Corria o ano de 2001 quando a Assírio & Alvim publicou a primeira edição da Poesia Reunida de Manuel António Pina. Pouco depois escrevia Eduardo Prado Coelho no Público: «Talvez agora, no momento em que a Assírio & Alvim publica a Poesia Reunida de Manuel António Pina, estejamos em condições de poder afirmar que nos encontramos perante um dos grandes nomes da poesia portuguesa actual. Uma extrema delicadeza pessoal, uma discrição obsessiva, uma cultura ziguezagueante e desconcertante, mas sempre subtil e envolvente, um sentido profundo da complexidade da literatura, e também, sobretudo, da complexidade da vida, têm talvez impedido a descoberta plena e mediática deste jornalista e homem de letras também voltado para os jogos mais leves e embaladores da literatura infantil. Contudo, torna-se imperioso dizê-lo agora: este tom deliberadamente menor sustenta uma obra maior da literatura portuguesa». A edição que agora se apresenta, numa belíssima edição encadernada e substancialmente ampliada, inclui todo o trabalho poético do autor de 1974 a 2011.
Manuel António Pina foi um jornalista e escritor português, galardoado em 2011 com o Prémio Camões.
O autor licenciou-se em Direito em Coimbra e foi jornalista do Jornal de Notícias durante três décadas. É actualmente cronista do Jornal de Notícias e da revista Notícias Magazine.
A sua obra é principalmente constituída por poesia e literatura infanto-juvenil. É ainda autor de peças de teatro e de obras de ficção e crónica. Algumas dessas obras foram adaptadas ao cinema e TV e editadas em disco.
A sua obra está traduzida em França (francês e corso), Estados Unidos, Espanha (espanhol, galego e catalão), Dinamarca, Alemanha, Países Baixos, Rússia, Croácia e Bulgária.
As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito cedo, e as que calei por serem muito tarde, e agora, sem tempo, me ardem; as que troquei por outras (como poderei esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?); qs que perdi, verbos e substantivos de que por um momento foi feito o mundo e se foram levando o mundo. E também aquelas que ficaram, por cansaço, por inércia, por acaso, e com quem agora, como velhos amantes se desejo, desfio memórias, as minhas últimas palavras.
Os livros
É então isto um livro, este, como dizer?, murmúrio, este rosto virado para dentro de alguma coisa escura que ainda não existe que, se uma mão subitamente inocente a toca, se abre desamparadamente como uma boca falando com a nossa voz? É isto um livro, esta espécie de coração (o nosso coração) dizendo 'eu' entre nós e nós?
Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte
Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste; talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.
Algo, de facto, deve ter acontecido, porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume, quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano.
Há apenas agora um buraco aqui, não sei onde, uma espécie de falta de alguma coisa insolente e amável, de qualquer modo, aliás, altamente improvável.
Depois, de gato para baixo, mortos (lembrei-me disso de repente, agora que voltaste malevolamente a ti) estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.
Só conhecia Manuel António Pina da sua coluna na última página do JN. Não me lembro de ler todas, mas as que li achei interessantes, sendo que na altura não deveria haver muitos adolescentes a lê-las.
Este contacto com a sua poesia foi muito interessante, pois os seus poemas penso que refletem muitos acontecimentos/momentos da sua vida, mesmo eu não sabendo nada da sua biografia, foi com essa impressão que fiquei.
São poemas que nos fazem sentir algo, lembrar alguma coisa ou momento. São poemas simples e acessíveis, não querendo com isto diminuí-los, mas a poesia não tem de ser complicada, penso eu.
Nem todos os poemas me disseram algo de especial, alguns até li sem olhos de ler, mas há uma beleza na poesia de Manuel António Pina que é inegável.
Manuel António Pina, disse-o um certo professor de Filosofia, foi o digno sucessor de Pessoa. Não pelo estilo ou pelos artifícios, mas pela capacidade de conduzir a linguagem na exploração de si mesma, de re-inventar as palavras pelo «lado de dentro». Quem, como ele, escreveu: «São feitas de palavras as palavras/ e da melancolia da/ ausência da prosa e da ausência da poesia»? Foi essa investigação poética do interior do discurso que me deixou rendido. Noutras vezes (como no poema «O regresso») foi a simplicidade, a força de em cada frase inscrever um universo de significados. De, no significado, procurar de novo. Ouve-se por aqui o melhor de Eliot, de Kavafis, de Rilke, de Rimbaud, Éluard, e ao mesmo tempo, algo completamente próprio. Não adianta dizer muito mais. Para ser justo havia que transcrever páginas inteiras, conduzir uma longa monografia que seria sempre menos, muito menos, do que o poeta pode dizer. Ouçamos a sua voz:
«Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira vez na sua cama. Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças, cidades, estações do ano. E come agora por fim um pão primeiro sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.»
