Um livro que traz muitos aspectos interessantes sobre os traumas de infância na formação da personalidade do adulto. Fica em destaque no livro a critica da autora àqueles (especialmente psicólogos) que insistem em não mencionar ou até mesmo memosprezar as problemáticas associdas aos maus tratos e abusos à criança. A autora é enfática ao afirmar a importância de se olhar para os métodos de criação adotados até hoje e como mudá-los poderia refletir em um mundo muito melhor.
Passagens que considerei importantes:
- Pedagogia negra é uma educação que visa dobrar a vontade da criança, transformando-a num ser submisso e obediente, por meio do emprego explícito ou velado do poder, da manipulação e da repressão. Prefácio.
- Atualmente a medicina já não nega que nosso corpo armazena todas as informações sobre as experiências da nossa vida, mas frequentemente não sabe como decifrar essa história; mesmo assim constatamos que sintomas de doenças graves podem desaparecer quando conseguimos realizar essa decifração.
Quando o sistema cognitivo afirma o contrário daquilo que está infalivelmente armazenado nas células, a pessoa permanece numa guerra constante consigo mesma. Tão logo se permite que ambas as instâncias saibam a mesma coisa, as funções normais do corpo podem ser recuperadas. Prólogo.
- Naturalmente, a pessoa já chega ao mundo com uma história, a dos nove meses entre a concepção e o parto, e também com uma marca genética herdado de seus pais e das respectivas famílias. Ambos em conjunto determinam seu temperamento, suas tendências, seus talentos e suas aptidões. Mas a formação de seu caráter depende da possibilidade de ela receber já no início da sua vida, ainda no útero da mãe, afeto, proteção, carinho e compreensão ou então rejeição, frieza, incompreensão, indiferença, quando não crueldade.
Neurobiólogos descobriram que crianças traumatizadas e tratadas com extrema negligência apresentam lesões evidentes nas regiões do cérebro que comandam as emoções, e que até um terço do cérebro pode ficar prejudicado. A ciência explica essa descoberta com o fato de que os traumas graves em bebês provocam uma grande descarga de hormônios do estresse, que destroem tanto os neurônios já existentes como também os recém-formados e suas interligações. Pg 4.
- A crueldade sofrida faz com que a pessoa não consiga desenvolver sentimentos de empatia pelo sofrimento alheio. Ao memso tempo, com uma bomba-relógio dentro de si, essas pessoas aguardam insconscientemente a oportunidade adequada de descarregar nos outros a raiva armazenada e nunca extravassada. Pg 5.
- Precisamos de uma porta aberta a nosso próprio passado para perceber que só se pode entender uma vida quando se consegue levar a sério o seu começo. Pg 10.
- O Psicólogo James W. Pennebaker constatou em seu experimento que o estado de saúde melhora quando a pessoa tem a possibilidade de comunicar as suas vivências dolorosas a alguém, com cujo interesse e compreensão ela pode contar. Pg 13.
- Só a descoberta da verdade e das consequências lógicas das estratégias infantis torna possível a libertação delas e das suas repetições quase automáticas no momento presente. E isso só pode ocorrer na segurança de um companheiro íntegro. O processo de cura requer as duas coisas, a confrontação com a infância traumática e também a revelação dos inúmeros mecanismos de defesa, cuja criação foi necessária para proteger a criança das dores insurportáveis. Mas o adulto pode fazer ambos. Pg 23.
- Muitos terapeutas acham o trabalho com a infância prejudicial, porque o paciente se sente uma vítima, em vez da pessoa adulta e responsável que é no presente. Também estou convencida de que a pessoa adulta é responsável pelo seu comportamento, e só foi uma vítima indefesa quando ainda era criança. Mas, na minha opnião, justamente o fato de conhecer a própria história pode ajudá-la a entender por que continua se sentindo uma vítima indefesa. Na psicoterapia ela pode aprender a entender isso e abandonar a postura de vítima. Pg 25.
- O cardiologista Dean Ornish escreveu em seu livro "Love&Survival", que os doentes cardíacos que viviam relacionamentos estáveis teriam maiores possibilidades de sobrevivência do que os solitários, e prova essa afirmação com dados estatísticos. Pg 27.
- As marcas produzidas pela realidade traumática da infãncia, leva o paciente a uma programação para o medo, submissão, a moldagem, a autonegação e a cegueira. Sem o reconhecimento dessa origem, a suposta liberação, por exmplo, através da PNL, da terapia comportamental e muitos outros métodos no contexto de técnicas de automanipulação, permanece temporária. O efeito positivo pode eventualmente durar algum tempo, e sob condições externas favoráveis até bastante tempo, mas a compulsão de repetir a experiência traumática da infância, em si mesmo, nos filhos ou em outras pessoas não pode ser eliminada dessa forma. Quando as condições externas pioram, esse impulso repetitivo pode ser reativado, sem que a automanipulação aprendida seja suficiente para eliminá-lo.
