O Feitiço da Índia narra a história de três homens: José Martins, o primeiro português a tocar solo indiano, ido como degredado na armada de Vasco da Gama. Casado em Alfama com a moura Rosa, apaixonou-se por Rhema em Cochim, casou-se de novo e morreu em Goa, enfeitiçado pela Índia; Augusto Martins, o único português (não luso-indiano) a permanecer em território de Goa após a invasão das tropas da União Indiana em 18 de Dezembro de 1961. Casado em Lisboa com a mulher-a-dias Rosa, apaixonou- se em Salcete pela menina Rhema, filha de um brâmane, gerando Sumitha, morrendo em Goa enfeitiçado pela Índia; A história do narrador, descendente de José Martins e filho de Augusto Martins, que, em 1975, após o reatamento das relações entre Portugal e a União Indiana, partiu para Goa à procura do pai e ali permaneceu até hoje, vivendo com Rhema e Sumitha, enfeitiçado pela Índia. Através da experiência destas personagens inesquecíveis - e com a ironia e a qualidade a que Miguel Real nos habituou -, O Feitiço da Índia oferece-nos o retrato fascinante de Goa e da costa do Malabar, na Índia, em três épocas marcantes da sua história.
MIGUEL REAL nasceu em Lisboa em 1953. Fez a licenciatura em Filosofia na Universidade de Lisboa e, mais tarde, um mestrado em Estudos Portugueses, na Universidade Aberta, com uma tese sobre Eduardo Lourenço. Estreou-se no romance, em 1979, com O Outro e o Mesmo, com o qual viria a ganhar o Prémio Revelação de Ficção da APE/IPLB. Em 1995, voltou a ser distinguido com um Prémio Revelação APE/IPLB, desta vez na área de Ensaio Literário, graças à obra Portugal - Ser e Representação. Outra distinção importante surgiu em 2000, o Prémio LER/Círculo de Leitores, com o ensaio A Visão de Túndalo por Eça de Queirós. Em 2001, recebeu uma bolsa do programa Criar Lusofonia, do Centro Nacional de Cultura, que lhe permitiu percorrer o itinerário do Padre António Vieira pelo Brasil. A esse propósito escreveu um diário, editado em 2004, intitulado Atlântico, a Viagem e os Escravos. A partir de 2003, com a novela Memórias de Branca Dias, passou a escrever simultaneamente um ensaio e um romance para evitar incluir teoria (filosófica, principalmente) na ficção. Em 2005, Miguel Real lançou o romance histórico A Voz da Terra, cuja a ação decorre na época do terramoto de 1755, que viria a ter grande reconhecimento por parte da crítica e do público. A Voz da Terra proporcionou ao autor a conquista da edição de 2006 do Prémio Literário Fernando Namora, um dos mais prestigiantes galardões literários a nível nacional. Simultaneamente ao romance A Voz da Terra foi publicado o ensaio O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa, situado na mesma época. Já em finais de 2006 foi lançado o romance O Último Negreiro, sobre o traficante de escravos Francisco de Félix de Sousa, que viveu em São Salvador da Baía e Ajudá, no Benim. Paralelamente ao romance e ao ensaio, Miguel Real dedicou-se, regularmente, à escrita de manuais escolares e de adaptações de teatro, estas em colaboração com Filomena Oliveira. Começou a colaborar regularmente no jornal literário Jornal de Letras a partir de 2000.
Uma escrita brilhante, uma cultura vasta. e uma obra ficcionada muito interessante com componente histórica. Interessante sobretudo pela visão do que era a Índia aquando da chegada dos portugueses, o que foi aquando da invasão de Goa pela União Indiana (2º espaço temporal da obra) e por fim o 3º espaço quando o descendente do português mencionado no 2º espaço temporal vai à procura do que moveu o pai a ir para Goa e a por lá ficar. Gostei muito e descobri um escritor português de excelência.
The story of three men who went to India and fell in love with it. José Martins, the first Portuguese to touch Indian soil, was a condemned man that was given a chance to live if embarking to India; Augusto Martins, the father of the narrator, went to India for work, hoping to save enough to create his own business in Portugal; and the narrator, José Martins, who went in pursuit of his father.
I've enjoyed Miguel Real's writing style, but the plot went too much in circles, with so many pages which did not really add much to the story. Also the fact that it was José Martins (the youngest) narrating the lives of the three men's lives, without having actually seen what the others lived, was a bit odd.
Após a leitura do romance A Voz da Terra, fiquei curiosa sobre este autor, cuja escrita se assemelha à de Saramago pelo facto de não usar marcas de discurso directo e parágrafos muito longos que nos obrigam a lê-los de um fôlego. Assim, descobri por acaso este romance (O Feitiço da Índia) numa das minhas passagens pela Feira do Livro de Lisboa, que me despertou a atenção não só pelo título e colorido da capa, mas também pelo enredo intrincado. A narrativa desenrola-se através de flashforwards, culminando numa tragédia família imprevista, mas que talvez até já estivesse eminente, dada a repetição da história geracional de um português que se deslumbra de amores por uma indiana e quebra as regras culturais em nome desse amor. Por outro lado, este romance também retrata a crueza de alguns dos episódios mais importantes da nossa História, dos quais temos mais ou menos consciência de que não foram totalmente pacíficos. Numa prosa bastante fluída e fácil de entender, este romance é, em suma, uma leitura muito interessante dentro do género histórico.