📘 Li, reli e voltei a ler... Se compreendi? Muito longe da compreensão e sinceramente não me importei... 📜 Muitas das palavras e dos versos não os entendi, mas de uma forma enigmática, senti-os... 📙 Pouco percebo de poesia como já o referi muitas vezes, mas sinto por ela uma grande admiração quando a mesma me desperta sensações, mesmo as mais sombrias, camufladas, escondidas... 🌷Demorei muito tempo a ler este livro, quis saboreá-lo com calma, sem pressas nem ansiedades. ♥️ É verdade que alguns poemas me tocaram mais no coração do que outros, mas de um modo geral considerei a obra primorosa. 🏚️ Manuel António Pina um homem das beiras, meu conterrâneo; lembro-me quando era mais nova de me cruzar com ele, algumas vezes, nas ruelas da nossa vila e na esplanada do Largo da Fonte, sabia lá eu que era um grande poeta, um grande homem. Mas era... O Sabugal não o esqueceu e eu também não.
Conhecia alguns poemas através de "O poema ensina a cair" e por isso sabia que ia gostar desta antologia. Gastei um molho de post-its para poder mais tarde revisitar "Todas as palavras".
"Sétimo dia
Voltámos, um a um, da tua morte para a nossa vida como quem regressa a casa de uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países, e agora é como se te tivéssemos sonhado.
A voz que, diante da escuridão, suspendemos quando se desmoronou o mundo para o fundo de ti erguêmo-la de novo para os afazeres diurnos e para as horas comuns.
Ainda ontem estávamos sozinhos diante do Horror e já somos reais outra vez! A própria dor adormeceu no nosso colo como um animal de companhia."
“Era uma vez um menino que gostava de brincar com as palavras. Tanto brincou que elas ficaram baralhadas e formaram grinaldas. Nessa festa pintalgada, surgiram gatos e sapatos e “noves-fora-nada”. Ouvindo todo o banzé, mais meninos se aproximaram e (olha) ficaram espantados: é que o menino já estava a criar todo um reino de encantar…”
Quase poderia cometer a imprudência de encontrar certas semelhanças com a vida de um mísero alentejano. Mas esta introdução catita pretende ilustrar as paixões de Manuel António Pina, um homem simples que rapidamente nos deixa embevecidos com a sua arte “palavrista”, qual flautista de Hamelin, hipnotizando todos os que quiserem cirandar pelas suas quase cantilenas, com repetições, aliterações, alusões e uma recorrente justaposição de ideias opostas (quase criando uma reação de fusão nuclear na mente do leitor).
As palavras sempre rodearam a vida deste autor, desde tenra idade. Desta fonte brotaram poemas, contos e teatro que remetem a um tema constante na sua obra: a infância. Não são estas memórias que vão construindo a essência do nosso ser? Ao ler Pina, como um vórtice, assina-se um pacto para partir “em busca desse tempo perdido”, à sombra de um Peter Pan inveterado.
A genialidade de Pina manteve-se constante ao longo da sua obra. No entanto, há espaço para a evolução, culpa da sua alteridade permanente que abarca diferentes espectros, ofertando um radiante caleidoscópio. Há referências bíblicas, apesar do seu ateísmo; há um fascínio pela física, última opção para entender os mistérios da vida(!?); há crítica social, face aos tempos conturbados vivenciados; há desânimo, pelo caminho tomado pela sociedade; há uma busca pelo sentido da vida…
Dizem os antigos que “a noite é boa conselheira”. E Pina terá usado a noite como sua musa inspiradora. Dela colheu as palavras encaixadas em composições que corroem a mente e se incrustam no nosso âmago, quase usurpando a nossa essência. Após essa escuridão purgante, viria a penumbra, quando é possível começar a vislumbrar um azul celeste, a cor predominante da poesia de Pina. Ânsia pelo desconhecido ou procura de serenidade?
Quantas palavras poderemos tecer mais numa manta de retalhos sem fim, que se transforma em tapete voador? Todas as palavras serão poucas para comentar o seu mestre!
"Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo e às vezes depressa, meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no amor como em casa."
***
9/10 Não importa a comoção que os outros poemas me oferecem, nem importa a quantidade de vezes que os leia: regresso sempre ao mesmo poema, como se fosse o aglutinador de toda a obra de Manuel António Pina.
"De súbito extinguiu-se qualquer coisa, soltou-se qualquer peça de uma máquina incompreensível de que dependia, afinal, a minha vida; tornou-se tudo demasiadamente literal, até eu estar ali, sem compreender; e até eu não compreender parecia algo inteiramente incompreensível; o mundo, que via pela primeira vez, via-o através de uns olhos que não me pertenciam, que não pertenciam, porque eu próprio era um acontecimento incompreensível acontecendo, algo que me acontecia não sabia a quem; o comboio afastava-se levando-te para fora de mim como alguém sonhando, e eu e tudo o que de mim sabia desaparecera e ficara um sítio vazio onde as últimas horas da tarde como aves extenuadas pousavam."
Nestes meses que li aos poucos Manuel António Pina tem sido uma lufada de palavras desconcertantes, surpreendentes, mas sempre belas. A escrita e a literatura, o amor, a solidão, a morte e, claro, os gatos, são constantes, assim como ecos de Fernando Pessoa.