E nem pode ser diferente, pois afinal nosso corpo conhece toda nossa história, e nossa alma abriga aquilo que quer nos dominar e nos dirigir totalmente, como o que a criança aprendeu de seus pais nos primeiros meses e anos de vida. Por isso o corpo não pode fazer outra coisa senão ceder, submeter-se e obedecer. Porém, de vez em quando ele sinaliza sua aflição por meio de sintomas (como doenças).
Não conseguimos ir muito longe quando tentamos fugir da verdade contida em nós. Ela sempre nos acompanha nessa fuga, provoca dores, empurra-nos às ações das quais nos arrependemos depois, fortalece nossa confusão e enfraquece nossa autoconsciência. Mas, quando a enfrentamos, temos finalmente a oportunidade de saber o que ocorreu, o que faltou e o que nos conduziu a uma vida emocionalmente vazia. Pg 29.
- Quando se convence uma criança de que ela está sendo humilhada e maltratada para o seu próprio bem, eventualmente essa crença permanece durante a sua vida toda. No futuro, essa pessoa vai maltratar seus filhos da mesma forma, convencida de que está realizando uma boa ação. Mas o que acontece com a raiva, com a ira e com a dor que ela teve de reprimir quando criança, ao apanhar dos pais e além disso ainda ser obrigada a aceitar esse tratamento como uma boa ação?
Todas essas questões se aproximam da resposta a minha pergunta: como surgiu o mal no mundo? Para mim, fica cada vez mais claro: o mal é recriado a cada geração. O recém-nascido é inocente. Qualquer que seja sua constituição genética, o recém-nascido não capta o impulso de destruir vidas, mas quer ser bem tratado, protegido e amado, e também amar. Quando essas necessidades não são satisfeitas, quando em vez disso ele é maltratado, dá-se um encaminhamento inadequado à sua vida. Uma pessoa só se sente compelida à destruição quando sua alma, no começo da sua vida, foi torturada. Uma criança criada com amor e atenção não se sente motivada para a guerra. O mal não pertence necessariamente à natureza humana. Pg 35.
- Todas as más experiências podem ser impunemente descarregadas no próprio filho, porque o assassinato da sua alma pode ser camuflado com palavras como educação e disciplina.
Descobri que em todos os casos nos quais a vítima não se transformou mais tarde em algoz havia uma pessoa afeiçoada à criança que lhe possibilitou perceber os maus-tratos sofridos como injustiça. Essa pessoa é chamado por mim de testemunha auxiliadora. Nos casos em que ela esteve presente, a criança teve a possibilidade de comparar as atitudes, perceber que foi maltratada e então identificar-se com aquela pessoa amiga.
Nos casos em que essa pessoa amiga não esteve presente, em que inexistia qualquer alternativa à crueldade, em que nenhuma testemunha auxiliadora pôde confirmar a percepção da criança de que estava recebendo maus-tratos, ela corre o grande risco de encarar as torturas sofridas como um tratamento benéfico para ela, e mais tarde, sem nenhum peso na consciência, aplicá-lo em outras pessoas. Seria a ideologização da hipocrisia. Adolf Hitler aprendeu na casa dos pais a considerar necessários e corretos os espancamentos e humilhações a que era submetido, e mais tarde, como adulto, passou a agir desse modo quando afirmou ter de salvar a Alemanha eliminando os judeus. Outros ditadores ideologizaram, de forma semelhante, seus atos de vingança. Pg 37.
- Uma criança espancada não aprende o erro cometido, e sim a ter medo dos pais. Ela também aprende a menosprezar suas dores, a não senti-las e a se sentir culpada. Como era indefesa quando foi agredida, ela aprende a acreditar que uma criança não merece proteção nem respeito.
Essas mensagens distorcidas são armazenadas no seu corpo como informações, determinando sua visão de mundo, e mais tarde sua postura em relação aos outros e a si mesma. Essa criança entenderá a linguagem da violência como o único meio eficaz de comunicação e fará uso dela, pois geralmente o adulto prefere que o seu antigo sentimento de impotência permaneça reprimido. Pg 39.
- É compreensível que adultos não queiram saber das suas dores e mantenham-se atrelados a esse sistema para não se confrontarem com o sofrimento, tão cedo reprimido. Porém, a raiva armazenada no corpo da criança espancada tem sede de vingança e de extravassão. Pg 40.
- Quanto mais cedo é aplicada a violência, mais permanente é o efeito do que foi aprendido e menos ele consegue ser controlado pela mente consciente. Basta surgir uma oportunidade para liberar a brutalidade contra os outros ou contra sí mesmo (suicídio). Pg 41.
