua vida mas sem nunca a sentir como total. E no meio de passagens de lirismo profundo, o médico que é artista tenta ver-se em todo o lado, sem realmente se achar em lado algum.
Os Diários de Miguel Torga são um testemunho de humanidade, e dos seus estados mentais durante o curto século XX, a cada página que se dobra, somos instigados a continuar. Conseguimos entrar na pessoa e no artista, e na relação tempestiva com a realidade, seja ela humana, geográfica e divina. Miguel Torga mostra-se na sua intimidade, sem papas na língua, apesar das limitações da censura, ele é rude como as penedias que o viram nascer, livre manancial, dotado de um senso comum desarmante que herda dos seus pais; ele é também o médico que esgravata nos intervalos das consultas e operações a arte, ele é também o zíngaro que corre Portugal a cada quinzena; Miguel Torga, manteve-se fiel na sua teluridade transmontana, como um português de salta do arcaico no qual as pessoas não conheciam melhor, para a era da ciência e do desenvolvimento, este conflito faz dele um Camilo Castelo Branco do século XX, sem a arrogância do burguês que existiu no maior novelista português.