What do you think?


O Bem-Amado
Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira, lugarejo do interior baiano, protótipo do político interiorano, com vocação para a verborragia e demagogo por natureza, espelho do homem público de província latino-americana, tem por ideal mórbido e fixo dar à pacata e sonolenta comunidade, onde há muito ninguém morreu ou algum crime é cometido, um cemitério. Para isso, no entanto, e assim satisfazer seus sonhos de grandeza, é forçoso "encontrar" um morto. E em política, declara Odorico, "os finalmentes justifica os não obstantes". Assim, um cangaceiro famoso ascende ao posto de delegado, um órgão de imprensa é invadido, a honra de uma esposa é maculada e ela se torna pivô e alvo de sangrento atentado, a mentira e a calúnia grassam, tudo isso acobertado pela malícia e o cinismo do experimentado politiqueiro. A linha que cose todo o entrecho é inegavelmente a fala arrevesada e pretensiosa da figura do prefeito, que, com sua lábia, eivada de saborosos neologismos (e a frase oswaldiana, "A milionária contribuição de todos os erros" imediatamente vem à tona), leva no bico a tudo e a todos.
144 pages, Hardcover
First published January 1, 1962
About the author
Dias Gomes
26 books20 followersAlfredo de Freitas Dias Gomes, mais conhecido pelo sobrenome Dias Gomes, foi um romancista, dramaturgo, autor de telenovelas e membro da Academia Brasileira de Letras.
Ratings & Reviews
Friends & Following
Create a free account to discover what your friends think of this book!
Community Reviews
Displaying 1 - 30 of 63 reviews
February 6, 2020
ODORICO
“O senhor sabe ler?
ZECA
De carreirinha, não, mas soletrando, vai”
“O senhor sabe ler?
ZECA
De carreirinha, não, mas soletrando, vai”
December 31, 2024
Cresci vendo o Paulo Gracindo fazendo miséria com seu Odorico Paraguaçu da TV, portanto é uma delícia finalmente ir ao texto original e ficar lembrando dele e dos demais atores que encarnaram tais personagens tão icônicos. O texto por si só é uma delicinha de ler, além do componente crítico não apenas da política do Brasil profundo, mas como a macropolitica que ainda vemos hoje.
February 6, 2021
É incrível como a peça O Bem-Amado, de Dias Gomes, ainda continua bastante atual – talvez tenha até ganhado uma nova camada, ao ter ao seu centro a necropolítica. A sátira à política brasileira, por si só, é atemporal, mas no atual cenário, o texto encontra um novo fôlego. Odorico Paraguaçu é o típico candidato populista brasileiro, o que já deixa a peça sempre na moda, e se elege prefeito com uma única proposta: construir um cemitério na cidade de Sucupira, que não tem nenhum. Ora, é uma promessa válida e necessária, mas há um gosto pelo mórbido. Ele não tem planos sociais, para educação ou melhoria de outras coisas na cidade, apenas o cemitério.
Ao ser eleito, como diz Anatol Rosenfeld, Odorico gasta “o dinheiro que se destina à vida (água, luz)” com a morte. Após a construção da necrópole, a expectativa da morte de algum cidadão torna-se uma necessidade, mas como isso não acontece, o jeito é contratar um pistoleiro, Zeca Diabo, para dar cabo de alguém e inaugurar o cemitério, com toda pompa e circunstância.
Que a política brasileira é pautada pela hipocrisia não é nenhuma novidade, nesse sentido, Dias Gomes não inventa nada, mas O Bem-Amado sabe como caçoar disso tudo. Não devia haver nenhuma revelação na peça no quando de sua estreia em 1962, e nem agora, mas ela tira o véu do jogo cínico do poder que parece ser a base do governismo no Brasil, fora isso, o texto é muito engraçado com seus tipos – em especial, obviamente, o protagonista, dado a criar neologismo, em especial advérbios, como “prafrentemente”.
Ao final do 5o quadro, Odorico diz: “Em política, os finalmentes justificam os não-obstantes”, e a peça toda gira em torno disso, os desvios de condutas que precisam ser justificados em nome de um, suposto, progresso, que, no caso, é a inauguração do cemitério. Há uma série de intrigas para que isso finalmente aconteça selando o destino não muito inesperado do seu protagonista.