- Estamos acostumados a não falar das angústias da nossa infância, e é disso que muitas vezes provém o ato cego de ódio. Pg 43.
- Quando crianças, as pessoas constroem um ego falso e não sabem que possuem outro, em que as necessidades e os sentimentos reprimidos permanecem confinados, porque essas pessoas nunca encontraram alguém que as tivesse ajudado a entender a sua angústia e a expressarem os seus verdadeiros sentimentos e necessidades.
O objetivo é sempre a manutenção da vida mentirosa, para que a pessoa finalmente consiga obter a atenção ou a admiração que lhe foi tão dolorosamente subtraída na infância. Pg 46.
- Uma criança pequena não poderia sobreviver à verdade, ela precisa reprimi-la por razões puramente biológicas. Mas essa repressão, esse desconhecimento da própria origem têm um efeito destrutivo. Pg 62.
- As piores privações materiais não chegam a prejudicar o caráter da criança, enquanto sua integridade não é violada com hipocrisia, os maus-tratos, os castigos e as humilhações emocionais.
- Uma criança não nasce com o cérebro totalmente desenvolvido, ele vai se estruturando gradualmente ao longo dos três primeiros anos de vida. As mensagens que o cérebro assimila nesses primeiros anos às vezes ficam gravadas com muito mais força do que as informações posteriores.
Mães, não fiquem aflitas se as suas mãos de repente escorregarem; vocês passaram muito cedo por essas experiências dolorosas, isso acontece quase automaticamente. Mas nunca digam aos seus filhos que o fizeram para o bem deles, porque assim estarão contribuindo para a estupidificação e o sadismo velado. Pg 76.
- Quando uma criança pequena é espancada ou maltratada de algum modo, isso pode provovar danos, porque numa situação de estresse os neurônios recém-formados e suas ligações podem ser destruídos. Aliás, isso também pode ocorrer quando se transmite um estímulo intenso ao cérebro do feto, por exmplo, tocar música horas a fio para que nasça um Mozart. Para poder ter seu cérebro livremente desenvolvido, a criança precisa do seu ritmo próprio de estimulação, e não de uma situação externa, forçada e artificial. Há um consenso de que as primeiras emoções deixam vestígios no corpo, quando então as informações são codificadas e vão influenciar, na idade adulta, nossa forma de pensar e de agir, mas permanecem inacessíveis ao entendimento consciente e lógico. Pg 77.
- Quando crianças, aprendemos a reprimir e as negar sentimentos naturais. Aprendemos a achar que as humilhações e as surras são para o nosso bem e não nos provocam dores. É porque nosso cérebro está equipado com essa falsa informação que educamos nossos filhos com os mesmos métodos, e convencemo-los de que para eles também é bom o que supostamente foi bom para nós.
Por isso milhões de pessoas podem afirmar, com toda seriedade, que as crianças só se tornam boas e comportadas com o emprego da violência. Essas pessoas não se importam com o medo que provocam nos seus filhos, e recusam-se a entender que com as surras elas praticamente ensinam as crianças a utilizar, no futuro, a violência contra os outros ou contra si mesmas. Pg 80.
- A criança espancada só consegue mesmo lembrar-se do medo que sentiu, das expressões dos pais raivosos, mas quase nunca do motivo. A criança vai achar que foi má e que mereceu o castigo. Qual o efeito pedagógico positivo disso? Pg 81.
- Mas os vestígios dessas dores não se extinguiram. Se eles estivessem extintos, não precisaríamos repetir sempre o que nos infligiram. As partículas de lembranças, que consideramos apagadas, continuam ativas em nós. Só reconhecemos isso quando tomamos consciência das nossas formas de comportamento. Assim, o esquecimento dos antigos traumas e negligências não nos traz nenhuma solução, pois o passado domina os relacionamentos com os nossos semelhantes, e sobretudo com os nossos filhos.
Por um lado, os bloqueios de pensamentos são nossos "amigos" porque nos protegem da dor e permitem-nos abafar os medos do passado. Mas por outro lado, justamente por isso, eles podem revelar-se como inimigos, porque nos presenteiam com a cegueira emocional. Para não precisar sentir o medo e a dor da criança surrada, renunciamos ao conhecimento da afirmação da vida, deixamo-nos seduzir por seitas, não enxergamos as mentiras, achamos que as crianças precisam apanhar, etc. Pg 82.
- Já foi provado cientifica e estatisticamente que as crianças espancadas e castigadas são mais obedientes a curto prazo, mas a longo prazo tornam-se mais agressivas e destrutivas.
