Épico. Impressionante relato dos primórdios do ciclo da cacau no sul da Bahia, em São Jorge de Ilhéus. Uma história de amor, sangue e dinheiro. Personagens inesquecíveis, impactantes: Coronel Horácio da Silveira, Juca e Sinhó Badaró, Ester, Don'Ana. A selva virgem, a mata fechada que se opõe aos planos dos homens e deve ser vencida, palmo a palmo, metro a metro - a natureza que cobra a sua parcela de dor, sangue e morte, mas que, ao fim, se entrega, vencida, a um deus mais poderoso. E o deus desses homens, dessas verdadeiras bestas-feras, é Mamon.
E, no entanto, apesar da violência, da brutalidade, da cobiça e da fereza desses homens, não posso deixar de reconhecer neles um ar de grandeza, de majestade; não posso deixar de admirar a coragem, a intrepidez, a vontade indômita que não se deixa abater diante dos maiores obstáculos, sejam estes humanos ou naturais. Quem disse que não existiu feudalismo no Brasil? Quem disse que os brasileiros não são capazes de gestos de bravura e força?
Jorge Amado é um tremendo realista, pois mostra, com argúcia, a face feroz do poder, do poder real, vivo e verdadeiro, o poder da bala e da repetição: "Por cima da justiça, do juiz e do promotor, do júri de cidadãos, estava a lei do gatilho, última instância da justiça em Ilhéus". Não há nada mais precioso do que esse tipo de descrição realista para abalar, até o fundo da alma, os delírios formalistas de nosso espírito bacharelesco. Não se pode nunca esquecer: na balança da vida, o prato do gatilho, de Marte rubicundo, pesa sempre mais que o prato das leis e das "instituições".
"Terras do Sem Fim" é uma obra-prima que consagrou o talento precoce de Jorge Amado e o inscreveu definitivamente no rol dos grandes escritores do século XX.