Ao ser eleito, como diz Anatol Rosenfeld, Odorico gasta “o dinheiro que se destina à vida (água, luz)” com a morte. Após a construção da necrópole, a expectativa da morte de algum cidadão torna-se uma necessidade, mas como isso não acontece, o jeito é contratar um pistoleiro, Zeca Diabo, para dar cabo de alguém e inaugurar o cemitério, com toda pompa e circunstância.
Que a política brasileira é pautada pela hipocrisia não é nenhuma novidade, nesse sentido, Dias Gomes não inventa nada, mas O Bem-Amado sabe como caçoar disso tudo. Não devia haver nenhuma revelação na peça no quando de sua estreia em 1962, e nem agora, mas ela tira o véu do jogo cínico do poder que parece ser a base do governismo no Brasil, fora isso, o texto é muito engraçado com seus tipos – em especial, obviamente, o protagonista, dado a criar neologismo, em especial advérbios, como “prafrentemente”.
Ao final do 5o quadro, Odorico diz: “Em política, os finalmentes justificam os não-obstantes”, e a peça toda gira em torno disso, os desvios de condutas que precisam ser justificados em nome de um, suposto, progresso, que, no caso, é a inauguração do cemitério. Há uma série de intrigas para que isso finalmente aconteça selando o destino não muito inesperado do seu protagonista.
February 8, 2021
Sensacional! Odorico Paraguaçu continua super atual (e engraçadíssimo):
"...é uma alegria poder anunciar que prafrentemente vocês já poderão morrer descansados, tranquilos e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira. E quem votou em mim, basta dizer isso ao padre na hora da extrema-unção, que tem enterro e cova de graça, conforme o prometido".
E o Zeca Diabo:
Odorico: O senhor sabe ler?
Zeca Diabo: De carreirinha, não, mas soletrando, vai.
Hahahaha! Pra quem se lembra desses dois na pele dos PERFEITOS Paulo Gracindo e Lima Duarte, fica melhor ainda!
"...é uma alegria poder anunciar que prafrentemente vocês já poderão morrer descansados, tranquilos e desconstrangidos, na certeza de que vão ser sepultados aqui mesmo, nesta terra morna e cheirosa de Sucupira. E quem votou em mim, basta dizer isso ao padre na hora da extrema-unção, que tem enterro e cova de graça, conforme o prometido".
E o Zeca Diabo:
Odorico: O senhor sabe ler?
Zeca Diabo: De carreirinha, não, mas soletrando, vai.
Hahahaha! Pra quem se lembra desses dois na pele dos PERFEITOS Paulo Gracindo e Lima Duarte, fica melhor ainda!
January 24, 2025
Incrível como o texto da peça é bom, é engraçado e traz personagens bem únicos. Gostei muito da versão que eu li contar com prefácio explicando mais sobre a obra, tanto sua concepção, quanto adaptações para novela e seriado em plena ditadura militar.
April 5, 2021
Curtinho e muito legal!!!
March 1, 2017
"O bem-amado" faz parte do imaginário do brasileiro contemporâneo, como o futebol, o carnaval; Sucupira e Odorico constroem o tipo-Brasil, e a utopia inversa. Na mestria do teatro de Dias Gomes, é difícil desgostar da peça que, além de bastante profunda moral e politicamente, é engraçadíssima.
Começa-se pela situação cômica estabelecida a priori no texto e seu absurdo que advém disso: a busca por um defunto. Assim é a utopia inversa de Sucupira: uma cidade em que se busca alguém para morrer, mas de tão pacata e boa, até cura os moribundos; que pergunte-se a Ernesto!
Repleta de reviravoltas e uma profundidade assustadora dos personagens, o texto conciso de Dias Gomes é muito cativante e chamativo, não à toa é um grande sucesso popular depois de adaptado para a televisão na década de 70 e para o cinema recentemente.
Quem é Odorico se não grandes figuras da política como Getúlio Vargas, Lula, João Dória e Michel Temer? Quem é Neco Pedreira se não jornalistas em busca de furos sensacionalistas como a Folha de S. Paulo e o Estadão? Quem é Zeca Diabo e Dorotéa se não todos nós, assomados pelas dificuldades de que não somos inteiramente culpados, mas que também nos responsabilizamos; porém, acima de tudo, que estamos nas mãos da política demagoga e da imprensa marronzista?
