Celebrada como uma das figuras centrais da crítica hispano-americana das últimas décadas, a argentina Sylvia Molloy (1938-2022) foi também uma escritora inquieta e original. Autora de dois romances, Molloy criou em seus últimos livros — Desarticulações e Vária imaginação — uma forma breve e singularíssima, capaz de pôr em curto-circuito os territórios do factual e do ficcional, da memória e da invenção. Em Vária imaginação, de 2003, os fragmentos rememorados vão aos poucos formando um vívido “léxico familiar”, um sintético romance de formação na Argentina dos anos de guerra e pós-guerra que dá a ver a parte do imaginá-rio em toda constituição pessoal e coletiva. Com Desarticulações, de 2010, a escrita de Molloy aventura-se em território oposto, o de uma separação amorosa que se desdobra num lento e trágico divórcio entre o corpo e as ficções — literárias, amorosas — de uma vida vivida em comum. Nessa breve obra-prima (verdadeira versão às avessas do “Funes, o memorioso” de Borges), Molloy conduz a narrativa a um encontro com tudo que a nega, a um lugar belo e terrível em que brilham o fato mais duro e o afeto mais puro.
Sylvia Molloy is an Argentine writer and critic who has taught at Princeton, Yale and NYU, from where she retired in 2010. At NYU she held the Albert Schweitzer Chair in the Humanities. She is the author of two novels: En común olvido (2002). She has also written two short prose pieces, Varia imaginación (2003) and Desarticulaciones (2010). Her critical work includes La Diffusion de la littérature hispano-américaine en France au XXe siècle (1972), Las letras de Borges (1979), At Face Value: Autobiographical Writing in Spanish America (1991), Poses de fin de siglo. Desbordes del género en la modernidad (2013), and edited volumes such as Hispanisms and Homosexualities (1998) and Poéticas de la distancia. Adentro y afuera de la literatura argentina (2006). She has been a fellow of the Guggenheim Foundation, the National Endowment for the Humanities, the Social Science Research Council, and the Civitella Ranieri Foundation. She has served as President of the Modern Language Association of America and of the Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana and holds an honorary degree in humane letters from Tulane University.
In 2007 she created the MFA in Creative Writing in Spanish, with the collaboration of Lila Zemborain and Mariela Dreyfus. The MFA is the first program of its kind in the United States. It is modeled along the lines of the NYU MFA in Creative Writing in English, taking advantage as well of a similar, bilingual Program, at University of Texas at El Paso. Classes and workshops are taught in Spanish and students are mostly Spanish, Latin American or Latino.
"não me custou muito acostumar a vista, porque a lua cheia iluminava tudo. no terreno baldio, branco de luz, havia quatro ou cinco vacas que brincavam e se divertiam empurrando umas às outras. eu nunca tinha visto vacas dançarem à luz da lua. mas também nunca tinha visto uma mulher morta na tela da televisão no dia do próprio enterro. essas duas imagens, nítidas, me perseguem: uma vista, a outra imaginada, as duas inesquecíveis, mas sempre juntas".
« Essa defasagem me persegue, impede que eu me instale completamente na cronologia corrente, muito menos nessas estações invertidas cujas temperaturas, quando há muitos anos mudei de hemisfério, me exigiram uma longa aprendizagem. Agora é abril, mas as vezes acho que estamos em setembro. Sei que o verão está para chegar, com suas chuvas e sua umidade, quase o pressinto no vento fresco que às vezes sopra de tarde. E também o pressinto no latido desolado de um cão que chega até mim dos fundos de uma casa, que é o do cachorro dos fundos, em Olivos, que latia quando sentia frio. Estou em Buenos Aires, digo a mim mesma, estou na casa dos meus pais. Não, não fui embora. Está esfriando, é melhor eu entrar. »