Só as pessoas que apanharam sentam a compulsão (o que não quer dizer que todas cedam a ela) de bater no seus filhos. Pessoas que não foram castigadas simplesmente não têm esse problema, porque seu corpo não armazenou as lembranças correspondentes. Pg 86.
- O corpo sabe de tudo o que lhe aconteceu, mas não consegue expressá-lo com palavras. Ele é como a criança que fomos um dia, a criança que tudo vê, mas que é indefesa e impotente sem a ajuda dos adultos. Portanto, quando as emoções do passado vêm à tona, elas são acompanhadas pelo medo da criança que se sente vulnerável, que depende da compreensão ou pelo menos da serenidade dos adultos.
Contrariamente ao corpo, o sistema cognitivo não sabe muita coisa sobre acontecimentos passados; as lembranças conscientes são sempre fragmentadas e não confiáveis. Em compensação ele dispõe de um conhecimento abrangente, uma razão desenvolvida e uma experiência de vida que ainda falta à criança. Como o adulto não é mais impotente, ele pode oferecer à sua criança interior (o corpo) proteção e um ouvido atento, para que ele possa se expressar a seu modo e contar a sua história. À luz dessa história, os medos e as emoções incompreensíveis do adulto que vão aflorando adquirem os seus significados. Finalmente eles se encaixam num contexto e não são mais ameaçadores. Pg 90.
- Uma ferida não consegue cicatrizar enquanto continua sendo encoberta e negada. Pg 97.
- Etiquetas são distribuídas pelos pais, de acordo com o que não suportam nos filhos (você é má, boba, um peso...). Mas a criança não precisa permanecer prisioneira dessa receita. Basta um professor que a ajude a questioná-las. Isso nem é tão difícil, mas raramente é realizado. Pg 99.
- Jovens ainda não afirmam que: "Apesar das surras eu me tornei grande forte". Eles ainda não conseguiram captar o alcance disso, pois as lembranças das surras ainda são recentes. Pg 98.
- Uma criança, por meio do medo, não consegue aprender nada além de sentir medo. Pg 101.
- A criança obtém da testemunha conhecedora o que os pais lhe negaram: a prova de que as suas percepções estão corretas, de que crueldade e manipulação são o que são, de que a criança nao precisa ser obrigada a ver amor nelas, de que esse conhecimento é necessário para sermos autênticos e podemros amar. Pg 104.
- Se no passado não fomos castigados pelos nossos erros, se nos explicaram com amor o que era inadequado, ou até perigoso em nosso comportamento, podíamos nos arrepender espontaneamente e assimilar a experiência de que, como seres humanos, não somos infalíveis. Mas, se formos castigados pelos nosso pais por causa de qualquer deslize, então captamos a mensagem de que é arriscado reconhecermos os próprios erros, porque isso nos subtrai o amor dos pais. Essa experiência pode provocar os futuros sentimentos de culpa e medo. Pg 116.
- Por outro lado, existem pessoas que foram duramente castigadas pelos pais por qualquer deslize, e no presente se culpam e se deixam culpar por tudo p que acontece. Comportam-se como crianças pequenas que querem sempre ser boazinhas para receber amor e não ficar sozinhas. Pg 117.
- Considero ilusão que os sentimentos desparecem quando se perdoam os pais e se substituem os sentimentos negativos por positivos. A longo prazos os sentimentos não se deixam manipular. Muitas vezes eles se fazem notar em perturbações somáticas. Pg 125.
- O castigo produz o medo e geralmente coloca a criança num estado de estupor, de paralisia, no qual não há mais possibilidade de uma reflexão tranquila, porque o pavor preenche toda a sua consciência. E as novas experiências e informações não têm influência sobre esses medos tão cedo armazenados no corpo e sobre os bloqueios de pensamento daí resultantes. Pg 132.
- Ainda que o corpoda criança registre a falta de uma afeição autêntica, a criança não consegue ordenar tudo isso. Ela se refugia na compaixão pelos pais, e o amor que sente por eles a ajuda a manter a sua dignidade, apesar de tudo. Pg 133.
Indicações trazidas pelo livro:
- Livro: "No princípio era a educação". Mesma autora.
- Livro: "Não deverás perceber". Mesma autora.
- Livro: "O drama da criança dotada". Mesma autora.
- Livro: Plain talk about spanking. Mesma autora.
- Livro: "Abrindo-se". James W. Pennebaker.
- Livro: "As máscaras da infâmia". Marie-France Hirigoyen
- Site: The-forbidden-issue-alicemiller.org.
- Site: Nospank.org.
- Organisation Parenting without Punishing.
- Livro Molecules of Emotion. Candace B Pert.
- Livro A rede das emoções. Joseph LeDoux.
- Pessoas: Donald Capps, Daniel L Stern, John Bowlby, Frédérick Leboyer, Michel Odent, Bassel Van der Kolk.