Difícil é desgostar de Dias Gomes, difícil é não se identificar n'O Bem-Amado.
Começa-se pela situação cômica estabelecida a priori no texto e seu absurdo que advém disso: a busca por um defunto. Assim é a utopia inversa de Sucupira: uma cidade em que se busca alguém para morrer, mas de tão pacata e boa, até cura os moribundos; que pergunte-se a Ernesto!
Repleta de reviravoltas e uma profundidade assustadora dos personagens, o texto conciso de Dias Gomes é muito cativante e chamativo, não à toa é um grande sucesso popular depois de adaptado para a televisão na década de 70 e para o cinema recentemente.
Quem é Odorico se não grandes figuras da política como Getúlio Vargas, Lula, João Dória e Michel Temer? Quem é Neco Pedreira se não jornalistas em busca de furos sensacionalistas como a Folha de S. Paulo e o Estadão? Quem é Zeca Diabo e Dorotéa se não todos nós, assomados pelas dificuldades de que não somos inteiramente culpados, mas que também nos responsabilizamos; porém, acima de tudo, que estamos nas mãos da política demagoga e da imprensa marronzista?
Difícil é desgostar de Dias Gomes, difícil é não se identificar n'O Bem-Amado.
February 18, 2020
Escrito há muito tempo, mas infelizmente ainda muito atual, valendo para diferentes escalas da política brasileira.
Tudo se resume à campanha para se manter no poder, independentemente do preço, para que o político seja "bem-amado", vale tudo.
Áreas importantes sofrem pois seus recursos são desviados.
Mas no fim, por mais que a oposição ataque ao longo de um grande tempo, a maioria é sempre "farinha do mesmo saco".
Tudo se resume à campanha para se manter no poder, independentemente do preço, para que o político seja "bem-amado", vale tudo.
Áreas importantes sofrem pois seus recursos são desviados.
Mas no fim, por mais que a oposição ataque ao longo de um grande tempo, a maioria é sempre "farinha do mesmo saco".
August 19, 2020
dias gomes rainho sempre
March 10, 2021
Acho que nunca tinha lido e vi no Goodreads alguém que leu e falou bem e era curtinho... me lembrou muito O alienista, com a ironia terrivelmente política por trás de cada página e o drama culturalmente tão latino saltando pelas páginas. (ainda gosto mais do Alienista, contudo).
April 11, 2022
(PT) Na povoação de Sucupira, algures da Bahia, o perfeito Odorico Paraguaçu tem um problema: construiu um cemitério... e não tem defunto. E necessita de um. Rapidamente.
September 26, 2026
Muito legal. Me senti dentro de uma peça de teatro
July 12, 2025
Com certeza uma das peças mais engraçadas que eu já li.
Gostei bastante da forma que Dias Gomes faz com que Oderico se aprofunde cada vez mais em problemas, apenas para satisfazer seus interesses!
Gostei bastante da forma que Dias Gomes faz com que Oderico se aprofunde cada vez mais em problemas, apenas para satisfazer seus interesses!
February 20, 2026
Fácil e gostosinho de ler, com personagens super engraçados, faz crítica social e política super atual em qualquer lugar do mundo - ainda que se passe no litoral do interior da Bahia e seja baseado em uma história real no Espírito Santo. Adoraria ver essa peça encenada. Ansiosa pra ler O Pagador de Promessas.
February 1, 2021
Livro muito bom. Muito engraçado, divertido e atual(?)
May 23, 2023
É borboletista juramentado!
June 2, 2024
Engraçadissmo! Mesmo sendo curto, você sente que está presente na sala com os personagens e vendo tudo aqui se desenvolver...
March 15, 2019
Brasil em uma vila
August 9, 2019
ri mt adorei
May 30, 2020
Odorico rules!
September 5, 2020
é engraçado de tão absurdo e absurdo de tão real
"Adeus Odorico, o Grande, o Pacificador, o Desbravador, o Honesto, o Bravo, o Leal, o Magnífico, o Bem-amado..."
"Adeus Odorico, o Grande, o Pacificador, o Desbravador, o Honesto, o Bravo, o Leal, o Magnífico, o Bem-amado..."
This entire review has been hidden because of spoilers.
