Resultado de dez anos de pesquisas em arquivos publicos e particulares, alem de diversas viagens a regiao do Bico do Papagaio (confluencia dos rios Araguaia e Tocantins) e de depoimentos de mais de 150 pessoas, Mata! pode ser lido de diferentes maneiras. Entre as numerosas facetas do livro reportagem, relato historico, pesquisa antropologica, reflexao politica a mais espetacular e, sem duvida, seu conteudo inedito de documentos sobre a Guerrilha do Araguaia (1966-74.
Leonencio Nossa, premiado jornalista de O Estado de S. Paulo e autor de livros como O rio e Homens invisiveis, teve acesso exclusivo ao lendario arquivo pessoal do major Sebastiao Rodrigues de Moura, o Curio, um dos protagonistas da repressao da ditadura militar a guerrilha. O autor revela pela primeira vez detalhes das torturas e assassinatos que vitimaram dezenas de pessoas na decada de 1970 na regiao do Araguaia, entre militantes do pc do b e simpatizantes locais.
Por outro lado, o livro tambem se deixa ler como um arrebatador panorama historico do Bico do Papagaio e do sudeste do Para que se transformam, a partir do relato de Nossa, numa especie de microcosmo dos conflitos sociais e fundiarios do pais. Mata! percorre quase duzentos anos na historia da regiao, incluindo tragedias recentes como a exploracao de ouro em Serra Pelada e os massacres de semterra, para compor um verdadeiro epico da desordenada ocupacao do territorio amazonico a partir do seculo XX.
Pode até parecer que é um livro sobre um comandante do exército reinando num espaço abandonado de Brasil, lutando contra guerrilheiros e garimpeiros e impondo sua vontade. Só que esse é, na minha visão, uma biografia do Araguaia. Tudo bem que foca no impacto que o Major Curió e os guerrilheiros tiveram na região, mas ainda assim, as histórias são sobre o Araguaia.