Romance histórico no verdadeiro sentido do termo e do género, o mais difícil tipo de romance para se escrever, com recriação cuidada e fidedigna do contexto espácio-temporal. Muito bem conseguida a divisão/ligação das histórias de três gerações, estabelecendo a ponte do passado longínquo com o presente, em que os diversos acontecimentos deixaram as suas marcas.
𝑶 𝑭𝒆𝒊𝒕𝒊ç𝒐 𝒅𝒂 Í𝒏𝒅𝒊𝒂, de Miguel Real, é um romance sobre a colonização portuguesa de Goa e que põe em cena três gerações da família Martins. José Martins, primeiro português a desembarcar em solo indiano, foi na frota de Vasco da Gama (1498) como degredado; Augusto Martins, o único português a permanecer em Goa após a libertação deste estado, foi enviado por Salazar (anos 50) para ir trabalhar nas minas e Luís Martins, o narrador da história, descendente do primeiro, seu undécimo avó, e filho do segundo, parte em busca do pai (1975) para “o forçar a dar-lhe um terceiro beijo.” Nenhum deles regressou ao país natal. Os três se apaixonaram por mulheres indianas… os três foram enfeitiçados pela beleza e sensualidade das mulheres. Estas, as mulheres, são a metáfora da Índia, terra fascinante e exótica, terra de contrastes (cheiros, cores, sabores, sentimentos,… ) com hábitos e costumes tão díspar dos nossos; terra “cultora das virtudes da alma quanto dos prazeres do corpo” onde a sensualidade, pela sua natureza excessiva e erótica, é ”livre e despreconceituada” do mal e do tão arreigado pecado cristão. E é nessa união física, sensual, carnal que reside o feitiço da Índia.
Este romance representa um valioso legado histórico-cultural na medida em que transparece a qualidade da investigação histórica e a reflexão filosófica sobre a Portugalidade, tão cara ao autor. Neste romance prevalece a construção da identidade portuguesa aquando dos descobrimentos, sobretudo na relação com os povos e a sua presença na Índia (conquista, massacres, domínio, entendimento, abandono e decadência). O autor é exímio na construção da sua narrativa. Ora nos revela uma Índia miserável, nauseabunda, onde se morre de doenças, de fome, de miséria, ora nos retrata a sua riqueza cultural e espiritual, a beleza e a sensualidade da mulher. Ora nos presenteia, ainda, com a pequenez de Portugal, estado mesquinho sem visão e sem futuro que não soube gerir o grande império conquistado.
O choque de duas civilizações, estética e culturalmente tão distantes, uma Goa mais sensível e sentimentalista e um Portugal mais racional, conservador e calculista, é-nos retratado de forma realista, diria mesmo sensorial, já que a narração tão detalhada nos permite criar e viver intensamente os ambientes descritos. As histórias apresentadas revelam a crueza de alguns episódios nem sempre consciencializados por todos; descrevem o herói português em busca de fortuna que se deixa facilmente seduzir e deslumbrar; relatam a benevolência e, por que não, a bondade do homem português que encontrou um lugar e criou uma família, mesmo quebrando, por vezes, as regras culturais e religiosas; descrevem momentos de enfeitiçante erotismo, de experiências sexuais tão necessárias “para se viver bem espiritualmente”; narram hábitos e costumes geracionais de um povo submisso, maltratado, mas superior cultural e espiritualmente. É no cruzamento dos factos reais e dos factos efabulados que reside a beleza deste romance. Percebe-se o conhecimento histórico do autor, mas é, na minha opinião, a sua sensibilidade no relato que eleva esta narrativa. “ (…) elas [as mulheres] de alguidares de plástico americanos ou potes de barro à cabeça, saris vistosos e largos, que as assemelhavam a borboletas coloridas de voo caprichoso, todos descalços , olhos cor de mel , as faces resignadas dos eternamente pobres, os filhos passivos presos entre os panos das pernas, seres condenados ao opróbrio e à miséria.” (p. 115) Recomendo vivamente.
Uma viagem de 5 séculos. Para não esquecer a receita - "ia juntando o coco ralado ao óleo de palma (...) primeiro o caril, depois o arroz (...) açafrão,cominhos, alho cortado em laminazinhas, cebolinhas minúsculas em rodelinhas, novas especiarias, todas levadas ao pilão (...)"
Penso que o objectivo principal do escritor Miguel Real, foi a de magnetizar a nossa consciência ocidental para o ponto de vista não ocidental amarrado no tempo onde ocorrem a narrativa.
Bom livro, um exemplo de romance histórico para pseudo escritores que escrevem sem rigor nenhum. No meio de tanto livro mal escrito, este é uma lufada de letras frescas..