Read
August 7, 2026Escrita originalmente em 1962, a peça O Bem-Amado ambienta-se na cidade fictícia de Sucupira, no litoral baiano. A trama tem início quando o funeral de um morador precisa ser deslocado a pé para outro município, dada a ausência de um cemitério local. Observando a cena, o influente e abastado Odorico Paraguaçu visualiza uma oportunidade política e lança sua candidatura à prefeitura, tendo como principal plataforma eleitoral a promessa de construir o primeiro cemitério da cidade.
Eleito sob uma plataforma demagoga e populista, Odorico concretiza a obra mediante o redirecionamento de verbas de serviços essenciais, como água e luz, e o desalojamento de um circo local. Contudo, surge um impasse central para a administração: após a inauguração da necrópole, ninguém morre em Sucupira. Diante do impasse e das crescentes críticas do jornalista Neco Pedreira — proprietário do jornal oposicionista A Trombeta —, o prefeito passa a engendrar manobras para obter um cadáver e inaugurar a obra pública. Odorico financia, com recursos públicos, a vinda do primo moribundo de suas aliadas políticas, as irmãs Cajazeiras (Doroteia, Dulcineia e Judite). Contudo, ao chegar ao município, o enfermo apresenta surpreendente melhora climática e de saúde, frustrando os planos do gestor. O prefeito promove o retorno do ex-pistoleiro Zeca Diabo, nomeando-o delegado na esperança de que este cometa um homicídio. No entanto, o jagunço revela-se regenerado e avesso a matar sem justificativa legítima. Ao saber que o secretário Dirceu Borboleta suspeita de adulteria, Odorico atribui falsamente o caso ao jornalista Neco Pedreira. O prefeito fornece uma arma a Dirceu esperando que este elimine o opositor. Em um surto de descontrole, Dirceu acaba assassinando a própria esposa, Dulcineia — que, na realidade, mantinha um caso secreto com o próprio Odorico. Apesar de finalmente obter um corpo, a tentativa de sepultamento é interrompida por reivindicações familiares para que a falecida seja enterrada em outra localidade. Paralelamente, o jornalista Neco Pedreira desmascara as tramas do prefeito em uma reportagem investigativa. Encurralado pela revolta popular, Odorico tenta convencer Zeca Diabo a simularem um atentado para transformá-lo em vítima. Diante da proposta de traição, o pistoleiro reage e assassina o próprio prefeito. ironicamente, Odorico Paraguaçu torna-se o primeiro cadáver a inaugurar o cemitério de Sucupira, sendo sepultado com honras formais e elevado pela população à condição de mártir e "bem-amado".
O Bem-Amado constitui uma sátira contundente às estruturas do coronelismo, do populismo e da demagogia na política brasileira. A peça expõe a instrumentalização das necessidades coletivas em prol de interesses pessoais de poder, utilizando a ironia, o humor ácido e o absurdo para desenhar o retrato da alienação social e do fisiologismo.
Uma das marcas registradas da construção de Odorico Paraguaçu é o uso da verborragia pomposa e mal-empregada para conferir uma ilusão de eruditismo ao discurso populista. O personagem recorre a neologismos e equívocos vocabulares — como "parafrentemente", "desprocedentemente" ou tropeços conceituais na citação dos anais da história — para impressionar e manipular o eleitorado, evidenciando como a forma do discurso muitas vezes se sobrepõe ao seu conteúdo real. A obra explora a dualidade da moral vigente por meio de personagens como as irmãs Cajazeiras. Aparentes guardiãs dos costumes e da religiosidade local, as irmãs mantêm relacionamentos extraconjugais ocultos com o próprio prefeito. O texto expõe, assim, a distância entre a conduta pública preceituada e a prática privada, criticando o moralismo de fachada como elemento de sustentação de oligarquias.
O desfecho da narrativa sintetiza a crítica ao mito político: o gestor desprovido de escrúpulos éticos, ao ser vitimado pelas próprias maquinações, é absorvido pela memória coletiva de forma idealizada. O sepultamento de Odorico com honras de herói reflete o ciclo de apaziguamento e esquecimento que muitas vezes perpetua figuras populistas na imaginação popular.
