Num sábado de inverno de boas ondas e correnteza forte, dois garotos caem no mar para surfar. Um deles é o narrador do livro e o outro é Jaime, seu melhor amigo. Em Albatroz, balneário do Rio Grande do Sul, onde costumam passar as férias, eles vivem as primeiras experiências da adolescência. Um incidente ocorrido no mar naquele dia vai marcar de forma radical a vida do protagonista. No momento em que conta a história, o narrador - agora com quase trinta anos, morando em São Paulo - vive um período de fragilidade psicológica. Além da história da amizade com Jaime, que vai sendo descrita de forma oblíqua e alusiva, o narrador rememora a rotina opressiva dos tempos de colégio. Volta também a lembranças de Laura, ex-namorada de Jaime, por quem se sentia atraído - e que desempenhará papel fundamental na sua vida adulta. "Nada pode ser tão banal, mas não é bem disso que estamos falando." A frase que abre o livro é o resumo de como os temas se apresentam: depois do mote inicial - uma relação de amizade e um breve namoro de verão - segue-se o relato de uma formação intelectual e afetiva. Aos poucos, o leitor descobre que, por trás da leveza narrativa e do encadeamento fluente das memórias do protagonista, Longe da água é uma narrativa intensa e reveladora sobre a entrada no mundo adulto, a descoberta da dor e os efeitos duradouros da perda e da culpa.
Michel Laub was born in Porto Alegre, in 1973, and lives in São Paulo. He is a writer and journalist, he was editor-in-chief of Bravo magazine and coordinator of publications and internet at Instituto Moreira Salles. Today he is a columnist for Folha de S.Paulo, in addition to collaborating with several publishers and vehicles. He published six novels, all published by Companhia das Letras: Música Anterior (2001), Longe da água (2004), O segundo tempo (2006), O gato diz adeus (2009), Diário da queda (2011, with rights sold to the cinema)) and A maçã envenenada (2013). His books have been released in 12 countries and 9 languages. He is one of the members of the edition The best young Brazilian writers, of the English magazine Granta. He received the JQ - Winagte (England, 2015), Transfuge (France, 2014), Jabuti (second place, 2014), Copa de Literatura Brasileira (2013), Bravo Prime (2011), Bienal de Brasília (2012) and Erico Verissimo awards (2001), in addition to being a finalist in the Correntes de Escrita (Portugal, 2014), São Paulo de Literatura (2012 e 2014), Portugal Telecom (2005, 2007 e 2012) e Zaffari&Bourbon (2005 and 2011) awards.
Entre a fluência e o repuxo, a narrativa vai te dando uns caldos justo quando você está ali, flutuando ao sabor da maré, sem perceber os sargaços vivos, te roçando a pele. O ar voltará penetrando o nariz com um canivete gelado de areia e sal. Pontapé pra ler "A Maçã Envenenada", de que tanto falam.
Primeiro berço da humanidade e o elemento a que se deve a vida sobre a Terra, poucas coisas no planeta são tão carregadas de simbolismo como a água. Michel Laub se vale disso para tecer em seu segundo romance, Longe da Água, uma história de amor ao mesmo tempo simples e carregada de interpretações. E prova que água pode ter gosto.
Longe da Água é quase linear: a história de um reencontro amoroso contada por um único narrador, um jovem editor gaúcho residente em São Paulo. No início do relato, ele é um homem de 30 anos convalescendo de algo que o leitor só descobrirá do que se trata no fim da trama. A partir daí, o nunca nomeado protagonista retrocede até sua juventude e os eventos se sucedem em ordem cronológica.
Com prosa segura, Laub disseca a construção da personalidade arredia e introspectiva do protagonista. Cada fato vivido vai ecoar na formação emocional do jovem: a infância e a adolescência vividas entre Porto Alegre e a praia de Albatroz, no litoral gaúcho; as dificuldades de interação na escola; a timidez que determina uma vida cercada de livros e a descoberta do amor na figura da ex-namorada do melhor amigo.
Os capítulos narrados em primeira pessoa alternam-se entre o passado do protagonista e o que ele sabe da história da garota. A ligar os destinos de ambos, a presença forte e carismática do surfista aime, melhor amigo dele e primeira paixão dela. Jaime morrerá no mar em um acidente, e Laura e o narrador encontrarão um no outro consolo para a perda. Ele se apaixonará por ela, mas ambos se afastarão abruptamente, deixando para o protagonista somente a lembrança de um beijo.
A novela de Laub brinca com a estrutura clássica do romance de formação. As experiências de juventude envolvendo Laura e Jaime só vão completar o ciclo de amadurecimento do narrador depois que ele e a garota se reencontrarem, 10 anos depois – na Feira do Livro, em Porto Alegre. A água não é apenas título, também pontua o enredo, apresentando a intervalos significados de útero e de abismo, de proteção e de ameaça. Nela Jaime encontrará a morte. Nela Jaime ajudará o narrador a renascer para o convívio social incitando-o à prática do surfe. À beira d’água Jaime domina as recordações, e é simbólico que antes de reencontrar sua paixão perdida o narrador resolva mudar-se para São Paulo, a antítese do litoral. Como a fugir da lembrança e de uma culpa também ligada à água, em um mistério que só será revelado ao fim da narrativa.
À medida que o livro se encaminha para o fim, pequenos defeitos turvam a superfície plácida da história – depois de exposta em minúcias na juventude, Laura volta à vida do narrador sem que quase nada se diga sobre sua personalidade. O próprio convívio entre ambos depois do reencontro é abreviado até o limite da secura – como se Laub não tivesse bem claro o que fazer com o casal depois de reuni-lo outra vez. Mesmo com a queda de ritmo ao final, Longe da Água é uma narrativa cheia de frescor.
Michel Laub trata os personagens com muito carinho e zela por um texto limpo, sem diálogos, travessões e momentos específicos da trama. Não é uma leitura fácil em comparação aos textos lineares e "normais", mas um texto acima da média e de fácil digestão. Inspirador. Gostei muito.
a narrativa tem um suspense que nos mantém grudados. a linguagem é ótima, super fluida e sofisticada ao mesmo tempo. o final porém parece que houve uma certa tentativa moral de dar um troco ao protagonista. mas, de qualquer forma, vale super a leitura. michel laub é um dos escritores contemporâneos que mais gosto.
Confuso no começo, mas instigante, como todo bom livro. Sentimentos muito reais, personagens prontos pra pular das páginas e estarem bem ali do seu lado.