O grande gênio de Miguel Torga não está na tal "crítica social" que sempre tediosamente se lhe atribui, mas na riqueza sociológica e antropológica de seus personagens, na força dos conflitos que eles vivem; no realismo, enfim, mas um realismo que transcende a postura fácil do vitimismo social. Seus personagens são, acima de tudo, vítimas ou heróis de si mesmos, não da sociedade apenas. Torga mostra a desgraça do progresso, mas também a desgraça do provincianismo e da superstição. É verdade que, quando mostra coisas boas, é sempre do lado do tradicional. Mas isso não lhe tira o mérito.
Trata-se de um mestre do conto, que nos faz rir e chorar, em contos diferentes ou até num mesmo conto. Rimos do engraçado e do ridículo, choramos pelos outros e com os outros. O ser humano feliz de Torga é feliz na simplicidade, que muitas vezes o mundo moderno lhe toma. O seu ser humano triste o é na secura de sua situação, que é e sempre foi assim, mas não só por culpa de outros, como também de si mesmo. Não há ali sugestão de soluções possíveis, apenas retrato. Retrato da inveja, do ódio, da falta de solidariedade, mas também dos opostos disso. O retrato, no entanto, vai além da descrição. Aprofunda-se, embora só o estritamente necessário, na psicologia dos sujeitos. E os elementos de surpresa, tanto ao fim da narrativa quanto durante ela, prendem o leitor e garantem o interesse da leitura. Os contos trazem sempre uma "moral", ainda que por vezes apenas sugerida, e nunca fácil e diretamente proferida.
O livro é leitura de primeira qualidade. E o "Bichos" não é o melhor livro da antologia.