Eleito sob uma plataforma demagoga e populista, Odorico concretiza a obra mediante o redirecionamento de verbas de serviços essenciais, como água e luz, e o desalojamento de um circo local. Contudo, surge um impasse central para a administração: após a inauguração da necrópole, ninguém morre em Sucupira. Diante do impasse e das crescentes críticas do jornalista Neco Pedreira — proprietário do jornal oposicionista A Trombeta —, o prefeito passa a engendrar manobras para obter um cadáver e inaugurar a obra pública. Odorico financia, com recursos públicos, a vinda do primo moribundo de suas aliadas políticas, as irmãs Cajazeiras (Doroteia, Dulcineia e Judite). Contudo, ao chegar ao município, o enfermo apresenta surpreendente melhora climática e de saúde, frustrando os planos do gestor. O prefeito promove o retorno do ex-pistoleiro Zeca Diabo, nomeando-o delegado na esperança de que este cometa um homicídio. No entanto, o jagunço revela-se regenerado e avesso a matar sem justificativa legítima. Ao saber que o secretário Dirceu Borboleta suspeita de adulteria, Odorico atribui falsamente o caso ao jornalista Neco Pedreira. O prefeito fornece uma arma a Dirceu esperando que este elimine o opositor. Em um surto de descontrole, Dirceu acaba assassinando a própria esposa, Dulcineia — que, na realidade, mantinha um caso secreto com o próprio Odorico. Apesar de finalmente obter um corpo, a tentativa de sepultamento é interrompida por reivindicações familiares para que a falecida seja enterrada em outra localidade. Paralelamente, o jornalista Neco Pedreira desmascara as tramas do prefeito em uma reportagem investigativa. Encurralado pela revolta popular, Odorico tenta convencer Zeca Diabo a simularem um atentado para transformá-lo em vítima. Diante da proposta de traição, o pistoleiro reage e assassina o próprio prefeito. ironicamente, Odorico Paraguaçu torna-se o primeiro cadáver a inaugurar o cemitério de Sucupira, sendo sepultado com honras formais e elevado pela população à condição de mártir e "bem-amado".
O Bem-Amado constitui uma sátira contundente às estruturas do coronelismo, do populismo e da demagogia na política brasileira. A peça expõe a instrumentalização das necessidades coletivas em prol de interesses pessoais de poder, utilizando a ironia, o humor ácido e o absurdo para desenhar o retrato da alienação social e do fisiologismo.
Uma das marcas registradas da construção de Odorico Paraguaçu é o uso da verborragia pomposa e mal-empregada para conferir uma ilusão de eruditismo ao discurso populista. O personagem recorre a neologismos e equívocos vocabulares — como "parafrentemente", "desprocedentemente" ou tropeços conceituais na citação dos anais da história — para impressionar e manipular o eleitorado, evidenciando como a forma do discurso muitas vezes se sobrepõe ao seu conteúdo real. A obra explora a dualidade da moral vigente por meio de personagens como as irmãs Cajazeiras. Aparentes guardiãs dos costumes e da religiosidade local, as irmãs mantêm relacionamentos extraconjugais ocultos com o próprio prefeito. O texto expõe, assim, a distância entre a conduta pública preceituada e a prática privada, criticando o moralismo de fachada como elemento de sustentação de oligarquias.
O desfecho da narrativa sintetiza a crítica ao mito político: o gestor desprovido de escrúpulos éticos, ao ser vitimado pelas próprias maquinações, é absorvido pela memória coletiva de forma idealizada. O sepultamento de Odorico com honras de herói reflete o ciclo de apaziguamento e esquecimento que muitas vezes perpetua figuras populistas na imaginação popular.
September 19, 2026
Ano de eleição, que prazer ler essa peça baiana e poder gargalhar com todas as fictas artimanhas políticas. A sátira de Dias Gomes, claro, segue muito atual e tais artimanhas ainda são empregadas, visto os valores que regem a política seguem postos há muito. Mas é de fato engraçado refletir sobre tudo isso que nós humanos criamos, e como as coisas se distorcem e embaraçam em consequência das outras: a moral, o senso de justiça, a boa imagem, a ideia de sucesso e trabalho, o que um politico e a política devem ser. Quer dizer, o mais justo não necessariamente tem a melhor imagem, e não seria eleito senador o que mais trabalha se o fizesse calado. Se dou muitos passos pra trás e tento visualizar as coisas de fora, penso em como a lógica do funcionamento politico opera como Dias Gomes aqui coloca de forma muito simples.
