“Hasu, quando te perdi” é o segundo livro da série literária “A Primavera de Nossas Vidas”, que começou com “Sakura, quando te encontrei”. Como o próprio título da série indica, a primavera é um elemento muito presente, mas não a estação, como nós costumamos associar. Está mais para um conceito, como a autora nos mostra em “Sakura”, de que não tem a ver somente com uma estação do ano, mas com sentimentos, emoções e experiências. Citando um quote de Sakura, “eram aquele desabrochar único, que poderíamos levar quase uma vida inteira para viver”.
O porquê estou dizendo isso? Assim como a primavera é conhecida pelas flores, os livros dessa série trazem cada um, uma flor no título. Em “Sakura” conhecemos a flor de cerejeira, com um significado que combina com o livro. E aqui, em “Hasu”, temos a flor de lótus que também se conecta a história.
E isso é só uma parte do que me faz gostar dos livros.
A verdade é que, lendo “Sakura”, eu sabia que iria gostar da história do Quinn. Ele chegou meio de mansinho e quando dei por mim, com uma cena arrebatou meu coração. Conclui “Sakura” o amando e querendo muito uma história dele, para conhecer o lado dele e o ver se desvincular de tudo o que o fazia mal.
Descobrir que Emma viria a ser o par romântico dele foi uma surpresa. Uma grata surpresa. Apesar de não fazer ideia de como o romance viria a surgir, até disse à autora em uma mensagem que já os shippava demais, porque ambos mereciam ser amados e cuidados. E após concluir essa história, é, continuo sentindo o mesmo.
Quinn passou por muita coisa que ninguém deveria passar nessa vida, mas, infelizmente, é a realidade de alguns. Não posso falar quanto ao período antes de ser adotado, porque seria spoiler até mesmo para quem já leu o livro anterior, mas a infância ao lado da mãe adotiva foi ótima, porque teve ali uma mulher maravilhosa. Aika é, sem dúvidas, uma das melhores mães literárias que já tive o prazer de conhecer. Melhor dizendo, uma das melhores mães fictícias, independente da área. E para Quinn, que já tinha traumas, a perda dela o colocou em um buraco fundo da qual não conseguia escapar, afundando cada vez mais. O que aconteceu com Blue, sua ex-namorada, e a descoberta que fez naquele mesmo momento, só abriu mais espaço naquele poço onde se afundava. Quinn não via como sair e sendo sincera? Ele também não quis por um longo tempo. Essa recusa o tornou uma pessoa que, diferente do que senti nas últimas páginas de Sakura, no início de Hasu, detestei. Não por completo, veja bem, mas em determinados momentos.
Logo de cara ele nos destrói na quebra da quarta-parede que há após a nota da autora e mais ainda no prólogo. Ele nos deixa sem chão com suas palavras que trazem tanto dos seus sentimentos mais profundos e dolorosos. Com flashbacks que nunca vimos e um que conhecíamos bem. Esteve em Sakura, só que pelo olhar do samurai, o Hayato.
Conforme vamos lendo e outros pontos de vista vão aparecendo, como os da Emma, a protagonista, nosso coração é mais destroçado por Quinn, mas também por tudo que Emma vive e todo o sofrimento dele.
É o que disse a outras leitoras, não o achei babaca lá pelo inicio, mas creio que ele teve atitudes que o tornaram um em certas ocasiões. Foram coisas que, com uma boa terapia, não teriam acontecido. Para mim, Quinn tem um motivo plausível para ser mais fechado, mas que não justifica essas atitudes. Só davam um plano de fundo para contextualizar que não fez por querer, mas atrelado a achismos vindo de traumas passados que continuavam o afetando.
Quanto à Emma, terapia também teria sido muito útil na vida dela.
Em “Sakura” a conhecemos como a garota divertida, que vai para a cama com os amigos sem desenvolver sentimentos, tem problemas com a mãe alcoólatra e faz tudo pelo irmão. Mas não nos é mostrado um terço do quão profundo tudo é para ela e para Heitor. Aqui vemos melhor como sua vida é, tudo pelo que já passou e passa todos os dias, em casa, no trabalho e em sua própria mente, advindo dos comentários que já escutou e de tudo que já viveu. A sua dificuldade em reconhecer ajuda como não somente um ato de pena, mas também podendo ser de amor, foi algo que me incomodou, mas que, analisando tudo, condiz com ela. E teria sido algo que, com certeza, trataria em uma terapia.
