O problema não é o tema dos romances ou a posição social dos protagonistas. A história de um piolho pode ser tão boa como a história de Alexandre, o Grande - tudo depende da execução. Uma fórmula infalível, não concordam? O que importa é o sentido da forma, o controle, a discriminação, a selecção, a omissão, a disposição, o ênfase... e essa palavra porca, com quatro letras: arte. A história da nossa vida nunca é uma autobiografia, é sempre um romance - é esse o primeiro erro que as pessoas fazem.
Sem revelar demasiado, basta dizer que, entre os acontecimentos de Amor & C.ª e Amor & Etc discorreu cerca de uma década. Uma década de histórias, versões dessas histórias, acontecimentos vários e várias leituras deles... Uma década de relatos que vamos ouvir da boca de três narradores em quem, agora como sempre, não podemos confiar:
O Oliver e eu andámos juntos na escola. Éramos os melhores amigos. Depois eu trabalhei para um banco. Ele ensinava inglês a estrangeiros. Gillian e eu conhecemo-nos. Ela restaurava quadros. Aliás, ainda restaura. Conhecemo-nos, apaixonámo-nos, casámos. Cometi o erro de pensar que era o final da história, quando era apenas o início. Acho que é um erro que muita gente faz. Vemos demasiados filmes, lemos demasiados livros, acreditamos demais nos nossos pais.
Nesta década os mal entendidos, as meias verdades, as boas intenções e as más ações continuam presentes, mas a situação escalou, escalou depressa e onde antes tínhamos snobes enfatuados, bonacheirões ofensivos mas inofensivos (ou assim nos pareciam), agora temos hipócritas envelhecidos, rancorosos bafientos e manipuladores doentios:
Eu negociava no trabalho e depois negociava no prazer. E conhecia muito bem esses dois mundos. As pessoas que não conhecem nenhum deles pensam que é tudo um mundo cão. Que o homem de fato cinzento está ali para nos enganar, e que a pega com perfume a mais revela ser um transsexual brasileiro, assim que apresentamos o cartão de crédito. Pois bem, posso afirmar que recebemos quase sempre aquilo que pagamos. Quase sempre as pessoas fazem o que dizem que farão. Quase sempre negócio é negócio. Quase sempre podemos confiar nas pessoas. Não quer dizer que deixemos a carteira aberta em cima da mesa. Não quer dizer que entreguemos cheques em branco e voltemos as costas no momento errado. Mas sabemos o chão que pisamos. Quase sempre.
Não, a verdadeira traição ocorre entre amigos, entre aqueles que amamos.
De alguma forma, e se eu pensava que já o Amor & C.ª conseguia ser perturbador, Barnes conseguiu, nesta sequela, trabalhar a sua anterior sátira até à exaustão - ou completude, depende da perspectiva -, transformando-a num relato tétrico de paixões obsessivas. Ao estilo do seu antecessor, Amor & Etc, atira a comicidade ao ar, mas mantém o estilo confessional, transformando o leitor ora no psicanalista ora no psicanalisado (tal é a força da comparação a que nos obriga), repetidamente interpelando e requisitando a nossa atenção já não como forma de absolvição, mas antes de cumplicidade:
É a infâmia que destrói o amor. E as leis, as propriedades, as preocupações financeiras e o estado policial. Se as condições tivessem sido diferentes, o amor teria sido diferente.
Não é, continua a não ser, tal como o anterior, um livro que deixe os leitores confortáveis, de todo! É um livro duro, frio até, de certo modo, e um livro no qual são as personagens que assumem todo e qualquer controlo e predam das fraquezas do leitor envolvendo-o à força numa ménage desassossegante, vertiginosa e sufocante.
Amor & Etc confronta-nos com verdades e possibilidades desagradáveis, com personagens odiosas, azedas, imperfeitas e incorrigíveis, e uma visão negra e amargurada sobre a vida, o amor e as relações interpessoais. Mas, se sobrevivemos a tudo isso, ler estes dois livros funciona como uma jornada de esclarecimento - não espiritual, mas emocional - e estas bofetadas literárias de abrir os olhos não têm preço.
Não creio nos deuses, é óbvio, a não ser como uma espécie de metáfora. Mas acredito que a vida é trágica, se ainda podemos usar este termo. A vida é um processo em que os nossos pontos fracos são inevitavelmente descobertos. É também um processo durante o qual somos castigados pelas nossas acções e desejos anteriores. Não justamente castigados, não - é a isso que me refiro quando digo que não acredito em deuses -, mas castigados, pura e simplesmente. Castigados de um modo anárquico, se quiserem.