E oooooutra, ai que saudade de uma peça! Ler já é gostoso demais, mas fiquei me coçando pra assistir com a interpretação, voz, corpo, movimento e ritmo - a linguagem para a qual esse texto foi concebido.
Pra quem quiser dar uma aliviada cômica e rápida nessas eleições enlouquecedoras, recomendo mto
E oooooutra, ai que saudade de uma peça! Ler já é gostoso demais, mas fiquei me coçando pra assistir com a interpretação, voz, corpo, movimento e ritmo - a linguagem para a qual esse texto foi concebido.
Pra quem quiser dar uma aliviada cômica e rápida nessas eleições enlouquecedoras, recomendo mto
June 5, 2022
"VOTE NUM HOMEM SÉRIO E GANHE SEU CEMITÉRIO"
Esse teatro é muito divertido e envolvente, sinto que consegui sair de uma fase da minha vida onde nada do que eu lia me agravada como eu queria (por pura hiperatividade literária), mas esse teatro, cara... Eu sinto capaz de ler até a bula do Neosoro!
É um teatro atemporal, e sempre que falamos de política e defunto na mesma frase quando se trata no Brasil - infelizmente - tornamos o assunto atemporal. Dias Gomes é muito sagaz, muito mesmo. Obrigada por me fazer rir, querido.
Esse teatro é muito divertido e envolvente, sinto que consegui sair de uma fase da minha vida onde nada do que eu lia me agravada como eu queria (por pura hiperatividade literária), mas esse teatro, cara... Eu sinto capaz de ler até a bula do Neosoro!
É um teatro atemporal, e sempre que falamos de política e defunto na mesma frase quando se trata no Brasil - infelizmente - tornamos o assunto atemporal. Dias Gomes é muito sagaz, muito mesmo. Obrigada por me fazer rir, querido.
December 13, 2022
A história não é nenhuma novidade, visto que já foi adaptada para a televisão e o cinema, mas saber o que acontecia não mudou em nada a diversão que foi acompanhar essa saga do prefeito em busca de um defunto.
Décadas se passaram desde a publicação e tudo continua tão atual que em alguns momentos eu ria de nervoso com a similaridade de algumas recentes situações.
Dias Gomes não foi conhecido como maioral à toa e o único lamento é que a história é curta demais. Tirando isso, é realmente ótima e vale muito a pena a leitura.
Décadas se passaram desde a publicação e tudo continua tão atual que em alguns momentos eu ria de nervoso com a similaridade de algumas recentes situações.
Dias Gomes não foi conhecido como maioral à toa e o único lamento é que a história é curta demais. Tirando isso, é realmente ótima e vale muito a pena a leitura.
February 28, 2023
Conhecer Dias Gomes através da televisão já é fascinante. Ler o texto de dramaturgia das peripécias de Odorico Paraguaçu é uma delícia. Vale a pena para observar a ideia do texto em cena e descobrir que a primeira encenação no Rio de Janeiro contou com Procópio Ferreira como Odorico.
September 26, 2024
mais um que sorteei da minha lista de leitura do goodreads. ele tinha sido colocado nela faz mtos anos então acredito que tenha sido recomendação de alguma professora da escola. bem engraçado e atemporal!
February 22, 2026
Um leitura deliciosa, rápida e divertida! E claro, repleto de nostalgia para quem cresceu dentro da cultura televisa dos anos 80. Uma peça da década de 60 que continua moderna, conversando muito bem com a realidade que vivemos.
Read
July 28, 2026"Melhor, assim teremos dois defuntos para inaugurar o cemitério. Ninguém mais vai dizer que é coisa inútil, que eu esbanjo dinheiro do povo. E a oposição perde duas vezes: perde Neco Pedreira e perde o assunto."
This entire review has been hidden because of spoilers.
August 12, 2026
livro bem escrito e muito atual. Com uma ótima crítica social Dias Gomes surpreende os leitores com uma narrativa humorística que escancara a corrupção política, enfatizando a presença de tantos Odoricos Paraguaçus no nosso país. Ótima leitura
Displaying 1 - 30 of 63 reviews




