É importante reforçar aqui que, por mais que eu esteja dizendo que deviam ter feito e não fizeram, isso é sobre o inicio e meio da história, quando tudo ainda está se desenvolvendo. Traumas e problemas como os dele não somem do dia para a noite, há muitas coisas entrelaçadas que custam a se desenrolar e precisam também do querer, o que, até para isso, leva tempo. Requer coragem, força e por mais que Emma a tenha, e até Quinn, de certo modo, quando se vive assim o tempo todo para que ninguém te veja desabar, para que só possa fazer quando está sozinho, ter essa mesma coragem e força se torna difícil. Ser assim o tempo todo te põe em modo automático e sair desse ciclo seria desmantelar toda a zona de conforto – dolorosa, mas de conforto – que se colocou.
A resenha está enorme, então vamos aos finalmente sobre a história e depois finalizo falando da escrita da Thali, porque é importante frisar isso aqui também.
Em “Hasu, quanto te perdi” temos uma carga dramática ainda maior que em “Sakura”, porque se lá tínhamos o luto e o abuso como temas – além de outros, mas focaremos nesses –, aqui temos o luto, relação familiar abusiva, vícios, dentre outros (que, assim como no outro livro, está citado na nota da autora). Então, ao decidir ler, você precisa saber que encontrará sofrimento. Odiará ainda mais personagens (olá, Blue!) e descobrirá novos para odiar, enquanto se apaixona mais por outros, até que já conhecemos (olá, Aika e Alex!). Mas paralelo a isso, terá cenas de encher seu coração de amor.
Quinn e Heitor foi a parceria mais inesperada nessa história para mim, mas que amei tanto. O cuidado dele com o irmão de Emma me deixou mais e mais apaixonada por Quinn e foi Heitor, não ela, que começou a muda-lo aos poucos. Como Quinn mesmo diz em uma cena: “ele me fez sorrir de novo, com tanta facilidade que talvez eu tenha sorrido genuinamente mais nesse curto tempo do que durante todos os anos que viajei”. Mas Emma foi sim de grande importância para isso, assim como Hayato e Angelina, cada um no seu tempo.
As cenas hot – porque, lembrando, é um livro erótico – não decepcionam em nada. Acho que até já é uma boa hora para falar da escrita da Thali, porque ela tem um poder com as palavras onde os sentimentos estão em toda parte e muito bem descritos. Mesmo uma cena de conteúdo sexual não é meramente isso. Ali também está em cada gesto e palavra e até mesmo nas falas dos personagens o que eles sentem. Não só no sentido de estarem gostando ou não, mas como se sentem. Sobre a vida, sobre o que está acontecendo fora daquele momento e dentro dele, em suas cabeças, e até um sobre o outro. Tudo o que não dizem em outro momento, transmitem ali, com seus corpos. Cabe ao outro entender ou não.
E esse poder de escrever tão bem, de narrar emoções tão bem se perdura por toda a história. Até mesmo nos momentos de quebra de quarta-parede que também aparecem aqui, assim como no livro anterior.
Thalissa foi uma autora que já vi tendo seus livros indicados, mas nunca peguei para ler até “Sakura” surgir para mim no Instagram. Com um reels, ele chamou minha atenção. Li pelo Kindle Unlimited e foi ali que soube que leria todos os outros livros da série. Esse é o tanto que, com um só livro, Thali conseguiu tornar todos seus personagens cativantes aos meus olhos. Um mais do que todos e ele bem sabe que tem fã-clube por aqui, inclusive (Oi de novo, Alex!).
No fim, a minha dica é: leia “A Primavera de Nossas Vidas”. Descubra novos significados para o que, por tanto tempo, se pareceu com uma mera estação. Conheça novas culturas através do olhar de nossos personagens. Vejo tudo o que essas histórias trazem, representam e as mensagens que transmitem. E claro, façam terapia!
“Meu apartamento estava repleto de telas, tintas, sons e amor. Não estava mais sozinho. Ela era o desabrochar sutil das flores após o inverno. E com ela ao meu lado, nossa primavera duraria muito mais do que cem anos.”