« It's all right ma... Está tudo bem, mãe, estou só a esvair-me em sangue, o sangue vai e vem, tenho muito sangue.
Não tenho é paciência, nem tempo que baste (nem espaço), deixaste-me pouco espaço para tanta existência. (...)» P.186
Um livro obrigatório para todos os amantes de poesia. Li e reli inúmeras vezes os diversos poemas que este livro contém, ficando tão absorto na leitura que o acabei em pouco mais de 24 horas. A verdade é que não estarão aqui reunidas todas as palavras, mas decerto estão as suficientes para que esta obra possa ser considerada um verdadeiro marco no que concerne à poesia portuguesa. Um livro verdadeiramente imperdível. Genial. Um livro que certamente me ficará na memória por muito tempo.
O Manuel António Pina é um velhinho tão amoroso que é inesperado sentir a morte de forma tão intensa como sente na poesia. Enfrenta o luto e a falta de esperança com as palavras.
Confesso que a poesia de Manuel António Pina nunca me encantou muito. Não gosto do modo como faz uso das repetições, e depois, acontece-me muito com os poemas dele, estou a gostar muito do poema e acaba de um modo que não gosto nada.
Queria conhecer mais poemas de Manuel António Pina e de facto estarem todos num só livro foi uma mais valia. Acabei por descobrir um poeta que tanto falou da morte. Não tinha essa ideia antes de começar e talvez por isso tenha demorado mais do que esperava para o ler na totalidade.
Manuel António Pina foi o autor homenageado, na edição deste ano, na Feira do Livro do Porto. Como só tinha lido textos soltos, quis aproveitar a oportunidade para me perder na sua poesia. Todas as Palavras revelou-se uma viagem intimista, como se estivesse sempre a regressar a casa. Deambulando pelas palavras, pelo silêncio, pela finitude, pela consciência de si, pela saudade e pela trivialidade da vida, temos sempre presente o que é real e aquilo que só o aparenta ser. Sinto que Pina nos deixa margem para fazermos distintas interpretações, dependendo do momento em que lermos os seus poemas. Hei-de relê-los e descobrir novos significados. Hei-de compreendê-los, mesmo sabendo que nunca os compreenderei em pleno. A sua escrita é desconcertante, mas também nos reserva o aconchego de um abraço. Sem desmerecer os restantes, digo-vos que Amor como em casa é um dos poemas mais bonitos que já li na vida
"As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito cedo, e as que calei por serem muito tarde, e agora, sem tempo, me ardem; as que troquei por outras (como poderei esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?); as que perdi, verbos e substantivos de que por um momento foi feito o mundo e se foram levando o mundo. E também aquelas que ficaram, por cansaço, por inércia, por acaso, e com quem agora, como velhos amantes sem desejo, desfio memórias, as minhas últimas palavras."
A poesia tem a capacidade construtiva, objectiva e singular de dar o que é invisível aos olhos. Manuel António Pina descreve o quotidiano, o seu, com singularidade de um poeta que vê com o coração. A racionalidade dos acontecimentos ganham levezas estranhas, olhares peculiares e que promove uma realidade quase que paralela. É um poeta dotado de inteligência, de sobriedade e talento. Quem olha para um objecto e escreve como escreve, tem que ser um ser dotado de um talento só ao alcance dos maiores. Manuel António Pina foi um dos maiores, entre os os maiores.
Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que não é nada comigo. Distraído percorro o caminho familiar da saudade, pequeninas coisas me prendem, uma tarde num café, um livro. Devagar te amo e às vezes depressa, meu amor, e às vezes faço coisas que não devo, regresso devagar a tua casa, compro um livro, entro no amor como em casa.
O facto deste Homem ter nascido no Sabugal dá me um orgulho enorme. Dos melhores livros de poesia que já li, incrível, contemporaneo mas profundo, dorido, penoso. Afinal a poesia serve para quê? Para nada!
"Primeiro sabem-se as respostas. As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde e pousando, uma a uma, no coração quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas..."
A poesia do Manuel António Pina conquistou-me na simplicidade e no humor, mas não me perdeu quando se tornou complexa e fez-me ter pena de não se lerem mais poemas assim, menos artificias, na escola.
Disfruté mucho la lectura de este libro. La obra poética de Manuel António Pina juega con las contradicciones y hace de ellas un reflejo del mundo, tanto literario como real, que el poeta portugués desea expresar, lo que sin duda logra de una excelente forma. Una poesía que resulta en un constante descubrimiento de todo lo que somos sin ser y todo lo que no somos siendo. (Eu gostei muito ler este livro. A poesia de Manuel António Pina joga com as contradições e torna-se um reflexo do mundo, literario e real, que o poeta português deseja mostrar, o que certamente alcança de uma forma brilhante. Uma poesia que está em constante descoberta de tudo o que somos não sendo e tudo o que não somos sendo).
Naquele tempo falavas muito de perfeição, da prosa dos versos irregulares onde cantam os sentimentos irregulares. Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim e eu já não fico a ouvir-te como antigamente olhando as tuas pernas que subiam lentamente até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora de liceu; Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu. Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes, e não caminhos por andar como dantes.