"Lentamente apaga-se o castelo. Todos estão pesados: exaustos ou apaixonados ou embriagados. Depois de tantas vazias, longas noites de campanha: camas. Camas largas de carvalho. Nelas reza-se de outra maneira, já não como nos sulcos miseráveis do caminho, que, quando se quer adormecer, são como sepulturas.
«Meu Deus, que seja feita a tua vontade!»
Na cama são mais breves as preces.
Mas mais íntimas."
Excerto de "A Balada de Amor e Morte do Porta-estandarte Christoph Rilke", Rainer Maria Rilke
Trad. Bruno C. Duarte, Edições do Saguão
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Rilke procurou distanciar-se deste poema ao longo da sua vida e esse movimento não teve qualquer repercussão na forma como o público o foi recebendo. Por um lado reconheço que está muito aquém das obras maravilhosas deste autor (o Livro de Horas, o Livro das Imagens, as Elegias do Duino são obras a que regresso ciclicamente, é um dos meus autores favoritos) e, por outro lado, compreendo o encanto que gerou e que continua a gerar — um pouco como as palavras que abrem o poema, "Cavalgar, cavalgar, cavalgar, pelo dia afora, pela noite adentro, pelo dia afora", também o poema parece ter seguido incansavelmente o seu rumo e desprender-se das rédeas do poeta.
Vejo o poema como algo que só amiúde evoca as narrativas da Antiguidade Clássica: para mim o imaginário mais rapidamente evoca uma união entre pinturas pré-rafaelitas e simbolistas; as passagens são breves, sucedem-se como se fossem fragmentos de sonhos... deixam impressões, rastos de sensações, de desejos, de ansiedade.