Homens e caranguejos, Josué de Castro • 1967
1 Ed., Civilização Brasileira • 2001
nota 10/10
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«Homens e Caranguejos» é o único romance do renomado cientista e geógrafo brasileiro Josué de Castro. Na obra, a personagem principal é o drama da «fome» que, junto ao sofrimento, deixa suas marcas na vida (e na pele) de diversas pessoas que lidam com a miséria.
O livro tem um tom ficcional mas ao mesmo tempo autobiográfico. Josué de Castro coloca em palavras memórias de sua infância no Recife, lembranças das margens dos mangues, quando descobriu o mar de miséria que tanta gente está submetida.
O geógrafo mesmo diz em seu prefácio que não foi na Universidade de Sorbonne, nem em qualquer outra universidade, querele travou conhecimento com o fenômeno da fome. Esse fenômeno se revelou espontaneamente no chão dos bairros pobres do Recife, naqueles lugares em que os homens e os caranguejos parecem passar pelos mesmos ciclos de vida, tornando-se quase que inconfundíveis. A lama do mangue se funde à lama social que o Recife geral em suas contradições.
O romance é uma síntese do pensamento de Josué de Castro, pois a cada capítulo fica ainda mais claro o pensamento pioneiro do escritor: a fome não é fenômeno natural atrelado à causas ambientais. A fome a miséria são fenômenos sociais e são gerados por escolhas políticas. É criação do homem e força social.
É narrando a história de vida de um menino pobre, o João Paulo, que logo nos deparamos com essa realidade. Como morador do Recife e, especificamente, de um dos bairros que o escritor cita em seu livro, fiquei extremamente comovido por lembrar que a história do drama da fome narrado no livro me é contada quase todos os dias pelo meu próprio olhar. A fome, em seus mais numerosos disfarces.
Recomendo demais este livro!